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quarta-feira, 27 de junho de 2012

PARA QUE A HISTÓRIA NÃO FIQUE ESQUECIDA - BANGUECOQUE



P.S. Estamos envolvidos na história de Portugal na Tailândia há mais de 30 anos. Não somo académicos, professores ou históriadores, somos o que somos com a 4ª classe do ensino primário elementar. Porém não nos assusta os académidos, portugueses, de oportunidades que de tempos a tempos surgem por aqui. A minha fonte está aberta para mergulharem e saciarem a sede os historiadores/académicos de ocasião.
 - José Martins

quinta-feira, 21 de junho de 2012

MEMÓRIAS DE BANGUECOQUE: AZEDAS E DOCES – HÁ 20 ANOS



Como já me referi, antes, tenho imensas memórias de Banguecoque, para contar, algumas azedas e outras doces.
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Memórias onde conto a minha actividade ao serviço da diplomacia portuguesa, na Embaixada de Portugal, em Banguecoque, por mais de duas dezenas de anos.
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Servi a diplomacia, portuguesa primeiro, por amor à camisola (de borla) eventual, assalariado e finalmente, por poucos anos e antes da reforma, triunfantemente, fui inserido no funcionalismo público, pela graça e consideração aos espezinhados mangas de alpaca, do ministro dos Estrangeiros, de então, o Prof. Jaime Gama.
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Por acidente e por razões já contadas e mais adiante me referirei, como entrei ao serviço da diplomacia portuguesa.
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O meu começo foi o de tarimbar a pintar, por 27 dias, as paredes em redor do Jardim da Residência dos Embaixador e da Chancelaria, cujo o meu trabalho custou, simbolicamente, aos cofres da missão diplomática 2.500 bates, ou seriam, hoje, o trabalho de 27 dias de pincel na mão e a subir os degraus da escada de aluminino cerca de 50 euros.
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É verdade! Há documento nos arquivos da chancelaria da embaixada, em Banguecoque, Palácio das Necessidades (cópia em meu poder) que provam isso.
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Mas eu não vou aqui apontar o dedo ao Embaixador Mello Gouveia da ridicularia da dávida de 50 euros por 27 dias de trabalho, porque o fiz com todo gosto e maior prazer. Deixamos o conto para mais tarde.
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Desejo nesta peça, já histórica, referir-me de quando eu já assalariado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, com um salário de 500 dólares mensais, sem direito a férias, o respectivo subsídio e do Natal, quando como patrão tinha o embaixador, o nobre, Dom Sebastião de Castello-Branco (1988-1995) e apenas, os dois, de um de Janeiro a 30 de Junho de 1992 fizemos o primeiro semestre da Presidência Portuguesa da União Europeia.
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Não havia número 2 da embaixada e o último o Dr. Paulo Rufino deixou-a, em meados de Junho de 1990, depois de cumprir a sua missão (6 anos) e o Palácio das Necessidades nunca mais enviou (apesar de solicitações) nenhum.
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Era eu assim (!!!!) um assalariado auferindo 500 dólares o número 2 da missão, encarregado de receber e enviar o expediente entre a missão, o MNE, em Lisboa e as destinadas aos 12 aos países,parceiros de Portugal na União Europeia, em Banguecoque
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A aparelhagem de recebimento e envio das comunicações nada se pareciam ao luxo de hoje...!!! Máquinas de escrever, manual e duas Remington eléctricas, um aparelho de fax, o telex e a máquina cifradora/decifradora Siemens. A Internet, uma miragem e a informatização das embaixadas ainda demorariam 8 anos em serviço experimental.
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Todos os assuntos discutidos em Bruxelas, muitos secretos e confidenciais chegavam a Banguecoque através da máquina do fax em fitas picotadas que depois seriam decifradas na máquina Siemens.  Teria que haver cuidado a União Soviética, apesar de aberta ao mundo em 1990, ainda estava muito comunizada.
