PORTUGUESES
NA ÁSIA
VENCESLAU DE MORAIS
Oficial de marinha,viagem
à Tailândia, cônsul, escritor e correspondência para a
irmã Francisca palu
Foram muitos os portugueses que dedicaram suas vidas ao Oriente. Viveram,
serviram Portugal das mais diferentes formas na ex-Índia portuguesa, no Ceilão,
Malaca, Macau e Tailândia e no longuínquo Japão. Viveram na generalidade,
numa constante solidão, com um pé na terra de opção e outro em Portugal.
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Entre essas figuras destaco duas, duas que ficaram retidas na minha memória
e que foram ainda reconhecidas em vida pelos bons serviços prestados a
Portugal.
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Destaco, primeiramente dessas duas figuras, o Monsenhor Manuel
Teixeira, historiador de mérito e no meu entender o classifico entre os
melhores narradores desde a altura em que Portugal iniciou a aventura,
expansionista no Oriente que aconteceu quando Bartolomeu Dias, em 1486, dobrou o
Cabo da Boa Esperança e, depois em 1498 as Caravelas de Cristo, capitaneadas
por Vasco da Gama, chegam à Índia e assim se descobriu a rota marítima da
Europa à Ási
Monsenhor Manuel Teixeira escreveu dezenas de obras durante o mais de meio século
de vivência em Macau e entre essas
obras à que destacar: “Portugal na Tailândia” de 563 páginas, editada em
1983, durante a gerência do Embaixador José Eduardo de Mello-Gouveia.
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Outro
seu contemporâneo foi o Padre Manuel Pintado, também, com mais de meio século
de permanência em Malaca, investigando e escrevendo sobre a história do território,
conquistado pelo Grande Afonso de Albuquerque em 1511; publicou livros e
assistiu espiritualmente a comunidade católica lusa/descendente.
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Os dois clérigos
já não pertencem ao número dos vivos. Há pouco mais de meia dúzia de anos
foram morrer a Freixo-de-Espada-á-Cinta, de onde eram naturais.
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Mas uma figura verdadeiramente apaixonante, depois de Fernão Mendes Pinto,
nas suas andanças pelo Japão, foi, sem qualquer dúvida, Venceslau Morais, do
qual me apraz escrever um resumo do que foi a sua presença no país do sol
nascente.
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Morais, apesar de ter
sido dos poucos historiadores portugueses interessados na epopeia lusa, nas águas
dos cinco oceanos do globo, certamente não tardará a cair no “ról” dos
grandes esquecidos, dos que foram embaixadores honorários, sem estatuto diplomático, de Portugal no Oriente.
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Homens de alto valor, com os seus nomes inscritos nas pedras túmulares e
certamente as poucas que ainda existem, com a erosão do tempo, lentamente, se vão
apagando e, deste modo, os seus feitos e valores serão esquecidos para sempre.
O mesmo acontece às igrejas, em ruínas, onde a
vegetação desde o solo as envolve num denso matagal; às peças de artilharia,
bocas fogo das fundições de
Manuel Bocarra, de Macau e Goa, que dispararam das ameias contra os piratas,
contra as forças navais de países da Europa que a toda força e custo
desejavam desalojar os portugueses dos territórios, que não eram nossas colónias,
mas entrepostos comerciais para a troca de mercancia entre os países da Ásia.
Material que foi objecto de glória de Portugal, hoje inerte, no meio da
vegetação cujo o turfo, gerado pelo apodrecimento das plantas e ervas,
lentamente, o vai enterrando.
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Venceslau de Morais, oficial da Marinha Portuguesa, diplomata, escritor,
personalidade romântica e de trato fino - é o que podemos avaliar da sua
pessoa, através das cartas e postais ilustrados que do Japão
envia à sua amiga e adolescente Maria Joaquina Campos, em Lisboa, e a
sua irmã Francisca Paul, que reside em Nelas, na Beira Alta.
