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quinta-feira, 24 de junho de 2010

DIA DE SÃO JOÃO: LEMBRAR O PORTO DA MINHA INFÂNCIA

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EU SOU UM POUCO DO PORTO E O PORTO UM POUCO DA MINHA ALMA. QUEM PASSOU A SUA INFÂNCIA NO PORTO JAMAIS O PODERÁ ESQUECER



Já lá vão uns bons anos de vida, fisgados, no tempo, como uma aragem macia que quase não damos por ela.


Iniciei a minha carreira profissional como marçano, na cidade tripeira, pouco depois de ter terminado a 2ª Guerra Mundial por volta dos anos de 1946.


Uma baixa do Porto castiça, fedorenta, com bosta de boi em cima dos paralelopípedos de granito, ensebados pela gordura do mijo do gado que jungidos a cangas decoradas com motivos regionais, puxavam carros ronceiros e chiadeiros atacados de víveres dos armazéns da Rua São João, subindo a rua Mouzinho da Siveira e chegados à praça de Almeida Garret divergiam para os lados dos campos da Boavista e Ramalde, Rio Tinto, Gondomar e Gaia.



Desembarquei na estação de São Bento depois de um dia de viagem, no comboio da Beira Alta com transbordo na Pampilhosa da Serra para o “trama” vindo de Coimbra, desde a estação de Gouveia, a levante do rio Mondego e, no distrito de Viseu.


Um dia de viagem e chegado meio enfarruscado das faúlhas que expelidas pela chaminé da fornalha da máquina a vapor que corriam ao longo da composição e nos tingiam de negro a face e me entravam nos olhos que vermelhavam as retinas, depois, de tanto serem esfregadas.


Dificil adaptação para um miúdo, da minha idade, de pouco mais de dez anos que choramingou pelo caminho pelo facto de deixar a serra, a casa da Fonte, o som das campanhias das ovelhas e dos chocalhos das cabras.



O calor das cavacas de cerne, resinosas, de pinheiro bravo que ardiam nas lages da lareira da cosinha onde a família se reunia na ceia e se aconchegava do frio


As festas do Natal, o desabrochar das flores na primavera, aquele som que jamais me saía dos ouvidos; o da queda da água no açude da ribeira, correndo desde as cordilheiras, baixas, da serra pelo vale entre entre lameiros e de margens com árvores de amieiro, freixieiros e figueiras onde os melros as pegas e outra passarada faziam poiso e bicavam água fresca e cristalina que corria entre juncos e embudeiros que cresciam na corrente dessa ribeira.



Tinha sido, naquele ano, “licenciado” e aprovado em Julho, último, com exame do 2ª grau da instruçao primária em Gouveia.


A quarta classe era o licenciamento da “canalha” do meu tempo que até era doutrinada a ter amor à Pátria; sabia de cor e salteado os nomes de Luis de Camões, do Vasco da Gama, do Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e de todos os herois quinhentistas.


Além do mais o conhecimento cronológico das datas dos feitos dessas grandes figuras lusitanas.


Vida desgraçada esta do campo e do gado!


Palavras que o meu pai me dizia constantemente.


Não queria de forma que fosse um seu seguidor e um futuro lavrador e pastor.


Talvez um comerciante, um dia, na cidade do Porto, era o seu desejo.


Admirei a grandeza da ponte, metálica, de D. Maria, quando o comboio, quase a passo, a atravessou em direcção à estação de Campanhã.


Olhei para o Sul do Rio Douro e lá está a majestosa Ponte de D. Luis de dois tabuleiros que dela já me tinham falado.



No átrio da estação de São Bento duas filas de pessoas formando um corredor em frente e à saida da gare esperavam os passageiros.


Encostados às paredes e com cara de poucos amigos, carrejões de trouxa às costa e capuz de serapilheira enfiada na cabeça para que algum passageiro lhes entregasse um cesto ou cabaz e um frete de uns 15 ou 25 tostões para os lados de Cimo de Vila, Caldeireiros, Praça de Carlos Alberto e rua de Cedofeita.


O Largo de Almeida Garret alumiado com candeeiros de três globos.



