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PORTO TRIPEIRO
(Memórias da Minha Infância)
2ª Parte
A Praça do Marquês com jardim, arborizado, acolhedor e com a primeira biblioteca instalada, num jardim do Porto era o ponto de encontro de diversas ruas: Bonjardim, Costa Cabral e Constituição.

Os “amarelos” vindos da Praça da Liberdade lá seguiam, arrastando-se em cima carris campainhando pelo calcar, alternado, da bota dos guarda-freios que subiam e desciam a rua de Santa Catarina em direção à Areosa e Rio Tinto.
Na rua da Constituição circulava o 20 que contornava a cidade desde a Praça da Liberdade, subia a Santo António, passava a estreita e tortuosa rua de Entre-Paredes, seguia ao lado do jardim de São Lázaro; junto à Biblioteca, tomava a esquerda e subia a inclinada D. João IV. Junto ao Estádio do Lima entrava na Constituição até ao Monte Pedral e curvava à esquerda para a rua de Serpa Pinto, Rotunda da Boavista e, já não me lembro do nome das outras ruas até regressar à Praça da Liberdade.

Além do Asilo do Terço, estava a elegante igreja da Nossa Senhora da Conceição que ainda se conserva na minha memória a construção.

Na quina da Costa Cabral e Constituição estabelecida a confeitaria Estoril do Sr. Silva, que me era familiar dado que ali ía entregar tabuleiros de queijo à cabeça posados numa “sogra” enrolada em tecido de serapilheira para aliviar a carga de uma arroba da especialidade amanteigada , desde a Rua do Loureiro, a pé, com a senhora Constância de Mafamude.
Entrava-se na Estoril de caixeiros engravatados, limpinhos e de manguitos desde o pulso ao cotovelo para que não sujassem as mangas da camisa ao roçaram no balcão de tampa de vidro.
Simpáticos no atendimento dos clientes; prazenteiros e não menos matreiros ao servir as vizinhas “sopeiras”. (pejorativo relacionado, com as empregadas domésticas, provincianas, que serviam como internas, as classes ricas e médias).
Circulava no ar o cheiro a pasteis jesuitas, de nata, caramujos, bolos de arroz, almendrados; o característico das meias de leite e dos “galões” com torradas.
O queijo, tirado do tabuleiro, pesado na balança de balcão “Avery”, conferido o peso desde os quilos até às gramas, designado na factura e, depois, trazer de volta, devolvido o recesso que não tinha sido vendido.
Era assim na época em que os queijeiros do Porto, na década quarenta, comercializavam a especialidade da Serra da Estrela, à consignação e ao preço de 20,25 e 30 escudos o quilo.
Queijos vendidos inteiros, aos meios, quartos de quilo e até às cinco coroas (vinte e cinco tostões).
O Café Pereira era conhecido pelas mesas de bilhar, onde a juventude das redondezas jogavam o livre por duas coroas à hora.
O Marquês era uma pedaço, airoso, do Grande Porto onde pelas linhas arquitectónicas das casas, com jardins, nos saltava à vista que estas tinham sido construídas por gente mais ou menos abastada.


O Tamariz na rua do Lindo Vale, “Night Club”, propriedade de um tal Galvão e, também, do “Paladium” na Santa Catarina, onde uns infieis às honras assumidas na igreja dispendiam, pela noite adiante, em companhia de umas raparigas pagando-lhes, umas garrafas de vinho espumante da Bairrada e que estas, depois de tantas promessas, fisgavam-se pela “porta do cavalo” onde as esperava o “sê home”, o Toni, azeiteiro, popular na Viela do Anjo, na Bainharia e na Reboleira.
Um pouco abaixo do Marquês, em direcção à rua Antero Quental, encafuado entre moradias e quintais estava o Campo da Constituição do Futebol Clube do Porto, pelado, e com exíguas bancadas construídas de tábuas de pinho.
Um campo de piso de cimento que servia para a prática de três modalidades desportivas: basquetebol, futebol de salão e o andebol de sete. Famoso no andebol era o Pintado. Aos sábados pela noite e aos domingos de manhã a “malta” seguia para ali para assistir a jogos ou treinos.
O primeiro desafio de futebol de grande importância, foi o Porto e o Leça.
Entrei de “borla” debaixo do sobretudo de um caridoso adepto do F.C.P. ludibriando os porteiros.