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Venceslau escolhe
as “toalhinhas” (o nome que dava aos postais ilustradas) com cenários
campestres, com imagens de animais ou imagens que ilustravam a vida do
quotidiana dos japoneses. Nessas comunicações,
encontram-se lamentos, humor mórbido, dedicação aos animais e às
flores.
Das suas ligações amorosas, pouco
ou nada delas se conhece, embora alguém tenha afirmado que Morais estava
acorrentado aos amores, femininos, nipónicos e tinha optado pelo exílio no Japão
por via disso.
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O Homem amou o Japão e terá escolhido o país do sol nascente
possivelmente pelo facto de na época Portugal
politicamente não possuir estabilidade.
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O seu sentimento e pensamento em relação
à política nacional é nos dada a conhecer numa carta, datada em 27 de
Fevereiro de 1908, 26 dias antes do regicídio que vitimou o Rei Dom Carlos e o
Príncipe Real D. Luis Filipe, que dirige ao seu ex-comandante Pereira Nunes, da
canhoneira Rio Lima e Capitão dos Portos da Índia Portuguesa que termina com o
seguinte P.S.: “Não fallêmos da política da nossa terra. Que tristeza, que
miséria.....”
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Daqui, podemos concluir que Venceslau ainda não tinha conhecimento do regicídio,
já que a este não se refere. Sabe-se que Venceslau era um adversário da
ditadura, imposta por João Franco e, este facto vai encontrar-se na sua
correspondência particular.
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Morais, depois de ter servido a Marinha Portuguesa,
é nomeado cônsul de Portugal em Hiogo e Osaka. Num relatório elaborado por si
com o conteúdo de nove páginas, datado de 13 de Janeiro de 1912, e solicitado
pela Sociedade de Geografia de Lisboa, encontramos um diplomata a dar conta, em
pormenor, do modo como vivia a comunidade portuguesa, que não era oriunda da
metrópole ,mas sim de Macau e denominada macaense.
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Não deixa de ser curiosa a
forma transparente e elogiosa como Venceslau de Morais se refere a essa gente,
vinda de uma mistura de sangue luso/chinês, ao qual já tinha sido adiccionado
o japonês:
“...Nos filhos d’homens macaenses casados com mulheres japonêsas, é
que muitas vêzes se nota o phenonemo do idíoma portuguez, circunstancia que
vem corroborar a enorme importancia, sobejamente conhecida, da influencia
materna na educação da família......afastados por longos annos da Patria, sem
nunca haverem visitado, (com excepção de uns dois) o nosso Portugal europeu,
vivem em geral pouco interessados com o que vae pela metropole; mas guardando,
latente, um louvável orgulho nacional, pronpto a manifestar-se quando a
circustancias o reclamem.
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Na recente passagem pelo porto de Kobe, do nosso
cruzadôr S.Gabriel, o enthusiasmo dos macaenses, foi sincero e caloroso......se
um dia os portugueses da Metropole pensarem em estreitar intimamente os seus laços
de commercio com a China e com o Japão, encontrarão na colónia macaense um
auxilio poderoso......(texto fiel).
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Morais quando se refere aos macaenses do Japão dá a imagem real do que
também tinha sido essa mesma comunidade em Banguecoque. Vamos encontrar a prova
de tal facto em documentos antigos, que “vasculhamos” na Embaixada de
Portugal, que nos dão conta das actividade dos macaenses nascidos na
Tailândia ou vindos de Macau, pouco depois da fundação da capital do Sião,
em 1782, muitos deles foram funcionários e
interpretes da língua inglesa e portuguesa para a siamesa, na Corte da
monarquia e em companhias estrangeiras que ali
se haviam estabelecidas.
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Venceslau de Morais antes de ser nomeado Cônsul foi oficial da Marinha Real
Portuguesa e em Março de 1890 assumiu o comando da canhoneira Tejo, com a
categoria de primeiro-tenente, em Macau. Em 20 de Abril o barco navega com
destino a Banguecoque cuja missão era “colher informações em que situação
se achava a comunidade portuguesa no Reino do Sião”. O vaso de guerra lança
a âncora passado oito dias no porto vietnamita de Saigão e parte a 3 de Maio
com destino a Banguecoque.