As luzes de neon de cor azul que apagavam e acendiam, intermitentemente, refletiam raios na calçada da rua e nos azulejos da parede da igreja dos Congregados, vindos do alto do prédio da esquina da Rua de Santo António, anunciando os automóveis “Hilman”.


A pronúncia das palavras eram diferente do tom forte que tinham as da Serra da Estrela.


As gentes vestiam de uma outra forma.


Alguns homens, com aparência de “esticadinhos” (também chamados pipis da tabela) usavam gravatas penduradas nos colarinhos, rafados, de tanto a camisa ser lavada; fatos lustrados de anos de uso.


As faces das pessoas não eram coradas como as dos homens e mulheres do Arcozelo.


Jovens penteados com o cabelo para trás e empastado de brilhantina barata.


Depois de sair da gare de São Bento lá me levaram para a Casa Faria, dos meus primos e família Daniel, já comerciantes de prestígio no Porto, na Mouzinho da Silveira número 237, mesmo em frente à rua do Soto que ligava as ruas da Bainharia, Pelames, Escura, Viela de São Sebastião e outras artérias lúgubres e mal cheirosas do Bairro da Sé.



Para um rapaz serrano naquela época se habituar e integrar-se no contexto da miudagem, amarelita, do Porto e do bairro da Sé não era lá coisa muito fácil!


Era segregado e escarniado por essa irreverente, traquinagem, tripeira. Correntes as frases pejorativas: “É pá olha o parolo que veio de lá de “xima” da terra da coina! ”


As palavras, mais correntes, recebidas dessa malandragem de bairro do Sé.


E foi neste bairro e na rua do Loureiro nº 46, na Casa Arcozelo, queijaria que tinha como nome o da terra que melhor queijo produzido na Serra da Estrela e propriedade do meu primo António Daniel, que Deus o tenha em descanso que me iniciei, profissionalmente, na categoria de “marçano”.


As funções me foram atribuídas eram as de carregar tabuleiros de queijo à cabeça da Loureiro, para as confeitarias do Marquês, Antero de Quental, Cedofeita e, também, de quando em quando, umas “maratonas” ao Amial e Areosa.


Havia, depois, as entrega das encomendas de cerveja Cristal, das gasosas, da laranjada Invicta pelas “tascas” do bairro da Sé, São Nicolau e Bonjardim.


E, claro, ainda servir ao balcão, da queijaria, a clientela que raramente comprava queijos inteiros, mas pedaços a partir das 50 gramas.


Gente, aquém os olhos brilhavam, alguma de chapéus já desabados, do passeio a mirar o queijo da serra amanteigado, exposto na montra.


De dentro e de trás da montra olhava-lhes o desalento de não o poderem comprar.


Outra, com alguma hesitação, lá entravam e pediam umas 50 ou 100 gramas e raras eram as que levavam um quarto de quilo.


Peso na mão que a faca não falhava, no corte do queijo, um grama que fosse ao pedido.


O orgulho do querer mais e não ter posse para o adquirir, era simulado pela frase corrente do cliente: “dê-me só cinquenta “graminhas” que o queijo faz mal ao fígado.....”



O Bairro da Sé era estigmatizado e caracterizado pela continuada presença da rufiagem, noctivaga, em procura das “casas de tia” (legalisadas), que em todo bairro existiam e a mais famosa era o trinta do Corpo da Guarda que como proprietário tinha um bonancheirão, de uns cem quilos de peso e apelidado de “Manso”.


As vozes dos residentes, gente de parcas posses e “sem pimenta na língua” a cada instante a palavra “caralho” era proferida gritada ou moderada.


Ficou retida na minha memória as frases de uma mulher que gritava em cima do soalho de uma casa, na rua dos Pelames, para o filho:


“ ó meu filho da grande puta quando chegar o corno do teu pai vou-lhe fazer queixa de ti”.


Palavras inocentes, típicas e coerentes da arraia-miúda tripeira!


Frequentes as rixas, no Bairro da Sé, entre as mulheres de vida fácil que à entrada da casas de porta aberta se envolviam em cenas de ciúmes porque uma lhe roubara ou tinha ido para a cama com o seu amante, o “tony” e um distinguido “chulo” do bairro.