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Havia telegramas confidenciais que eram decifrados sem a necessidade de chave, mas havia os Secretos que só seriam decifrados quando lhe fosse inserida na máquina um chave que era um número, inserida numa lista e guardada no cofre da missão, chave que nunca tive.  
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A fita picotada retirada do telex não nos informava se a comunicação era confidencial, ostensiva ou secreta. Se secreta a cifradora/decifradora tinha um companhia que dava o alarme, alto e a bom som, que um intruso estava a proceder a um serviço sem autorização e teria eu, então, de comunicar a chefe de missão que havia um telegrama secreto para decifrar para me dar o número do telegrama em causa para o receber e ele presente, para depois de o ler ser arquivado no cofre.
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Foram seis meses de um trabalho, penoso, para mim em que muitos dias (sábados e domingos) não tinha horas de saída dado que as comunicações “emperravam”, a fita partia e lá estava eu a comunicar com a Cifra, nas Necessidades, para as repetir.
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Mensagens com 50 e mais metros de fita que durante a noite era aparadas por grandes cestos de plástico e principiava a organizar as comunicações a partir das 6:30 da manhã, para quando o embaixador chegasse às 9 da manhã principiar a despachar e responder ao ministério.
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O embaixador Dom Sebastião de Castello-Branco era uma pessoa muito difícil de trabalhar, exigente, bom profissional, inteligente, mas o título de nobreza que ostentava dava-lhe para tratar, quem o servia, um pouco a cima de cão.
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Não tolerava faltas a nenhum funcionário, tailandês e não foram poucas vezes em que haviam altos berros na chancelaria. Escravizava as pessoas e eu foi uma delas em que depois de o servir, com dignidade, como deveria, dentro de minhas funções, me tratou muito mal e me apunhalou pelas costas.
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Ora em 1992, há 20 anos, a União Europeia era um clube respeitável, onde apenas havia 12 sócios: Bélgica,França, Itália, Holanda, Alemanha Ocidental,Dinamarca, Irlanda, Reino Unido, Grécia, Espanha e Portugal e não como hoje, a sarrabulhada, de 27.
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Orgulhei-me, na altura de ser europeu, esqueci o iberismo enquanto que hoje, sinto uma pena imensa de me cortar alma de possuir passaporte da UE, castanho, enquanto o outro antes era de cor verde da esperança.
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O embaixador Castello-Branco, seria o presidente de todos os outros seus colegas da UE, acreditados no Reino da Tailândia e uma vez por mês uma reunião na embaixada, em que antes foi preparada uma grande mesa com 12 cadeiras em que em preparava com blocos e canetas e lhe dava o nome da mesa dos apóstolos e o Deus o embaixador da União Europeia acreditado em Banguecoque.
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Também, seria, difícil de eu adivinhar qualquer seria o embaixador Judas entre os 12... Creio que todos não seriam, Judas, mas pelo menos uns 6 seriam mesmo isso.
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É que alguns, quando entraram na diplomacia, venderam a alma ao diabo, porque esta gente tem um estilo, próprio, de estar na vida que se consideram uma classe elitista, só pena  que alguns sigam o caminho de vida prazenteira e (aparte dos machos) para  o lado da “maricagem”.
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A sala de reuniões, sonhada e mandada decorar, na Chanceleria, pelo embaixador Castello-Branco, foi um autêntico “buraco” dado que havia, alguns, embaixadores que fumavam iguais a turcos e o espaço ficava um autêntico nevoeiro de fumo de cigarros e charutos e foi mudado o espaço para a varanda residência dos chefes de missão, com as janelas abertas e para onde a fumaça dos cigarros se dispersava.
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Ao fim da reunião, onde se discutia os sistema governativo, comunista, dos países do Sudeste Asiático, havia o almoço, opíparo, confeccionado, pela grande mestre de cozinha a falecida embaixatriz Luisa de Castello-Branco, que tão boa senhora que era me mandava um prato de comida à chancelaria para eu saborear.