O Estádio do Lima, relvado, com pista de cinza para a prática do atletismo e, outra de concreto, paralela, de curvas emboladas, para corridas ou chegada de etapas regionais de ciclismo. Servia, também, para umas exibições de dar nas vistas de uns tripeiros privilegiados e possuidores de automóveis de parca cilindrada de ali fazerem o gosto ao pé e o regalo dos que observavam essas “piroetas” dos Hilmans, Peugeots e Wolksavagens.
Os grandes encontros futebolistas, internacionais (raros) cujo o F.C. do Porto seria o adversário e dada ao espaço minúsculo do Campo da Constituição o Estádio do Lima era cedido pelo Académico.
Na minha infância disputaram-se, nesse relvado, irregular, com algumas “carecas” desniveladas pelo meio do espaço destinado à bola e aos jogadores, encontros com alguma notariedade entre o Porto e equipas estrangeiras e foi a 6 de Maio de 1948 que o Porto venceu o Arsenal de Londres, por 3 a 2 (a melhor equipa de futebol do mundo) cuja vitória, deixou ao rubro a população tripeira.
Depois do encontro houve festa rija pelo burgo e arredores e vendidos milhares de “neguinhos” (copinhos de vinho de três tostões) acompanhado, sardinhas,carapaus e iscas de bacalhau e boroa de Avintes.
Pelo Marquês e, longe estava a madrugada rangiam a estrutura dos carros de bois com a chiadeira aguda, compassada, da fricção do eixo que suportava as rodas.
Animais corpulentos de cabeças ornadas com cornos de mais de meio metro de comprimento, cada um, jungidos a cangas decorativas com motivos regionais, puxando a carga de hortaliças e nabos das hortas da circurvalação da Aerosa, Rio Tinto para o Mercado do Bolhão na Sá da Bandeira.


O Mercado do Bolhão, quadrangular, com alas de lojas no rés-do-chão e um primeiro andar composto de quatro angulos nos talhos onde se viam pendurados bois inteiros.
No exterior que dava para a Sá da Bandeira, Formosa, Fernandes Tomaz e Alexandre Braga havia lojas de calçado. Junto à entrada, do mercado do lado da Fernandes Tomaz instalava-se a mercearia de Valdemar Mota, que foi estrela do F.C. do Porto, e colega de equipa do não menos famoso Artur de Sousa Pinga nos anos 1930/1940.
Conheci os dois. O Valdemar era me familiar porque várias vezes ali ia levar queijo da serra da Casa Arcozelo, da Rua do Loureiro à Casa Valdemar Mota.
O Pinga era um homem que passava longas horas sentado no Café da Brasileira, na quina da Sá da Bandeira e Bonjardim bem vestido e de cabelo, abrilhantinado, de risca ao meio e puxado para trás.





Velhas estrelas futebolísticas do F.C. do Porto
Era um homem baixo e os seus olhos denotavam alguma tristeza, talvez lembrando-se da glória havida há uma dúzia de anos e agora, talvez, vivesse com algumas dificuldades monetárias.
Valdemar Motar, depois de ter deixado a bola, firmou-se como um honrado comerciante de secos e molhados e, preparou assim o seu futuro. Era um homem alto, cabelo às ondas já meio grisalho; de poucas palavras e o estabelecimento de que era proprietário possuia uma clientela seleccionada.
Na Rua Formosa, en frente ao Bolhão, estabelecidas a Casa Vilares e a Confeitaria do Bolhão frequentadas pela gente abastada do Porto. Nas montras, expostas com bom gosto a doçaria e pastelaria de fabrico próprio cujo cheiro agradável atravessava a porta e chegava ao passeio e às narinas dos transeuntes.

Atravessando a Sá da Bandeira em direcção à Bonjardim temos a popular lojas de miudesas, tecidos e artigos de borracha a “Lã Maria”.
Estabelecimento que todo a população do Porto e arredores conhece.
Como devoção, na quadra das festividades do Sanjoaninas, numa das montras, já por anos, era armada uma castata, com figuras, em movimento onde além do S.João estão os diversos motivos da vida,quotidiana do Porto e dos concelhos limítrofes.
Na decoração não faltavam aquelas figuras, tipícas do dia a dia da cidade do Porto: os carros puxados bois; o aguadeiro; a figura Zé Povinho, imortalizada pelo Bordalo Pinheiro; as noras de retirar água dos poços circundada pelo piso circular que o boi ou a vaca “pachorrentemente” , através da força bruta, do poço, fazia trazer os baldes, amarradas a correntes, transbordando a água cristalina do fundo do poço até ao tabuleiro que ligado a um rego riscado no meio do milharal ou batatal.
Essa bênção da água fazia dos campos jardins verdes nos arrabaldes do Porto.
Magotes de pessoas, todos os dias, admiravam a montra decorada da “Lã Maria” e, tradicionalmente já nas orvalhadas da madrugada da noite do alho porro, manjerico e da cidreira antes de o tripeiro recompor as energias dispendidas durante a noite de folia, muitos destes, depois da tigela de caldo verde, com a tora de chouriço, nas barracas de comes e bebes das Fontainhas ou numa outra tasca encontrada no
caminho antes de se acomodar ainda passava pela Formosa e, já de olhos piscos olhava a montra da “Lã Maria”.
Do outro lado da rua estava uma filial da confeitaria Costa Moreira cuja a sede estava no Largo dos Poveiros.
Antes de continuarmos o roteiro, saboroso, do Porto Tripeiro e da minha infãncia, saltamos agora da Formosa e vamos recordar o que ainda se queda, bem vivo na minha memória as ruas de Santa Catarina, Passos Manuel e Santo António. A Santa Catarina (que já não vejo há 25 anos) era a rua “chique”, sem a menor dúvida do Porto.