O Porto do meu tempo e da minha infância não tem nada haver com o Porto actual.


Muita coisa viria a mudar com o correr dos anos.


Uma cidade pacata e tranquila durante a noite.


O silêncio perturbado durante as horas nocturnas pela fricção das rodas, a rolarem em cima dos carris, dos amarelos, que funcionavam até à meia noite e pelas zorras que das minas se São Pedro da Cova transportavam o carvão em pó para a central de Massarelos.


O censo de 1950 dá conta da vivência de 281 mil tripeiros.


Um Porto velho, pacato e até com muito regionalismo e assim se identificava-se com a constante chegada de pessoas vinda dos arrabaldes e da terras do Douro que à cidade se deslocavam para vender uns presuntos; uns enchidos de carne de porco; uns ovos e uns cestos de frutas para depois, com o produto da venda comprarem umas miudezas nos armazems do Largo dos Loios, umas mercearias nas lojas da Mouzinho; ou uma fatiota nos prontos a vestir da rua dos Clérigos para vestir e melhorar a roupagem do filho, com um fato domingueiro, do moço “espigadote” ou um chaile de “merino” para a moça casadoira.



Mas além do xaile para a rapariga, porque não?


Se na bolsa fechada e apertada com um atilho e, bem segura nas mãos se ainda houvesse uns “dinheiritos” para umas arrecadas ou uns brincos nos ourives da Rua das Flores para a rapariga ou, ainda uma corrente de oiro para o rapaz prender o relógio no bolso do colete.


Á porta dessas lojas, do pronto a vestir, da rua dos Clérigos havia caixeiros expeditos, escondendo e encobrindo o ar de “malandrecos” e trocistas que procuravam por todas artes e imaginativas, de vender a todo custo um fato ao provinciano das terras do Douro.


A Torre dos Clérigos, essa imponente obra de arte e a identificação da cidade tripeira era um monumento que já não me atraía olhá-lha como a admirei, pela primeira vez, das estação das Devezas, em Gaia, quando estava prestes a chegar à cidade Invicta das terras serranas.




Um Porto de poucos automóveis que se conheciam os seus proprietários e gente grada e honrados comerciantes, de bigode, da praça do comercial do Porto.


Buicks e Cadilacs uns poucos guiados por motoristas fardados também circulavam nas ruas da cidade.


Rodavam mais os utilitários onde no grupo estava o famoso Ford T, de capota de lona, que alguém o tinha alcunhado de “sobe-se-sequer” a rua de Santo António; a dos Clérigos, das Carmelitas até aos planos da Praça da Batalha ou da Praça de Carlos Alberto.



Na Praça de Dom Pedro IV lá estava o Rei estatuado, em bronze, no centro da praça e, não compreendia a fraca ideia, do monarca “Libertador” estar virado para o Passeio das Cardosas e de costas o Rei e, de rabo o cavalo, para a estátua de cândido olhar da “Menina Nua”, no princípio da Avenida dos Aliados e a sala de visitas do burgo tripeiro.


Mulheres e homens carrejões, pela manhã, caminhavam pelas ruas com cestos e sacos à cabeça com fruta comprada no mercado Ferreira Borges; mercearias dos armazens da Rua de São João e do depósito das mercadorias chegadas à estação de São Bento, junto à rua da Madeira.


A rua da Madeira, uma ladeira que terminava junto às escadas de granito que dávam para a Praça da Batalha e onde no principio estava a Adega do Quim, outras tascas e um café, que já me não lembro do nome, pegado aos “mijadoiros” no principio e debaixo do passeio da rua de Santo António.


O “tasqueiro” Quim, o simpático, proprietário da mais afamada “tasca” tripeira tinha-a sempre à cunha, onde sem conta vendia e eram bebidos “neguinhos” de tinto e iscas de bacalhau a três e cinco tostões.