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No da 30 de Junho de 1992, terminou a primeira presidência portuguesa da União Europeia. Tudo correu em cima de rodas. João de Deus Pinheiro, o super-ministro correu meio mundo a voar no Falcon da Força Área. Já pensava que seria o novo inquilino da Palácio de Belém. Hoje não sei onde pára o Deus Pinheiro... Está silenciado...
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Em Portugal havia dinheiro, chegado de Bruxelas para gastar à “tripa forra”. Foi uma orgia de gastos e cada um esbanjou e roubou conforme pode.
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Vinte anos depois, Portugal da União Europeia depois tanta grandeza, como a que teve há 20 anos está na miséria e tutorizado, por uma Troika, espécie de uma “mafia” composta de uns tantos “agiotas” que nos colocaram a pão e laranjas.

A simbologia da primeira Presidência Portuguesa da União Europeia é um Canto de Luis de Camões:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
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Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
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O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria, 
E em mim converte em choro o doce canto.

sábado, 2 de junho de 2012

PORTUGUESES NA ÁSIA Venceslau de Morais no Japão 2


Uma figura, apaixonante, depois de Fernão Mendes Pinto, nas suas andanças pelo Japão apraz-me escrever um resumo do que há sido a presença de Venceslau de Morais no Império do Sol Nascente.                       
Venceslau de Morais foi oficial da Marinha Portuguesa e embarca para Macau, em 1888. Esporadicamente, na canhoneira Tejo, efectua viagens à China, ao Japão e à Tailândia (sobre esta visita nos iremos ocupar  noutro artigo) e, em 1891, com uma permanência de três anos na Ásia e na qualidade de Imediato do Porto de Macau, solicita a Lisboa que lhe seja concedido de três em três anos passar férias em Portugal. Não lhe fora concedido o privilégio. Em 1898 a seu pedido foi transferido para Kobe na qualidade de Consul Geral de Portugal no Japão. Morais nunca mais retornaria a Macau.
No Dia de Portugal, em 10 de Junho de 1913 num telegrama que envia ao Presidente da República Portuguesa solicita-lhe a dispensa de todos os cargos oficiais e, o seu direito à reforma. Foi assim o texto da referida comunicação:
<<IImº e Exmº Senhor Presidente da República Portuguesa:
Wenceslau José de Sousa Morais, capitão de fragata da Armada excercendo as funções de cônsul de Portugal em Hiogo e Osaka, Japão, e actualmente procedendo à entrega do Consulado por lhe ter sido concedida licença pelos Ministério de Negócios Estrangeiros para regressar à Metrópole por motivo de doença, deseja, por causas muito poderosas de conveniência particular, desistir de tal licença e permanecer no Japão, onde conta empregar-se numa situação imcompatível com qualquer posição oficial de funcionário português, incluindo a de reformado, e mesmo talvez incompatível com a sua nacionalidade de português; por todos estes motivos, vem muito respeitosamente pedir a V.Exa se digne conceder-lhe a sua demissão de funcionário consular e de oficial da Armada Portuguesa.>>
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É exonerado a 8 de Julho. Entretanto, quatro dias antes Venceslau partira para Tokushima, com 60 mil habitantes e intencionalmente de ali passar o resto da sua vida.
A decisão de Morais de ter pedido a exoneração e exilar-se em Tokushima sempre se conservou num enigma. Viu-se confrontado com humilhações, dentro do “choque de culturas”. Vive em condições modestissimas numa casa com um quarto de uns oito metros quadrados e no rés-do-chão uma sala com quatorze metros quadrados.
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A sua obra “ O Bon-Odori em Tokushima” dá bem conta dessa situação: <>. Acrescenta a este <>, e junta-lhe a visita a um zoo móvel, cuja a estrela principal era um orangotango do Bornéu <>.
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Era num dia frio de Fevereiro. O domador coloca uma lata com carvões acesos com uma vara de ferro dentro, em frente da jaula. O animal apresenta-se com ar de envelhecido e cansado:
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A exíguidade do espaço não dá mais que a possibilidade do animal passar o dia sentado ou deitado, com a liberdade de movimentos. Há ali um martelo que o domador lhe deixou para brincar. O orangotango umas vezes entretem-se a martelar com o objecto; outra atira-o para o lado como cansado do brinquedo. 