Os carros e os eléctricos circulavam na rua e as pessoas nos passeios.
O Café Paládium, com porta rolante, na quina de Passos Manuel e no primeiro andar um “Night Clube” frequentado pela classe nobre do Porto e onde diziam, paravam por lá umas raparigas que alternavam com a clientela .
Á entrada e nas horas do almoço era o ponto de paragem, dos caixeiros da rua e chamados os “pipis-da-tabela”, muito encanadinhos, alguns com as camisas roçadas no colarinho de tantas vezes ter sido passadas a ferro, cabelo de risca ao meio e marrafado e, alguns, preferiam a popa muito bem armada e abrilhantinada.
Essa malta jovem, tripeira, durante o período das duas horas de descando para o almoço como entretenimento, quedam-se por ali a distribuir “piropos” às raparigas que em frente deles passavam.
“Piropos” com alguma pimenta e disfarçados como inocentes que esses conquistadores de “meia tigela” os disparavam em surdina:
- “que linda e formosa você é”!
As raparigas, passavam, algumas olhavam o chão para esconderam a frase pirosa que lhes tinha sido dirigida.
Outras, já assim não era, com picante na língua não gostavam, mesmo nada, das “piropadas” galanteadas.
Uma ocasião um “arranjadinho” ao passar uma “vampe”:
- quem me dera ter uma irmã bonita como você o é....
A rapariga caminha uma meia dúzia de passos; pára, volta para trás, e responde-lhe:
- ai queria, queria ter uma mana igual a mim?
- Olhe diga à sua mãe que passe por minha casa que o meu pai faz-lhe uma igual a mim...
- Piropos com troco.
Mas o “piropo” clássico nunca haja ouvido foi dirigido a uma moçoila de uns 20 anos que levava um molho de couves na mão:
- O rapaz pergunta-lhe:
- O que é isso que a menina leva na mão?
- Não sabe mesmo?
- Não sei.... vá diga-me bonitinha...
- São couves pesadas no toro e “leve no olho” ouviu?


Na rua Passos Manuel quando se sobe e ao lado direito, depois da Santa Catarina, está a Relojoaria Marcolino e o primeiro estabelecimento, do Porto, que mandou imprimir os calendários dos jogos do campeonato nacional que os ofereceia gratuitos.
A uns 50 metros esta a garagem do grupo empresarial chefiado por Sr. Rocha Brito.
Agente dos carros americanos de luxo..

Era corrente, passear pelas ruas da baixa tripeira Rocha Brito com um esplendoroso carro americando conhecido por “rabo de peixe”, com uma rosa vermelha na bolso do casaco e, acompanhado com uma linda jovem mulher onde até se surrurrava ter tido um caso com a trapezista, espanhola, “Pinito del Oro” cujas exibições, integrada num companhia de circo que actuou no Coliseu do Porto, redondou num total sucesso.
Rocha Brito gozava de enorme prestígio no Porto e, também, empresário das salas de espectáculos Sá da Bandeira e do Coliseu do Porto, este havia pouco sido construido.

O Teatro Sá da Bandeira, durante o ano exibiam-se companhias de revistas de Lisboa.
Revistas que por norma criticavam o Governo de António Salazar, chacotava as figuras públicas do Porto.
O preço dos bilhetes era acessível a todas as classe desde a plateia, ao balcão e os camarotes. Estes, a maior das vezes eram utilizados por grupos, por vezes até desconhecidos, para que a entrada ficasse mais em conta.
Um Porto, bem pequeno na altura, onde praticamente se conhecia todas as pessoas que viviam na baixa.
Passeavam pela baixa senhoras, elegantes, e de chapéu na cabeça e, comerciantes de bigodes farfalhudos.
Noites calmas de ruas e praças desertas.
As zaragatas ficavam pelo Bairro da Sé, no Largo da Cividade onde abertos toda a noite estavam os cafés “Royal” e o “Derby” frequentados por gente de mau porte e mulheres da vida, marcadas no rosto e nas pernas pelos sinais da sifilis, latente, que ainda não havia cura para a doença.


O romantismo no Porto era facto evidente.
Fossem comerciantes, empregados bancários, caixeiros ou as raparigas de balcão das lojas de moda da Santo António onde o estabelecimento que mais se distinguia era a Vadeca que vendia discos de 78 e 45 rotações e instrumentos de musicais.
Ora a revista no Porto era um importante acontecimento.
Vasco Santana, Costinha, António Silva, Beatriz Costa e ainda outros que não me ocorrem á memória actuarem nessa casa que foi uma sala de espectáculos cultural de critica, inteligentemente, interpretada e sofisticada pelos actores que por gestos e palavras o tripeiro entendia a quem os reparos eram dirigidos.
Evidentemente ao regime ditatorial; aos buracos e barracas que o Porto tinha.
O tripeiro assitia, hilariantemente, com bom agrado a essas exibições.
Ao outro dia as interpretaçãoes dos actores eram chacoteadas entre os amigos na mesa do café e em família .
A critica ajudava a desopilar fígado aos tripeiros.
Pelos cafés e restaurantes, finos, da baixa movimentavam-se os “pides”, na sombra do quartel general da rua do Heroismo ( a portas com o Cemitério do Prado Repouso), havia assim o cuidado dos tripeiros sussurrarem as cenas teatrais do Sá da Bandeira com esmero cuidado não fosse, porém, andar por ali um “bufo” (conhecidos, assim, por “ ovelhas ranhosas” os informadores da polícia política de Salazar) e, por uns dias ficasse a “pão e laranjas” na Heroismo e heroicamente aguentar umas chicotadas de cavalo marinho no costelado; registado o seu nome no livro do deve e haver, da PIDE como simpatizante da política, comunista, de Lenine da “Cortina de Ferro”.