Carros de mão com timão terminado em cruz onde dois “marçanos”, vestidos de batas de riscado barato, frenéticanente vergados para frente e de rosto corado lá ía puxando o veículo de duas rodas, com o eixo tranversal, ao meio do tabuleiro e para vencerem as subidas dos Clérigos, Carmelitas e Santo António puxando, enviesadamente, de uma margem à outra para chegar ao cimo destas artéria íngremes.



Ao lado esquerdo da Ruas das Carmelitas estava o Mercado do Anjo (nais tarde substituído pelo do Bom Sucesso), onde os residentes da baixa do Porto, todas se abasteciam de carne, peixe, galinhas frutas e hortalicas vindas das hortas de Ramalde, da Areosa, de Ermezinde e de Gondomar em carros puxados por bois ou cavalos.


O carvão o petróleo e a carqueja, combustíveis da época, indispensáveis, para alimentar os fogões de ferro fundido era comprados nas lojas dos carvoeiros da travessa dos Pelames nas do Bairro da Sé e nas de São Nicolau.


A Praça da Cordoaria junto à universidade com um jardim arborizado e junto ao lago, com cisnes e peixes vermelhos lá estava a Árvore da Forca que todos conheciam, mas que já não assustava ninguém ou o receio das almas que por alí andavam a penar junto ao largo toro.


No largo ao cimo da Franscisco Nery e ao lado a dos Caldeideireiros os propangadistas preparavam-se, pela manhã, começar seu novo dia.


Um caixote de madeira, pintada e colocado em cima da calçada o homem vendedor da “Banha Santa de Jiboia” ia dando voltas e reviravoltas junto a ela e berrava: “meus senhores, minhas senhoras e meus meninos a jiboia vai sair!”


Réptil que nunca aparecia e apenas, ali, um macaquito, amarrado com uma corrente; enfezado e de olhos tristonhos chamado “chiquinho” que humildemente descascava dois tostões de amendoins comprados por algum simpazitante, do primata, na mercearia da esquina e espectador que decerto iria comprar a “mezinha”, do propagandista, para que se atenuasse o reumático que lhe seguia nas “cruzes” e, mais o atormentava nas manhãs frias e de nevoeiro do Porto.


Ao lado direito e no seguimento da rua da Taipas lá estava a Cadeia da Relação, com os rostos dos presos a olharem a Cordoria através das grades e onde o “feio”, “bexigoso” e irresistível às belezas femininas do Porto da, época, Camilo de Castelo Branco e Ana Plácido foram ilustres hóspedes, por um ano e dezasseis dias, pelo facto de se terem amado e o marido da Ana, Manuel Pinheiro, mais seu pai que cônjuge e um sólido comerciante da praça não lhe agradou, mesmo em nada a infidelidade da sua bela esposa.


E caminhando em direcção à Ribeira desce-se a rua da Taipas até à Praça de São João Novo.



Rua pacata onde peixeiras trajadas de regateiras, subindo a calçada de canastras à cabeça em pregões estridentes:


“Xixarro bibinho, xirrarro bibinho! Bibinho da costa!


No passeio passa apressado e de cesta pendurada no braço, a figura mais popular da baixa tripeira vai o “Carlinhos da Sé”, chacotedo diversas vezes nas revistas do teatro de Sá da Bandeira, pela sua forma dos gestos amaricados do pobre homem, a caminho das “Casas de Tia” para os lados dos Caldeireiros mostrar a mercadoria e vender às raparigas que ali governavam a vida nas casas de “porta aberta”.


Num salto e porque a descer todos os santos ajudam ao fim da Rua de Belmonte está a Mouzinho da Silveira que cruzando esta se está na de São João e ao fundo o largo da Ribeira.


A São João dos armazenitas de mercearias e de carros de bois estacionados na berma da rua a carregarem caixas de sabão, sacos de arroz e de açucar e quintais de bacalhau miúdo e graúdo para as mercerias do Porto e arrabaldes.


A Ribeira típica e com caras conhecidas e estabelecidas nas arcada do Muro dos Bacalhoeiros com lojas de venda de secos e molhados onde se incluiam as postas de bacalhau a dessalgar na água, o polvo seco e fresco, sardinhas, caras e línguas de bacalhau salgadas, em barricas, cebolas, alhos e azeitonas em salmoura expostas em grandes alguidares de barro.