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De um saco que lhe serve de colchão, onde está sentado, retira para mastigar uma palhas. O guarda que não tira a vista do animal, irrita-se e ameaça-o gritando; ao mesmo tempo  indicando-lhe a vara de ferro em brasa. 
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O martelo do orangotango é visto aqui como a caneta de Venceslau de Morais que escreve frenéticamente e outras, certamente, quando as memória do passado lhe inflama e aguilhoam a sua mente atira-a, desesperançado para a mesa. O pobre do bicho que já tinha sentido no corpo o ferro em brasa:
<> <> .
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Morais compara o bicho da floresta com a sua pessoa. O habitantes de Tokushima consideravam-no como “ Homem dos Bosques” dada a sua constituiçao de ombros largos, cabelos loiros e longos apoiados nos ombros. A barba, comprida escondia-lhe metade do rosto. Aceita, com abnegação, o “homem-gorila o sentido de humilhação como a sua cunhada, irmã da sua segunda mulher o considerava:   
<> (O-Yoné e Ko-Haru, pág.164 segs.).
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A permanência de Morais, em Tokushima era também considerada um enigma para as autoridades japonesas. Na altura que o Japão declarou guerra à Alemanha, em 23 de Agosto de 1914, chegou a ser tomado como espião. Foi sujeito a interrogatórios pelos militares e depois seguidos os seus passos por algum tempo.
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Morais e se chega a uma conclusão que a demissão dos seus cargos (embora nunca a tenha revelado na correspondência intima com a irmã Francisca Palu) esta seria pelo amor que tinha por O-Yoné, a sua primeira mulher japonesa.
O-Yoné Fukamoto nasceu em Tokushima. Os pais e para fazerem face à pobreza foi vendida a uma casa de gueixas em Kobe. Cantava,dançava e tocava “shamisen”. Segundo o biógrafo japonês Matsumoto, Morais, depois de a conhecer em Setembro de 1998, num bairro de diversões de Kobe, lugar de nível inferior onde não existiam diferenças entre a prostituição e arte das gueixas. 
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O-Yoné é libertada pelo Morais pagando uma compensação ao propriétário da casa. Casou com ela em Novembro de 1900, segundo a tradição “xintoista” quando ela tinha 25 anos. O-Yoné foi acometida de um ataque do coração e morre em Agosto de 1912.
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As cinzas são levadas para Tokushima e Morais toma a seu cargo todas as despesas. Estamos perante de uma lenda que pode muito bem ser considerada romântica de um amante que renuncia a todas as honrarias e comodidades para ir viver junto das cinzas da sua amada.
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Sobre este caso e no capítulo sobre Wenceslau de Morais”, na obra “Visões da China” de autoria de Jaime do Inso (1933), e desenvolvido por Ângelo Pereira e Oldemiro César e publicado um ensaio em 1937:
“ Os amores de Wenceslau de Morais”: “ O golpe profundo (da morte de O-Yoné) que acabava de despedaçar-lhe o coração, leva-o a abandonar Kobe para se instalar em Tokushima, onde repousam as cinzas da mulher amada. Abandona também o cargo consular; demite-se de oficial de marinha; vende à pressa e ao desbarato numerosíssimos livros da sua escolhida biblioteca, todos os seus haveres, à excepção de alguns mais queridos”.
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Armando Martins Janeira analisa a retirada de Morais para Tokushima como já a sua longa assimilação à cultura japonesa:
“Wenceslau  vai para Tokushima para viver com a morta [...]. É frequente no Japão o viúvo ou viúva vender tudo para ir viver junto das cinzas do esposo. Wenceslau não fez mais do que seguir o velho hábito japonês. 
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O retrato dela é posto no altar familiar, o butsudan. É para a alma dela a primeira chávena de chá da manhá e a primeira colher de arroz que se tira da panela. Nunca se abre um presente […] sem que se vá por no butsudan, primeiro, a parte que pertence à alma querida, murmurando-lhe: “Yoroshiku o-agarikudasai”, digna-te comer com gosto. 