Famosa na altura foi a revista os “Parolos de Santa Comba” , cuja esta, como era óbvio, era dirigida a Salazar.
Surgiam no palco actores vestidos, de parolos, de colete e calça de surrubeco e barrete, comprido, de pera na ponta e cantava: “.....nós vimos de Santa de Comba ó rebim-bimbim ó rebim-bimbão nós a todos tiramos e todos no-lo dão.....” A figura principal era o grande actor, humorístico, Costinha. Homem atarracada e desde que entrasse em cena o público ria-se a bandeiras despregadas.
As instalações da Estação da Trindade era um barracão velho na altura. Assim se conservou por mais uns anos bons. Nos “Parolos de Santa Comba” havia uma cena da peça onde era encenado o degradado barracão.
O Presidente da Câmara, na ocasião, era um tal Luis Pina. A figura do Pina está na cena bem representada e o seu interlocutor era nem mais nem menos que o actor Costinha. Este faz-lhe imensas perguntas a que o Pina lá lhe ia respondendo conforme pudia e sabia e o Costinha: “Sr. Pina aqui não opina nada, nada...” Neste
instante uma bomba estoirava no barracão, de papel, desfazendo-o e provocando enormes gargalhadas entre os espectadores.




Um Porto ainda destelevisado com rádios, “Telefunken” e “Philips” de goelas abertas a transmitirem os fados da Amália Rodrigues, da Hermínia Silva, do Afredo Marceneiro, Carlos Ramos e outros faditas de simpatia, dos tímpanos dos tripeiros, da época; os folhetins do “Zéquinha e da Lélé” e os “Companheiros da Alegria”.


Aos Domingos o “povoléu” esperava e para desopilar o fígado pela “Voz dos Ridículos” transmitida pela “Ideal Rádio” da rua Alferes Malheiro.
Não havia “tasca” no Porto que não tivesse um rádio pendurado na parede e que durante as horas não estivesse sintonizado mais com a Ideal Rádio do que com a “Renascença” e raramente com a Emissora Nacional que transmitia música sinfónia e noticiário político, cuja para esta o tripeiro se estava nas tintas.
E, que já que escrevi, atrás a palavra política o tripeiro nunca foi lá grande entendedor na matéria mas quando a política estava na rua lá estava ele, na barafunda a fazendo monte e a dar o seu apoio e ajudar às “barafustadelas” dos políticos a sério.
E nestas os “bófias” na linha recuada do ajuntamente de cassetete pronto para entrar em acção a todo o momento.
Os “tripeirotes” até lhes dava gozo o “sô polícia” fazer os cem metros, sem barreiras, em correria atrás dessa maldita irreverente catraiada com uma mão a segurar o “bastão”, maleável para não quebrar ossos e outra o boné não fosse por aí este saltar com a trepidação da correria nos paralelepídes, desnivelados, da rua.
Política nunca foi o forte da gente humilde do Porto. A população deste burgo é de raizes operárias e das “terras de lá de xima” e arribaram os seus ancestores quando se deu o começo do desenvolvimento industrial do Porto.
Entretanto uma grande parte de mão de obra para abastecer as necessidades, laborais das fábricas do Porto chegam dos concelhos confinantes:
<>. ( Texto extraído “ Habitação Popular na Cidade Oitocentista – As Ilhas do Porto” de Manuel C. Teixeira – Fundação Calouste Gulbenkian – Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, pag. 104 e de autoria “Citado em Armando Castro, ob.cit., p.91”