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A visita Morais à Tailândia como comandante de um navio de guerra português
é pouco conhecida e certamente nunca será explorada.


A Tejo, com um tamanho significativo para a época,
fica ancorada no Chao Praiá River, em frente à Feitoria de Portugal. Morais
elabora um relatório e nele dá conta da comunidade existente em Banguecoque
que contava então com cerca de 50
pessoas, todas macaenses, excepto um europeu. Informa serem pessoas honestas,
activas e que parte delas são funcionários do Estado siamês.
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Refere-se, também,
aos protegidos sob a Feitoria de Portugal, que eram uns 120 chineses oriundos de
Macau. Aqui Morais não foi informado correctamente pelo Cônsule dado que os
protegidos não era naturais do Território chinês administrado por Portugal, mas sim de vários pontos da
China.
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Sião, devido à sua fama de “terra de leite e mel”, era muito
procurado pelas gentes chinesas que aí desejavam fazer fortuna e Macau, deste
modo, era utilizado como “trampolim”,
por esses emigrantes que pelo método corruptivo obtiam documentos de viagem que
lhes permitia, em Banguecoque, o estatuto de “protegido” pela Feitoria de
Portugal e não com a nacionalidade.
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A nacionalidade portuguesa seria obtida,
depois, de uma forma ou de outra, mas por formas sempre pouco claras, onde não
está posta de fora a corrupção. A nacionalidade seria
conseguida em Banguecoque como fora o passaporte obtido em Macau.
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Morais, durante a permanência na
capital siamesa, vai anotando as maravilhas que os seus olhos vislumbravam, e
relata-as com uma veracidade tão impressionante que ainda hoje as podemos
admirar tal como se encontravam aquando
da sua passagem.
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O Rei Chulalongkorn (Rama VI) encontrava-se ausente e, tem
durante a visita, como anfitrião um príncipe que o conduz ao palácio real,
aí visita os estábulos dos elefantes brancos e outras maravilhas do Grande
Palace e sobre o observado procede ao seguinte registo:
“Fixa-se a nossa atenção nas paredes revestidas
de trabalhoso mosaico, nas incrustações de madrepérola dos portais, na
allegorias do culto, no portentoso Buddha, feito de uma só esmeralda de três
palmos de altura, de valor inestimável. Ergue-se mais além o palacio real,
n’uma elegantissima fachada, cujo único senão está no mau gosto da sua
architectura europea, sobe um telhado, rendilhado em mil cornijas, de pura feição
indígena. Profusão de flôres e
de arbustos viçosos. Grandes elephantes doirados, em pedestais de marmore”
Ferreira de Castro no seu livro “A Volta ao Mundo”
(editado em 1942), assim como Morais, escreve:
“É uma alucinante floração de templos das mais
imprevistas linhas, de cúpulas doiradas e de torretas polícromas, de portas de
oiro e de paredes revestidas de pedras cintilantes, que enchem tudo duma perene
fulguração, cromáticos reverberos que extraem de quando vemos todo o sentido
da realidade.”
Porém, Morais, antes de partir para o Sião e para seus conhecimentos da
monarquia siamesa desde a fundação, leu a “Peregrinação” de Fernão
Mendes Pinto:
“ Na Peregrinação Fernão Mendes Pinto mencionou “a guerra do
Chiamnay,” o envenenamento do rei do Sião pela sua amantíssima esposa, a
inceneração do assassinado e o ataque do “rei do Bramá” ao Sião”.
Muito provavelmente Morais não visitou mais do que a zona ribeirinha de
Banguecoque, assim, não teve a
oportunidade de admirar as outras maravilhas da arte budista e khmer, espalhadas
por todo o país, e ainda as ruínas da velha capital, Ayuthaya, caída em 1767.
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Se assim tivesse acontecido, teríamos hoje um excelente relato da visão de
Morais. Mas tal era impossível devido à falta de vias terrestes e ao facto do
rio Chao Praiá não ter, na época, fundo para facilitar a navegalidade da Tejo,
que permitisse, pelo menos, chegar até a Ayuthaya.