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Morais, com os seus muitos anos no Japão e a sua sensibilidade tão receptiva a tudo o que é japonês, havia já assimilado essa poética crença. Só isto explica a sua partida para Tokushima, e a sua vida pobre, piedosa e serena, na pequena cidade provinciana, onde não passa um só  dia que não vá visitar Yoné ao seu pequeno túmulo de Chionji” ( O jardim do Encanto Perdido, pág.146)”.
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Morais em “O Bon-Odori em Tokushima” transmite ter consultado um duplo imaginário em cima da escolha da sua residência no Japão:
<>.
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Voltando a Macau o Governo deste território em Outubro de 1913, pediu ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Tóquio, se Morais estaria são de espirito. Tóquio ordenou a um comissário de polícia de passar um atestado de sáude mental a Morais. Um agente de autoridade japonês, depois de o entrevistar considera-o uma pessoa normal.
Morais (segundo a investigação biográfica japonesa) quando O-Yoné, na sua doença necessitava de cuidados pedia ajuda da irmã Yuki Saito que residia em Tokushima. Normalmente vinha acompanhada da filha Ko-Haru de 19 anos de idade. 
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Supõe-se que Morais, ainda O-Yoné em vida, sentiria atracção pela jovem. A família Saito era numerosa e pobre. O pai de Ko-Haru era cozinheiro num embarcação que fazia a ligação entre as ilhas de Honshu e Shikoku. Os biógrafos japoneses, escreveram que a paixão de Morais por Ko-Haru não teria passado despercebida a Yoki, durante as cerimónias do funeral de O-Yoné e teria mesmo em sua mente casar a filha Ko-Haru com Morais, ainda cônsul em Kobe.
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Porém há ainda outra mulher, Den-Ngahara uma bonita mulher de 25 anos, na vida de Morais que depois da morte de O-Yoné que passam, durante uns meses a viver juntos em Kobe. Em Abril de 1913 Morais teria incumbido De-Nagahara de procurar uma casa a Matsué e ali viverem em comum.
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Durante uns meses que viveram juntos apareece Yuki Saito a convencer Morais a ir visitar o túmulo de O-Yoné a Tokushima.  Surge, então uma nova viragem de Morais que era o viver com Den-Nagahara, em Matsué e com Ko-Haru em Tokushima. Segundo os biógrafos de Morais, a escolha torna-se difícil mas as negociações efectuadas com a família Saito, permiram-lhe tomar a decisão de viver em Tokushima e com Ko-Haru.
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Quando regressa a Kobe está decidido terminar com a companhia de Den-Nagahara e encontra uma carta desta a informá-lo que tudo estava decidido para viverem em Matsué e, ela, tencionava abrir uma tabacaria com a finalidade de melhorar a situação do casal. Morais, respondeu-lhe, pedindo-lhe desculpa pelo facto de ter mudado de ideias. Parece que nunca mais se voltaram a ver.
 
  A tragicidade dos amores de Morais continua e as suas recordações:
“ninharias futilidades, reduzindo-se tudo a recordações (...) A minha mortificada mentalidade pode comparar-se a um grande polvo, provido de enormes tentáculos, que se estendem em todas as direcções, na ânsia de aprender, de abarcar tudo que lhe fale do passado distante” “Ora, nesta terra de deuses e budas, em Tokushima, onde eu vim estabelecer o meu albergue, onde vim em procura de paz, da tranquilidade, para o corpo e para o espirito. Ousadia! Incrível ousadia, para um loiro, para um homem dos países da raça branca e, ainda por cima, português!...
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Venceslau de Morais está convertido à religião budista. Martins Janeira opina que Morais se converte ao budismo para penetrar mais, ainda, na alma japonesa e assimilação à tradições da família nipónica.