O burgo não está preparado para habitabilidade das gentes chegadas das províncias e são, então, construídas numerosas ilhas nos quintais do primeiro e segundo bairros: Bonfim, Campanhã, Paranhos, Stº Ildefonso,Sé, Cedofeita, Foz do Douro, Lordelo do Ouro, Massarelos, Miragaia, S. Nicolau. Vitória, Aldoar, Nevogilde e Ramalde. A população de todas as freguesias cifrava-se: 1864 - 86.761; 1878 - 105.838; 1890 -138.860 e 1900-167.955 milhares de almas. Em 36 anos a população, tripeira, dobrou quase o dobro.
Curioso é que em Aldoar, Nevogilde e Ramalde de 1864 a 1890 não existia população significativa qque merecesse censo dado que essas zonas eram rurais ou melhor as quintas dos arrabaldes do Porto.
Essas quintas e quintais adjacentes às moradorias ainda por Ramalde havia, na década de 50 quando por uns dois anos, fui motorista, da Cooperativa de Ramalde, no Largo de Pereiró.
A Cooperativa modernizou o sistema de entregas aos associados, adquirindo um furgão “Wolksvagen”, substituindo o cavalo e a carroça que tinha como carroceiro “o ti Manel” da Senhora da Hora; já entrado na idade e analfabeto não poderia tirar a carta de condução.
Por concurso fui então admitido, como motorista, com um salário de um conto de reis por mês. Mudei com isto a profissão de caixeiro da Confeitaria Serrano, gerida pelo sócio e meu primo, de sangue, Joaquim Daniel “o Lopinhos”, mais velho que eu uns 15 ou mais anos. O meu primo “Lopinhos” era um pregador de moral e as nossas relações estavam muito além, daquelas que deveriam ser pelos laços sanguínios que nos prendiam.
Antes da minha saída da Serrano, a caixa registadora do balcão andava a ser “crestada”, por um empregado de mais de uma dezena de anos de casa e por uma rapariga dos lados de Ermezinde.
As dúvidas do meu primo Lopinhos, em cima do crestador da caixa registadora era eu!
Embora nunca me o tenha atirado à cara eu sabia que estava debaixo de sua suspeição. Pouco depois de eu ter saído da Serrano ele viria a descobrir os que davam “murros” na registadora.
Com isto fui e humilhado fui pregar pregar para Ramalde.
Mais tarde conheci a Guida, uma jovem bonita costureira, morgada e passado seis meses viriamos a casar na Igreja Velha de Ramalde.
União matrimonial que não chegou a bom porto cuja a falta foi minha e dou a mão à palmatória.
A imagem da Guida nunca, até hoje, se apartou de mim e por ela tenho uma enorme admiração, como mulher de princípios morais e de vida.


Ramalde, era um meio absolutamente rural nos anos sessenta. Havia por lá casas de lavradores, seculares, de largos pátios , lojas de gado, alfaias agrícolas e campos de cultivo de milho batatas e outros vegetais que seguiam para abastecer os mercados do Anjo, junto aos Clérigos (substituído pelo moderno do Bom Sucesso) mercado do Bolhão, rua Escura e, ainda para as típicas mercearias tripeiras espalhadas pela toda cidade.
Em 1900 e porque na zona da Boavista se instalam-se várias indústrias, uma com grande significado a fábrica dos ingleses, onde empregou milhares de pessoas e, que mais tarde viria a encerrar (não sabendo porquê), nos anos 1950/60 que deixou centenas de pessoas desempregadas e em dificuldades económicas que se valiam dos créditos da Cooperativa de Ramalde.
Depois instalava-se a Fábrica Veludo de papeis pintados e com estabelecimento de venda ao público na Sá da Bandeira junto ao teatro. Praticamente não havia, no Porto, palacete,casa propriedade da média classe que não tivesse forrado nas suas paredes interiores papel, decorativo, pintado.
As indústrias tripeiras, as com maior significado estendiam-se para os arrabaldes, embora as de pequeno porte continuavam a quedar-se no centro.
Temos a rua dos Caldeireiros onde naquele artéria inclinada se ouvia, durante o dia, o martelar constante dos caldeireiros a moldar o cobre.