Por ali cheirava a sardinha, carapau e sável frito e a iscas de bacalhau.


Velas a ardiam no altar “das Alminhas da Ponte”, em memória, pela morte dos milhares de tripeiros que fugiam, em pânico da “sagacidade” das tropas napoleónicas; a ponta de baioneta, comandadas pelo Marechal Soult no fatítico 29 de Março de 1809 e que a Ponte das Barcas não suportou o peso das pessoas.



O “Duque”, uma presença diária do barqueiro e a figura mais conhecida da Ribeira, era o tripeiro “castiço” mais respeitado da zona ribeirinha por ser recuperador de corpos das vitímas, varrendo o fundo do rio com a fateixa, que enfastiadas do viver e, algumas, acossados pelos credores ou de raparigas, desilusionadas, por terem sido enganadas e desonradas pelos namorados se atiravam ao Douro do tabuleiro de cima da ponte de Dom Luis para por termo à vida terrena e encobrir a vergonha.


Catraiada, de rosto sujo e lambusado; descalça e calções de fundilhos rotos e que a cada instante puxavam a alça que os segurava que teimava em sair-lhe do ombro.


Despreocupadamente e foras de lei, procuravam surripiar umas castanhas dos sacos expostos nas lojas das arcadas que davam para o Barredo ou uma peça de fruta dos cestos desembarcados no ancoradoiro, plano inclinado, dos barcos vindos de Avintes ou Crestuma.


Apareceu saindo da viela; o caminho do “Barredo”, o Padre Américo, embrulhado numa capa preta e seguido por miúdos.


O fundador da Casa do Gaiato, em Paço de Sousa, era uma visita constante aquele lugar escuro e de muita miséria que por ali existia, consolando doentes com palavras e lhes ia deixando uma dávida; para que a dor lhes fosse menor..


Atracado, um batelão, junto ao paredão da margem do rio Douro homens de trouxa pelas costas, caminhando por cima de tábuas que lhes servia de passadeira transportavam cestos de vime, cogulados, de carvão para uma uma camioneta, parada na rua, cujo o combustível mineral seguia para as fábricas para alimentar as caldeiras a vapor dessas unidades fabris.


Junto ao patamar que suporta o arco da Ponte Dom Luis dois artistas (havia muitos por toda a cidade), sentados junto à prancha lá iam com o pincel fixando o que seus olhos viam no movimento fluvial do rio Douro; a capela do Senhor do Além e a encosta da serra do Pilar.


Subia-se as escadas do Codeçal, por baixo do tabuleiro superior da ponte até ao largo do Aljube.



Um polícia de bigode vindo da travessa da rua Chão, mais conhecida pela viela da Cadeia, com ele, presa, vinha uma pobre vendedeira de cesto, no braço, dentro meia dúzia de pentes, outros tantos travessões para o cabelo; uns mini sabonetes “Patti”; uns espelhos de bolso e uns atacadores para os sapatos.


Subia-se a avenida Saraiva de Carvalho e temos ao lado direito as muralhas Fernandinas e, num espaço arrelvado a estátua do Porto.


Um pouco mais acima e direcção à Praça da Batalha fica a Rua do Sol e, depois a escola comercial Oliveira Martins.


O viveiro onde se formavam guarda-livros nos cursos diurnos e nocturnos.


Que depois da graduação os alunos se empregavam em algum escritório de firma do Porto ou seguiam para o Instituto Comercial na rua de Entreparedes.


A Praça da Batalha foi o meu paradeiro por uns três anos.


Das minhas “caganças”, também, para minimizar a humilhação que dentro mim existia pelo facto de ser empregado de queijaria e não estudante.


Na quinta feira, o dia da minha folga, bem arranjado e de cabelo abrilhantado e de risca ao lado, durante o dia, caminhava pela Praça da Batalha e rua de Entreparedes com um magote de livros debaixo do braço a armar-me em estudante da escola comercial Oliveira Martins da rua do Sol.