Sobre Ko-Haru relata:
 “ Eu conheci muito uma Ko-Haru, com quem ainda há poucos dias palestrava (...) Ko-Haru era uma moça espigada, trigueira, alegre, viva, parecendo vender saúde. Não se lhe poderia chamar beleza, estava muito longe disso. 
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Havia encantos, todavia, no seu perfil, esguio, na desenvoltura dos seus gestos de criança da rua – pois fora principalmente na rua que medrara, - na franca doçura do olhar, no sorriso em que a boca a cada momento se arqueava, a deixar ver duas fileiras de alvíssimos dentinhos, e nas formas modelares das suas mãos e dos seus pés.
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Ainda por cima: - inteligente, mais do que a grande maioria das mulheres do seu humilde nível social; dotada de um fino temperamento artístico, curioso, investigador, fácilmente impressionável, perante as belas coisas naturais, e com um tique de poesia sonhadora, a fermentar lá dentro, no âmago do cérebrozinho esgazeado....”
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Ko-Haru morre de tuberculose aos 23 anos de idade. Morais acompanha a sua amada ao hospital desde a altura que entra num hospital até ao dia da sua morte:
“ Pela tarde de 1º dia do bon-odori (dança da festa dos mortos) em Tokushima, isto é, em 12 de Agosto de 1916, Ko-Haru era levada numa maca, por seu especial desejo, de casa para um hospital de Tokushima; (...) Ko-Haru encontrava-se geralmente sozinha, tendo por companhia o sofrimento apenas. 
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Vinha eu, diariamente, por algumas horas. Parentes, conhecidos,raros. O próprio pai, a própria mãe, as irmãs, com pouca assiduidade se mostrava (...) [facto] que me revoltou intensamente a minha sensibilidade passional de homem da Europa, pareceu-me contudo, depois de nele haver pensado, natural e em harmonia com as leis universais da criação. 
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Julgava eu, a princípio, que os pais sacrificariam tudo e todos – interesses próprios e atenções aos filhos sãos, - para acudirem em socorro da filha enferma, caída em sofrimento. Puro enganol, (...) Ko-Haru tornara-se o pinto gosmento, que era forçosamente abandonada, em benefício da prole sadia e esperançosa. – Ficava eu só, para cuidar dela....”
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Ko-Haru em 2 de Outubro de 1916 morre e Venceslau de Morais fica só e a viver das saudades e recordações das duas mulheres que amou:
“ é sempre a saudade, sempre a saudade, embebida em cacimba, irritantemente morna e opressiva
          (...)
“Eu saira de casa, visitara dois túmulos amigos num mesmo cemitério, fizera algumas mercas nas lojinhas; e agora recolhia a casa, fatigado, enervado, mal disposto, para o que concorria seguramente o inclemência do tempo (...)
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“Depois de percorrer as ruas animadas de Tokushima, eis-me entrado no bairro quieto, quase aldeia, que avizinhava o meu casebre. Pouco após, é a minha própria rua, esta absolutamente solitária, mergulhada en trevas e silêncio (...) Agora chego à minha porta. 
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Busco nas algibeiras a chave do cadeado protector, que me garante das possiveis visitas dos ladrões. Encontro a chave; mas, cego pelas trevas, mal disposto pelo desconsolo em que me sinto, pelos embrulhos que me pesam, pela fadiga que me enerva, pela chivinha que me molha, multiplico-me em tentativas, prodigalizo-me em manejos, sem conseguir dar com o buraco do cadeado e abrir a porta (...) 
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Então, de dentro da rama espessas da árvores única, um carvalho, que se ergue robusto e vicejante mesmo à entrada do casebre, a luzinha azulada de um pirilampo surdiu e começou a volutear cerca de mim; tão próximo das minhas mãos e do cadeado, que me permitiu sem custo servir-me da chave eficazmente, podendo penetrar em minha casa. Abençoado insecto, que veio assim, na ampla curva do voo casual, tão gentilmente beneficiar-me!... Casual? E porque não premeditado?... 