No morro, a confinar as traseiras do Largo da Cividade junto à Rua Chã, estava a Fábrica das Balanças com a loja de venda na Rua do Loureiro junto à Mercearia Camões e a Farmácia do samaritano Barros que foi uma figura inolvidável na zona da Sé que receitava as mezinhas, aplicava as injecções quer fossem ricos ou pobres tripeiros.
Junto à margem do Douro no sopé do morro das Fontainhas e para os lados de Massarelos havia outras indústrias e a maior era fábrica de garrafas de Barbosa & Almeida para satisfazer as necessidades de engarrafamento do Vinho do Porto dos armazenistas da outro banda do Douro em Vila Nova de Gaia.
Voltando ao fluxo demográfico de Aldoar, Nevogilde e Ramalde e pelo que acima descrevemos, dada a expansão industrial, em 1900 em Ramalde viviam 7.111; Nevogilde 1.210 e em Aldoar 1.052 que somavam 9.373 habitantes.
Até aos anos de 1950, a expansão demográfica está mais ou menos balançada para satisfazer a procura de mão-de-obra para a industria e rural.
A partir dos anos de 1950 o cenário rural e campesino lentamente desaparece ( já com a Fábrica dos Ingleses encerrada) e dá-se início à modificação do meio com a construção de novos bairros, abertura da Rua do Lidador, e uma zona industrial nos campos para lá da Rua Pereira de Sousa junto à incompleta Via Norte, transitável até à Estrada da Circunvalação.
A população de Ramalde, Aldoar e Nevogilde vai vivendo conforme pode e com evidentes dificuldades para a compra de meia boroa de Avintes, um quarto de toucinho, uns meios quilos de arroz e acúcar e umas cem gramas de café com chicória e cevada moida.
Vivem os tripeiros com certas dificuldades económicas e dentro de falta de salubridade isto porque a classe pobre vive nas ilhas.
A 1ª e 2ª Guerras Mundial tinham deixado marcas profundas de miséria em Portugal e o Porto não foge à regra.
Portugal produzia produtos agrícola suficientes para a alimentação dos portugueses antes da 1ª Guerra Mundial.
A Guerra Civil de Espanha, a Mundial que se segue produz chagas profundas na população lusa.
Do lado de Espanha havia o perigo da entrada dos comunistas e com isto criar o caos no Povo português, despolitizado e que não sabia bem o que era a doutrina da “Cortina de Ferro”.
Alvaro Cunhal, um “rapazola” nascido em Seia (Serra da Estrela) já se movimentava com outros, seus, comparsas, no escuro, para a infiltração da doutrina comunista na classe operária.
Os bombardeamentos aéreos dos alemães eram uma ameaça constante.
Recordo que já no final da 2ª Guerra Mundial e de quando cheguei ao Porto havia ainda muitas janelas de casas e montras com fita, gomada, colada para evitar o estilhaçar dos vidros pelo o impacto do estoirar das bombas.
Com isto o Dr. Salazar disse aos portugueses: “da guerra vos livro mas da fome não!”.
Comboios, carregados de comida rodavam pela calada da noite na linha da Beira Alta em direcção a Espanha.
Salazar jogava com pau de dois bicos ou seja de boas relações com Deus e o diabo (ingleses e os alemães)
A população, além das guerras, sobre pelos efeitos do clima (nevoeiro e humidade constante no inverno) que não lhe é propícia para uma vida com a mínima qualidade.
A tuberculoso, as gripes, as doenças venéreas (sifilis e a gonorreia) eram as causas maiores das mortes. Na baixa da cidade, gente doente, esquelética e de faces pálidas deambolavam pelas ruas esperando pelo dia da partida para os cemitérios Prado do Repouso ou de Agremonte.
Não escapavam os ricos ou os pobres devido à contaminação da atmosfera pestosa.
No Porto e nos arrabaldes abundam as pequenas mercearias com o polvo seco, sacos de sarapilheira até ao cogulo de cebolas, batatas, castanhas, barricas de azeitonas em salmoura e barrigas de toucinho, focinhos de porco e orelhas fumadas e salgadas pendurados à entrada das portas.
Lá dentro pipos de vinho espremido das videiras de fraca cepa das quintas dos arredores do Porto e outro chegado ao cais do muro da Ribeira do Douro trazido nos barcos rabelos.