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Venceslau, no seu voluntário
exílio japonês, mantém-se ao corrente do que se passa em Portugal e
activo literariamente. Escrevia, lia os periódicos de Portugal, com
atraso de mais de um mês, e a revista “Ilustração Portuguesa”.
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Colaborador do “Comércio do Porto”, através do jornalista Bento Carqueja
com quem manteve uma correspondência
vasta e assídua. Carqueja incentivava Morais para que escrevesse mais, mas
depois entraram em conflito pelas falhas encontradas na “Cartas do Japão” a
que atribuía as culpas ao editor.
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No Comércio do Porto são publicadas: Cartas
do Japão, Bon-Odori,Ko.haru e Fernão Mendes Pinto no Japão. Morais era
rigorossímo na fidelidade da publicação dos seus artigos onde não admitia
erros de impressão e, sobre isso disse:
“O que me acode já ao pensamento é que a maneira como se deu início ao
artigo não foi de certo casual; houve certamente
a intenção de furtá-lo à leitura dos leitores do Commercio; não seria mais
leal, mais honesto, mais decente, que o Carqueja o não publicasse e me
escrevesse informando-me de que o artigo não lhe convinha, por uma razão
qualquer?....E não tinha eu o mais leve motivo de offender-me.Veremos como
acaba isto...”
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Existe uma longa troca de correspondência entre Morais e Bento Carqueja; um
e outro vão dando conta das suas actividades literárias, das novidades de
Portugal e Japão. A última comunicação (que encontramos) de Morais para o
Carqueja data de 15 de Setembro de 1920:
“....
Dá-me prazer vêr que o meu amigo insiste em ignorar “ a ortografia moderna”,
a qual, na minha modesta opinião, é uma monstruidade inaudita, que veo dar um
golpe tremendo nas lettras patrias!....”
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Nas “toalhinhas” (postais ilustrados) que Morais enviava a sua amiga
Joaquina de Morais e irmã Francisca Paul, ficamos a conhecer um homem ansioso
por receber novidades de Portugal e, sempre, muito preocupado com o estado de saúde
delas e as habitais recomendações.
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Para Joaquina Campos (a quem tratava por
fidalguinha) vamos encontrar quatro “toalhinhas” e duas cartas. O primeiro
postal ilustrado foi datado em 12 de Maio de 1909 e a última, que encontramos
em 2 de Junho de 1915. Resumindo passagens das comunicações a Maria Joaquina
Campos:
“.....Mas creia que lhe quero muito e hei de dar-lhe frequentemente notícias
minhas, se vê n’isto alguma satisfação. Para mim, a sua boa amizade é
preciosa; nunca me falte com ella. Adeus. Quando não tiver nada que fazer,
escreva-me......”
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“....Desejo-lhe e a sua
maman um tranquilo anno de 1914 (ano do Tigre no Japão). Surpreendeu-me o que
me diz do Brazil-Portugal; não mande retrato nem vi o jornal; quem será o
auctor? Mas isto não tem importância; Bravo! Vestido novo, chapeo novo! Que os
gose com saude, minha Fidalguinha. Sempre seu Nicolau....” (Brazil-Portugal
foi uma revista,considerada das mais duradoiras 1899 a 1914 da I República).
Em 2 de Junho de 1915:
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......Por cá nada de novo; vou vivendo; espanta-me o desenvolvimento da
guerra (a) que parece não ter fim! Tenham a minha boa Fidalguinha e a sua maman
mtª saude, é o que do coração lhes desejo. Não tenha receio que eu me esqueça
de si; hei de continuar a dar-lhe notícias em qtº o possa fazer e em qtº
ellas sejam agradaveis. Adeus.Comprimentos cordiaes do sempre seu Nicolau –
Wenceslau....” (grassava a 1ª Guerra Mundial)
Nas “toalhinhas” enviadas para sua irmã Francisca Paul, residente em
Nelas, que foram centenas delas, havia uma preocupação constante de Morais de
escolher aquelas que melhor agradassem a Francisca, onde se incluiam tópicos do
calendário nipónico a premente devoção a sua família na mãe pátria e a
sua admiração, total, pelo povo japonês.