Já espigado e com uns 18 anos era caixeiro de balcão da “Queijaria Gaspar” na Travessa do Teatro de São João nº 14. Mesmo ao lado da ginginha das “Portas de Santo Antão” e pela frente tinha a Ordem do Terço.


A Praça da Batalha tinha outras caracteristicas diferentes da Praça da Liberdade.


O local da parte de manhã era calma apenas disturbada pelos barulho do rodar dos “amarelos” 13, 14 para Santo Ovídio e Devezas e outros para Campanhã.


Depois das onze da manhã a Praça e o quarteirão orlado pela travessa de São João e rua de Cimo de Vila principiavam por ali a movimentarem-se as pessoas.


O cheiro a rojões fritos e o caldo verde dos restaurantes Marialva, do Meireles, (bigodes a quém, pelo tão farfalhalhudo o apelidaram de vassoreiro), do Louro Gordo e o proprietário da afamada casa dos presuntos, pendurados no tecto e do verdinho tinto e branco a sair, da torneira de bucho espumoso.


Por volta do meia dia surgiam as habituais figuras do quotidiano no passeio do lado do Talho da Batalha, Tabacaria Soares, Tabacaria Lacerda, confeitaria e o hotel da Batalha.


Eram os industriais de camionagem com escritórios na Alexandre Herculano, que impecávelmente, todos os dias, vestiam um fato diferente e, alguns com um cravo ao peito. Tripeiros que tinham vaidade e rigôr no vestir.


Depois do almoço partiam e, voltavam, pelas cinco da tarde para a visita às “capelinhas” da Cimo de Vila.



Uma figura típica, na Batalha, era António Barbosa, de uns 70 anos, Director da Companhia Resineira, da esquina da Santo António e Santa Catarina, que nunca dispensava um cravo vermelho na lapela do casaco.


Inimigo figadal de António de Oliveira Salazar e, que nunca se obstinha de dizer mal dele aos próprios agentes da PIDE, que andavam por ali para observavam o andamento dos oponentes ao ditador, na Batalha.


Bebia uns copos, com os esbirros na Cimo de Vila.


António Barbosa e era um homem de voz forte, generoso e “sem papas na língua” como o diria a Beatriz Costa nas criticas, mordazes, ao Governo de Salazar que as não descurava de proferir fosse no lugar que estivesse.


Que se saiba o Barbosa nunca foi chamado à PIDE da rua do Heroismo.


A Praça da Batalha como sala de visita tinha o Teatro de São João. Todos os anos, pelo inverno, havia a temporada de teatro da companhia da “Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro”.


Esta magnifica sala de espectáculos era a mais elegante do Porto quer em grandeza como no seu estilo arquitectónico. Durante a minha vivência na travessa do mesmo nome do teatro, tive sempre o privilégio de possuir o estatuto da obtenção de “borlas”, sem bilhete, para a geral no topo do teatro onde até se via o filme melhor do que da plateia ou do balcão.


A temporada do teatro, no inverno, eram os eventos que a população de alta e média classes apreciavam.


A moda mais apreciada, entre as senhoras era o caso de peles e um chapéu na cabeça. Os maridos, embora nem todos, usavam o laço no pescoço.


Era, assim o átrio do São João, antes do começo das peças de teatro, um espaço de elegante.



Durante três anos fiz parte do elenco teatral!


Fui actor/figurante em várias peças ao preço de dez escudos por sessão.


Para mim foi uma experiência emotiva ter estado no palco do São João com a fina flor, da época, dos melhores actores teatrais de Portugal. Entre os que me lembro: Palmira Bastos, Amélia e Mariana Rey Colaço (mãe e filha), Carmem Dolores, Meniche Lopes (por quém me apaixonei silenciosamnete !) Robles Monteiro, Rogério Paulo, Raúl de Carvalho, Luis Filipe, Ribeirinho (como encenador) João Perry (um miúdo na altura) e outros mais, cujos nomes se apagaram, na minha memória.


As peças exibidas no São João eram as clássicas e, onde, entre várias, foram representadas a “Terceira Palavra”, o “Prémio Nobel” e a “Inês de Portugal” e, no contexto dos actores fui inserido, claro está, como figurante.