Operários em que nos seus bolsos abundava o cotão e menos mil reis/escudos é criado o livro de crédito na mercearia e outro mais pequeno para o freguês onde os fornecimentos do sabão, petróleo, vinho, mercearias, toucinho, banha de porco, fósforos e o maço de cigarros fortes (pedreiros), eram assentes e, que, seriam pagos no fim de cada mês.
O Porto ostentava a sua tradicional burgesia instalada nas baixa tripeira.
Estendeu-se depois para os lados da Boavista, Marechal Gomes da Costa e Foz do Douro.
Os janotas, românticos, estes rondavam a Praça , passeavam pelo Passeio das Cardosas, Santo António, Clérigos, Leões e Carlos Alberto botando os “olhinhos”, apaixonados, às prendadas meninas que pelas tardes acompanhadas das mãmãs iam juntar-se a outras senhoras gradas e tomarem, juntas, o chá da tarde com bolos à Arcádia ou à Ateneia na Praça da Liberdade.
Voltamos à rua de Santa Catarina com o Primeiro de Janeiro o diário dos intelectuais e dos conservadores.
Mais acima e antes que se chegue à rampa da rua Firmeza do lado direito temos a Confeitaria Cunha e famosa pelo bolo rei e pão do ló do Teixeira Bonito. Comerciante de grande popularidade no cidade tripeira e não havia ninguém que não conhecesse o Teixeira da Cunha.
Porém, não vou deixar, de contar uma história passada entre mim e o Teixeira da Cunha.
Era eu um rapazola de uns 19 anos e caixeiro de balcão da Queijaria Gaspar, na Travessa de Cimo de Vila cujo o proprietário era o António Gaspar ou melhor o “Gaspar dos Queijos”, como era conhecido na cidade e arredores.
O António Gaspar natural de São Paio da Serra da Estrela foi criado no Porto, (onde o seu pai foi um comerciante conceituado e dinamizador do comércio de queijo da serra), junto ao irmão José Gaspar,este como o irmão António, estava estabelecido com uma queijaria na Santa Catarina e em frente á Confeitaria Cunha.
Teixeira Bonito e os irmãos Gaspar era assim rapazes do mesmo tempo. A Confeitaria Cunha especializada em bolo de noivos, e com numerosas encomendas na época dos casamentos para a confecção da especialidade e até revertia em vaidade haver na boda um bolo com a marca da Cunha.
No topo do bolo, de mais ou menos de meio metro de altura, era colocado os noivos fundidos em açucar branco.
Num Domingo, na parte de manhã, a Cunha tinha que entregar uma dessas gulosas ornamentação, nupcial, para os lados se Santo Ovídio.
Teixeira Bonito não tinha, disponível, a furgoneta da firma e foi pedir, esta, ao amigo “Gaspar dos Queijos” e, meu patrão que me encarregou de a guiar , “Fordson” fechada de cabine avançada e já em voga pelos merceeiros do Porto.
Tinha eu obtido a carta de condução aos 18 anos e emancipado, contra a vontade do meu Pai, dado que conduzir automóveis, naquela época era coisa para “malucos” que até atropelavam gente.
Depois de cinco vezes na Direcção de Viação de Santa Catarina, fazer cinco provas orais; manobrar na Rampa da Escola Normal, entrar nas vielas de Paranhos, na das Taipas e na da Trindade, lá consegui depois de dez exames orais e de condução conseguir o doutoramente na arte de guiar um automóvel que até era um “licenciamento” que dava algum estatudo a um caixeiro de balcão que tinha calcarroado as ruas do Porto com tabuleiros de queijo à cabeça.
À porta da Cunha esperava-me o Teixeira Bonito e em cima do balcão o bolo que deveria ser entrega na casa onde o copo-de-água ia ser servido.
Os noivos e os convidados na igreja seguindo os rituais da união (recordo que na minha infância não havia casamento que não tivesse sido celebrado na igreja e noiva que não levasse um ramo de botões de flores , naturais, de laranjeira como símbolo de sua virgindade)
Colocado a especialidade no lastro da “Fordson”, Teixeira Bonito junto a tomar conta dele e eu como condutor da já bem rodada furgoneta.
Guiei pela Santa Catarina até à Batalha, passei a Ponde de Dom Luis sem problemas de monta.
Mas nas subidas da Avenida República até santo Ovídio o motor da furgoneta começa a “engasgar” e dar violentos esticadões para a frente e para trás que eu lá ía a sustendo com os travões de modesto funcionamento.
Teixeira Bonito, segurava, como pudia a base do bolo e aos gritos:
- Ai minha Nossa Senhora, ai o meu bolinho;
- Ai meu Deus que se vai partir mesmo;
- Guie lá isso com cuidado sem dar “barrigadelas”;
- Mas como vai ser, como!
- Como!
- Se os noivos ao chegarem da igreja não têm o bolo...
Bem o bolo chegou mesmo, ao destino, meio empenado e beliscado mas só que umas alianças, decorativas, tinham-se desprendido do bolo e caido.
Não apareciam...depois da busca lá estavam, estas, numa frincha do lastro de madeira.
Recordo com saudade a figura popular, dentro do burgo tripeiro, que foi o Teixeira Bonito da Confeitaria Cunha.
Vivi por alguns anos na rua do Bonjardim, do rés-do-chão do número 947 com a família de Francisco Mendes e a Dona Lígia.
Ele da mesma terra que eu de Arcozelo da Serra do concelho de Gouveia; a Dona Lígia de Esposende.
Aquele rés-do-chão era mais ou menos um centro académico isto porque acolhia hóspedes estudantes, já homens como eu.
O menos culturalmente, falando, era eu e um caixeiro de balcão na Confeitaria Serrano, na rua do Loureiro, propriedade da “Daniel, Albuquerque & Cª Limitada” cujos sócios eram meus primos onde auferia um ordenado, mensal, de 800 escudos. Quinhentos escudos pagava eu, mensalmente, à Dona Lígia, restavam-me 300 para o meio maço de cigarros “Definitivos”, para a “borga”, noctívaga, com o Carlos Alberto Brites, o Pedro Albuquerque, os dois do Arcozelo, o Gil de Vila Real de Trás-os-Montes e, o Senhor Joaquim do Fundão empregado de escritório da “Fábrica de Bicicletas” da rua de Camões.