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Ponho-me agora a divagar em estranhas conjecturas.Nesta grande cidade de Tokushima, que conta cerca de setenta mil habitantes, duas únicas criaturas, ninguém mais, duas mulheres indígenas, filhas do povo, da mesma família, tia e sobrinha, O-Yoné e Ko-Haru, seriam capazes, se ainda existissem, de se dar à incómoda tarefa de virem de longe, arrastando as sandálias pela lama, lanterna de papel transparente suspoensa dos deditos, para alumiarem o meu caminho e facilitarem-me a operação de abrir a minha porta. 
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Mas estas duas criaturas já não podem vi aqui, jamais virão; já não existem; morreram (...) Não, já não podem vir aqui, jamais virão aqui (...) no entretanto aquele insecto....Não são os japoneses que creem que os seus mortos podem volver à terra, incarnados noutros corpos, uma ave por exemplo, um insecto por exemplo, embora conservando reminiscências afectivas das suas existências anteriores?...
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Após esta última interrogação, que o meu espírito a si próprio se fizera, senti não sei que angústia apesar tão duramente, que me estacou de súbito as pulsações do coração. Foi um momento apenas. Em seguida, mais sereno, não pude conter esta palavras: - Será O-Yoné?...Será Ko-Haru?...”
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E segue com outras passagens  da lide diária de sua casa, um jantar de festa sózinho, aliás na companhia do seu gato e das recordações das suas pessoas mais queridas: a Francisca Palu, e viver em Nelas (Beira Alta), O-Yoné e Ko-Haru.
“ Era o dia 1º de janeiro do ano corrente de 1919 (...) Dia de festa. Eu encontro-me só em casa, o que me acontece várias vezes; só, com o meu gato, com as minhas galinhas e com outros animalejos de somenos importância (...) 
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Bem, dia de festa. Já varri a casa, já dei de comer aos bichos e já me entregueiu a outros humílimos misteres. Agora toca a partir o carvão, a acender o lume e a preparar o meu jantar – jantar de festa, por sinal. – Ora pois, mãos à obra (...)
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“ Quando saboreei o meu jantar, de joelhos sobre a esteira, sozinho com o meu gato, observei que o gato dava mostras de grande predilecção pelas sardinhas, mas desprezou o caldo verde; questão de educação.......   
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A certa altura surpreendi-me mesmo a sorrir, correspondendo por este modo a certos sorrisos que imaginei virem de longe e serem-me dirigidos:- sorrisos, ligeiramente motejadores, de minha irmã, quando eu comia as sardinhitas; sorrisos ligeiramente motejadores, das minhas mortas, O-Yoné e Ko-Haru, quando eu sorvia o caldo verde...”
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Morais vai continuando a viver a solidão:
“Ha, solidão! Vasto campo ressequido, povoado de espectros...” – em terra que não o entendem e lhe chamam “ Ketô-jin (selvagem barbudo): (...) aqui em Tokushima, nos meus passeios solitários, muitas vezes a gaiatada e o povo rude soltam à minha passagem o impropério – tojin! – ou –ketô jin -. Já me aconteceu o mesmo em outros pontos do Japão, mas com menos frequência. Mas aquela criancita com seis anos de idade, que me sorria, é que não queria nem saberia seguramente injuriar-me (...)”.
Venceslau de Morais morre a 1 de Julho de 1929, na sua casa de Tokushima. Em 12 de Agosto de 1919, no seu testamento pede que seja cremado e enterrado segundo a tradição budista. 
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Não deixa porém de manifestar receio que o seu desejo seja aceite e sepultado num cemitério japonês, dado que ele é um “ketô-jin”. Lugar reservado aos filhos do Nippon; não lhe seria recusada esta última vontade; é cremado e as suas cinzas depositadas no cemitério de Chyion-ji junto das cinzas de Ko-Haru.
O povo de Tokushima celebra Venceslau de Morais e chama-lhe, respeitosamente, Morais-San.
José Martins
P.S. Fonte:  Venceslau de Morais no Japão da Obra à Vivência de Maria João Janeiro
                   Revista de Cultura Nº 17. Instituto Cultural de Macau-Outubro/Dezembro 1993