Na peça “O Prémio Nobel” o meu papel era o de um polícia no tribunal onde seria julgado o Nobel em Medicina (Raul de Carvalho) e era acusado, pela inconsolável esposa por não lhe ter salvado o marido na operação que lhe efectuara.


Foi-me entregue a farda policial e uns sapatos pretos. O uniforme era do tipo usado no século XIX que não me assentavam, por falta de pano e cabedal, a farda no corpo e os sapatos nos pés.


Fiquei um polícia desajeitado e motivo de “chacota” entre os meus colegas e dos homens que puxavam as cordas dos cenários do palco.


Escárnio, apenas no primeiro dia, porque na outra representação já o Raúl alfaiate da rua de Cimo de Vila, que me fazia um fato por ano e lho pagava aos “soluços”, já lhe tinha dado um jeito..


Durante essa injusta “chacoteada”, passou junto, ao grupo de actores “mudos” Robles Monteiro com o seu inseparável “caquinho” num olho e ao aperceber-se do escárnio parou e de voz forte que o caracterizava disse:


“ Um figurante é um actor...... só não fala!


Respeito meus senhores pelo actor!


A rua Alexandre Herculano que parte da Batalha em direcção às Fontainhas antes de atravessar a Douque de Loulé, tinhas o Parque das Camélias onde mesmo sem flores havia um campo de “basketball” do clube Vasco da Gama que para além da prática deste desporto eram organizados torneios de box e luta livre americana onde os “tripeiros” se deliciavam a ver este género de espectáculos.


Luta que não era combinada entre os lutadores mas porrada, de criar bicho, a sério.



Que me lembre de nomes dos lutadores havia o Dom Pipas, o Barrigana (irmão do famoso Frederico Barrigana guarda redes do Porto e depois do Sagueiros) e o “Tigre de Alfara”.


Durante os torneios de “pancadaria” o parque das Camélias ficava completamente cheio. A assistência, generosa, por norma não aceitava as incorreções dentro das regras do jogo. E, para estes, pesarosos quando viam o Dom Pipas (homem baixo) a “enfardar” como um bombo de festa que saltava e levantava-se no ring como um boneco teimoso.


Depois havia o clássico Barrigana de golpes correctos e o mau e o feio do ring era o “Tigre de Alfara”.


Lutador de maus fígados e crueis instintos, dava urros no ringue e mordia a torta e a direito, sem escolher partes, o corpo do colega de luta.


O plateia chamava-lhe nomes feios e gritava: “deixa lá o rapaz ó “insurra”!”


Numa luta o “Tigre de Alfara” não gostou dos insultos e, salta do ringue para fora e, por mais incrível que pareça uma boa centena de tripeiros deitam a fugir pela túnel, de saida debaixo da “Garagem da Batalha”, em direcção à Herculano.


Mais tarde o Parque das Camélias abriu uma sala de cinema, com preços de vinte cinco tostões a geral e a três e quinhentos a plateia.


Na parte de tarde a “canalha” tripeira juntava-se à entrada para ir ver os filmes do “Bucha e Estica”, do “Tarzan” e as “cóboiadas” e as fitas do “espadachim” Errol Flyn” produzidas em Holyood.


Os filmes começam a tornar-se populares e, voltam uma droga, entre a juventude tripeira. Um dos atingidos, pelo vício, fui eu e que durante a semana estava lá caído pelo menos em duas matinés.


O desenvolvimento do filme era depois tratado em conversas de miudagem na rua e nos bairros onde viviam. A balas nunca mais terminavam nos tambores dos revolvers dos actores e o principal chamado, na giria, o “artista” que como era óbvio o bom da fita que matava índios a murro e a tiro e jamais caía do cavalo ou morria.


Quando um catraio não tinha um tostão, sequer, para a sessão, lá conseguia, dos outros as cinco corôas (uma corôa cinco tostões) para o bilhete.



Depois de atravessar a Duque de Loulé, um pouco mais abaixo e ao lado esquerdo estava o Bairro Herculano.