Hospedava-se, também, o Senhor Moura, transmontado dos quatro costados e, estudante universitário que resolveu, com toda a força e vontade, depois de sair da tropa, licenciar-se em Letras na Universdade do Porto.
O Moura era um jovem homem bastante sossegado, nunca saia à noite com a “malta”; ensinou-me uma palavra, filosófica, que me marcou e viria a servir de mastro para me guiar durante a vida: “A Vida Começa Todos os Dias!” .
Era isso mesmo desde que se acorde vivo na manhã de todos os dias.
O dinheiro nos bolsos da rapaziada era sempre escasso. Eu com os meus 300 escudos depois de pagar a pensão, os estudantes sempre à espera da mesada que nem sempre o vale do correio chegava a tempo e horas.
Dentro do rés-do-chão da Bonjardim havia um bom coração que era a Livinha, irmã da Dona Lígia, uma mulher muito inteligente, empregada numa importante casa de tecidos da Mousinho da Silveira que “emprestadava” , uns 20 escudos de quando em quando.
No primeiro andar da 947 morava o guarda-redes Barrigana (expulso havia pouco do F.C.P.) e o guardador das redes do Salgueiros de Paranhos.
Naquela área da Bonjardim era um espaço de amizade onde vivia uma malta “tripeira” porreirinha.
No Bairro da Fontinha, vivia a sempre alegre e apetitosa (viria mais tarde a ser uma fadista famosa) a Beatriz da Conceição.
Assaltos a pessoas ou roubos na rua, tão-pouco o método do esticão era prática desconhecida.
Havia, sim, uma técnica, inofensiva pelos “vigas” de rua que era o de vender o vigéssimo premiado ou um anel de latão, que dois malandros, encenavam, no passeio aos olhos do provinciano vindo ao Porto para comprar umas “coisinhas” que na sua “parvónia” não havia.
O “truque” do vigéssimo premiado era mostrar a cautela ao incauto e anafalbeto provinciano, que lhe tinha saído a “taluda”, mas que precisava uns 500 paus, enquanto não a iria cambiar à Casa da Sorte da praça de Almeida Garrett.
A do anel era encenada por dois “vigas”, muito bem treinados que um passava, ladino, junto à vitíma, e deixava cair a peça no passeio.
O outro vigas seguia atrás da vítima.
Este, logo que via o anel ainda a pinchar no chão, recolhia-o, olháva-o num instante e metia’o no bolso.
Ir entregá-lo ao que o perdeu...que ideia!
O ouro era tão raro que até lhe fazia um jeitão...
- Naquele instante o “malandro” de trás:
-“ó tiozinho” eu vi!
-Vamos lá dividir isso ouviu?
Os dois a um canto da rua discutiam o negócio do “pega ou larga”.
O vigas um actor/pilha conseguia logo ali avaliar a peça e apresentava a proposta ao “tio de lá de xima”: dou-lhe 100 paus e fico com o anel!
O provinciano e alheio às vigarices da cidade e acostumado às vendas do tecido reles dos ciganos nas feiras da sua parvónia, lá dava, cobrindo a proposta 150 ou mais escudos, ao burlão.
Pouco depois, o burlado, ia avaliar a peça de ourivesaria às lojas de ouro da Rua das Flores e, entendia então, que tinha sido vigarizado.
Em cima da vigarice da cautela a coisa era diferente!
Havia o encontro de dois vigaristas.
O burlado virava burlão e este a falar para os seus botões: ai xim esta cautela tem a taluda?
- Esperar por esse gájo para quê?
- Que se lixe vou mas é trocar isto!
E lá seguiu para a Casa da Sorte e sabia, ali, que a cautela estava branca como a cal!
Junto à casa onde eu morava e no final da rua do Paraiso estava a “Fonte da Vila Parda” , uma loja de solas e cabedais, a “tasca” do Castro; a tertúlia onde a rapaziada se reunia e bebia os indispensáveis “neguinhos” de branco ou tinto a três tostões.
A malta amiga compunha-se: o Quim Polidor, amador da prática do boxe na categoria dos leves que aparecia, normalmente, com o nariz esmurrado e olheiras fundas e negras do sague pisado, depois dos combates de fim-de-semana; o Jorge sobrinho do Barrigana muito dado ao aeromodelismo; o Toninho, empregado num armazém de malhas e miudesas da Rua Mouzinho da Silveira, um fraco tocador de gaita de beiços que quando lhe faltavam umas “coroas” lá ía empenhar um ou mais realejos à casa do “prego”.
E quando o prazo da cautela estava preste a expirar negociáva-a e ficava a “malta” por uns tempos sem as melodias “realejoeiras” do Toninho da “Fonte da Vila Parda”.
Claro como já todos eramos meios homens começamos a fumar.
O cigarro davamo-nos a personalidade de adultos com barba na cara.
Em frente da acasa onde eu morava havia um quiosque enfiado num vão de escada onde nos abastecia-mos, por dois tostões, de três cigarros “pedreiros” também conhecidos por bombas.
Morava por ali outra juventude e outra nas ruas de Camões e da Faria Guimarães que ao fim do dia ou para uma “trapalhada”, noctívaga, se reunia na tasca do Castro. Na tertúlia dos “néguinhos” e das iscas de bacalhau a cinco tostões o plano da “matulagem” era naquelo centro cultural da “pinga” traçado.
Uma bilharada livre no café Pereira do Marquês; uma volta pelas “casas de tia” e fazer alguma sala até que a “matrona” não corresse a rapaziada à vassorada pelas escadas abaixo. Praguejando: vêm “práqui” estes azeiteiros de merda, rua,rua daqui!
A ronda da malta pelas casas de “porta aberta”, ficava pela famosa 515 da Bonjardim: mais abaixo depois de cruzar a Fernandes Tomás estava a Rua Estevão. Do outro lado estava o muro do Palácio dos Correios que nunca a construção atava ou desatava.
Na viela das Liceiras, pegada ao barracão da Estação da Trindade, ao fundo, a “Bem-me-queres” que de bem não fazia nada aos mais “ataviados” de cio que acabavam de ir curarem-se, para os lados da Rua da Carvalhosa, no dispensário que tratava as doenças venéreas com a famosa injecção 1914 que aterrorizava, só o nome, aos libertinos mesmo sem serem picados pela, também, conhecida: “dose de cavalo”
Fim da Segunda Parte
José Martins/2004.