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Começa, assim o envio dos postais
ilustrado em 13 de Outubro de 1910 e terminam em 18 de Junho de 1929.
Algumas passagens:
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17.01.1913.- “Ahi tens um boi, enfeitado em gala. É bem bonito, não é
verdade? Quantos bois já tens? Ainda queres mais? Olha que ficas com a casa
cheia de bois, menina Chica.”
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10.9.1914.- “Nada de notícias, o que já me vae admirando.Terás tu, com
o teu nervosismo, deixado de escrever, à espera que a guerra acabe? Terás
muito que esperar.Eu escrevo-te 2 vezes por semana, geralmente às
segundas-feiras (com toalhinha) e ás quinta-feiras. Estou bem. Desejo-te muita
saude e aos Teus. Um abraço do Apá.”
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22.7.1918.- “Desejo-te saude. Segue toalhinha. Cá vou teimando em
mandar-te tudo para Nellas com dois ll, e até talvez comece a escrever Nelllas,
com três lll, mas nunca com um só l, pois me repugna a nova moda de escrever.
Um abraço do Apá”
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7.9.1918.- “Que bellos
queijos da Serra da Estrella deves tu ter ahi em Nelllas!... Eu, que não como pão
ha quase um anno, com que prazer almoçaria um dia, um pedaço de queijo e pão!...
Segue toalhinha. Desejo-te muita saude e abraço-te. Apá”
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8.11.1919.- “..... dizes estar fatigada do calor e dos banhos; não
abuses. Partirias para Viseu no dia 1º de outubro, onde ficarias até ao fim do
anno. Safa! E para quê? Mas talvez cries amizade à terra, que é importante e
certamente bem provida de tudo. Que te dês bem, é o que te desejo e que depois
voltes para Nellas, que é a grande terra!... Um abraço do Apá”
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24.11.1919.- Ha dias sem notícias; mas virão. Desejo-te a melhor saude, já
de todo restabellecida das bebedeiras que tomaste com as águas da Felgueira. E
o que ha do nosso amigo Castel Branco? Por cá já frio; eu vou indo bem, posto
que um tanto tristonho. Havia aqui uma pequena (13 anos de idade) que era a única
pessoa que vinha às vezes jantar commigo (houve um tempo em que vinha tambem
roubar-me as pratinhas das gavetas), pois acaba de morrer, com uma peritonite
tuberculosa, fiquei penalizado; mandei fazer-lhe um tumulo pequenino. Não tenho
agora recebido noticias do homem de Viana do Castello, mas imagino que o meu
artigo que te é offerecido já deve estar publicado; veremos. Segue toalhinha.
Lembranças, saudades e um grande abraço. Feliz 1920! Teu Apá”
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1-7-1926.-“ Acabo de receber o teu formoso postal de 26-5º-1926 (tantos
26), com a vista do Senhorim. Parece ser coisa soberba. Se é perto e bom
caminho, deves ir vêr aquillo; se não é, contenta-te de informações, e não
vás. Felicito-te por ter já chegado a Nelllllas a snrª Primaverta; agora é
que é passear, divertir; já deves ter asagao em flôr; eu já tenho. Como vão
os teus gatos? A minha gata morreu agora de parto. Haja por aíu muita saúde.
Cumprimentos ao Esposo. Abraça-te o Apá”
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2.9.19.28.- Minha boa Chica, Recebi a tua carta de 14.7. Boas notícias,
como agora, ha algum tempo, sempre veem, felizmente. Eu, da vista ainda estou
soffrendo, mas vou melhor: preciso que passem estes calores, que ha poucos dias
teem sido muito violentois. Tu, coitada, dizes que tambem soffres da vista, deve
ser dos nervos, não dos rins. O Esposo, cocluo, deve estar perfeitamente, a
julgar pelas ultimas impressões –do magnifico retrato!.... E occupando uma
bella situação, de bastante socego. Tiveste, para variar, mais outra revoluçãosita,
mas fazendo poucas victimas, como convem. Imagino que não soffreste grandes
sustos. As tuas plantas teem sofrido muito com as grandes chuvas. O “xano”
feio, mas melhorando. Adeus.Desjo a melhor saude aos dois. Abraço-te Apá.
(Postal está escrito numa letra trémula,quase ilegível.
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Tokushima 18.6.29.- Recebi hontem carta de 31.5. Queixas-te de
irregularidades do tempo, as plantas soffreram. Foste de passeio à Luz? Receio
que o retrato se tenha extraviado, o que tratarei de remediar, se for possível.
Cá tambem tem feito frio, fora do tempo. Sinto-me melhor de saude, vou
resistindo. O calor deve estar a fixar-se, para tua satisfação, do gato e das
flores. A minha gata teve 5 filhos, morrendo toodos. Agora ha ninhada nova; a
ver se resistem. Abraça-te e ao Esposo o teu Apá. P.S. Recebi a flor de chagas,
de que gostei muito. W. (Foi esta a
última toalhinha de Morais enviada a sua irmão Francisca Palu que chega a
Lisboa em 15 de Julho de 1929 e Venceslau tinha morrido em 1 de Junho, com 74
anos).
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Em 1921 Venceslau de Morais era evocado em Lisboa:
“ Maior do que Loti, mais belo nas suas fórmulas e na sua observação do
que os próprios Goncourts, Wenceslau de Morais, o enfeitiçado, vive hoje dum
prazer de alma mais do que duma abastança requintada que bem merecia a sua obra
prodigiosa. Um punhado de arroz e um sonho; uma taça de chá e uma fantasia
devem ser o alimento do homem superior que numa hora de renúncia à volta do
seu país devastado, não hesitaria em o representar ali se da parte dos
governantes houves o carinho para com o seu talento priviligiado (...) Lágrimas
não chorará o velho escritor de talento; bendita alegria o Japão lhe deu
e esquecido pelos patrícios mas não podendo ser olvidado pela Pátria,
ele ficará na história literária como na da nação ficaram os antigos
descobridores. Pois que descobertas não fez ele? Uma linguagem oiro um país
onde tem felicidade; uma terra onde não há pranto” R..M. “Wenceslau de
Morais, o enfeitiçado”, ABC, de 16 de Junho de 1921.
“- Agora tenho só uma irmã que vive perto de Viseu, que às vezes me
escreve.
-
Então porque não volta ao seu pais – a Portugal?
-
Ele tristemente, disse:
-
Já estou velho; não tenho coragem para sair para países estrangeiros e,
além disso, não tenho dinheiro para o fazer.
-
Estou satisfeito nesta socegada cidade de Tokushima. Quero ser enterrado no
solo de Tokushima.”
José
Martins
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P.S
Os meus sinceros agradecimentos ao Dr. Jorge Dias, residente no Japão, que se
tem debruçado sobre a vida e obra de Venceslau de Morais e que em 6 de Março
de 1995, numa sua visita a Banguecoque me ofereceu dois livros de sua autoria
“Venceslau de Morais Notícias do Exílio Nipónico” e “No Ádito da Ásia
Episódios da Aventura Portuguesa no Oriente”, Instituto Cultural de Macau-
Comissão Territorial para as Comemoraçõies dos Descobrimentos Portugueses-
1993.-Instituto Português do Oriente 1994. Sem estas duas obras seria impossível
escrever sobre Venceslau de Morais)




Ali viveu uma comunidade luso descendente, ordeira, progressiva e foram
os homens portugueses que introduziram, em Ayuthaya, artes do ocidente.
Entre estas o saber trabalhar o ferro, de fundição e o manejo das armas
de fogo e, também, especialidades culinárias.
A ordeira comunidade portuguesa tem todo o apoio do General Taksin, o
libertador que em 1782 tinha o Sião e as fronteiras com os paises
visinhos deliniadas, tal como hoje se encontram.