Nas festas Samjoaninas havia festa rija no interior do bairro durante várias noite.


Um núcleo habitado por gente, operária de média classes e onde eu confratenizava essas noites, inesqueciveis, festivas e, preso pelo “beicinho” por uma tripeirinha, engraçada, que nunca me ligou “patavina”.


Era assim mais um desaire, amoroso, dentro das minhas conquistas de Dom Juan que a maior parte das mesmas redondavam e autênticos fracassos.


Ao fundo da Herculano lá estava as Fontainhas, com a miudagem a jogar a bola de trapos a imitarem o Barrigana, o Araújo, o Carvalho, o Hernâni e outras estrelas do Futebol Clube do Porto. Do largo partia a Calçada da Corticeira até à margem do Douro.


Ao lado o bairro e na encosta, casitas onde se acomodavam centenas de pessoas.


Calçada que caminhei, sei lá quantas vezes, para ir jogar a bola para o planalto da Serra do Pilar ou, poucas vezes, tomar banho para a praia do “Borras” junto à capela do Senhor Além, ou a do Aurélio um pouco mais a montante do Douro.


A Serra do Pilar sem casas e de uma encosta onde crescia a erva e outros arbustos.


Debaixo do Mosteiro da Serra do Pilar havia a famosa, cavada no saibro, a “Cova da Onça”, o sitio onde uma mulher cega de um olho, lá ia governando a vida, fazendo amor com homens e desvirginando rapazotes com cio a sair-lhes pelos poros da pele a troco de vinte e cinco tostões..


Depois, e pela certa, doença venérea transmitida e que o anjo da guarda, o Senhor Barros da farmácia da rua do Loureiro, com uns milhões de unidades de penicilina, injectava, nas nádegas dos libertinos e assim os curava.



Fontainhas, Fontainhas do meu querido São João rapioqueiro aonde um mês antes, da noite do alho porro, dos vasos de manjericos e molhos de verde cidreira, a “tripeirada” era naquele largo que nas noite de sábado e tardes de domingo se reuniam.


Carroceis, barracas de farturas de sardinha assada e vinho “berdinho” e de rifas de panelas de alumínio e outras de quinquelharias enchiam o terreiro.


Sons do roncar da “Mula da Cooperativa” na voz do cantor Max, da ilha da Madeira, era o disco mais ouvido.


Depois lá estavam as canções melodiosas e amorosas do Tony de Matos, do Francisco José; os fados da Amália, do Fernando Farinha e do Alberto Ribeiro.


Enquanto que em todas as entradas para as ilhas a miudagem com umas imagens de barro, pintadas, do Santo António e do São João pedinchavam às pessoas: “ó tioxinho deiam-me um tostãoxinho para o São Joãoxinho”.


Junto à parede das casas do passeio, uma quermessezita decorada com ramos de árvores, com uma data de bonecos pousados na areia e um que nunca poderia ali faltar era um “Zé Povinho” a defecar em cima de um penico.


Tostões que depois contados seriam para comprar rebuçados na merceria mais acima.


Caminhando pela rua das Fontainhas, acima, chegava-se à avenida Rodrigues de Freitas e a um salto de pardal o Jardim de São Lázaro.


O jardim ao domingo era destinado ao descanso e passeio das criadas, internas, de servir, muito bem arranjadinhas e limpinhas; de aventais brancos orlados de rendas.



A “magalada”, rasa, de bivaque na cabeça a encobrir parte da “rapada” que apanhou ao assentar praça que o identificava como recruta, dos quarteis do Porto e da Serra do Pilar andavam por ali a “arrastar a asa” a essas crédulas jovens provincianas vindas do norte e do minho.


A rua Dom João IV e a dois passos a meio da rua de Santo Ildefonso. Aspirava-se na rua o cheiro do café e chicória, fresquinho, moido na altura, pelas máquinas barulhentas no interior da mercearia.


O Campo de 24 de Agosto, em forma de ferradura, com árvores, verdura e um lago, termina ali a Santo Ildefonso e começa a Rua do Bomfim que logo da entrada se avista a Igreja do mesmo nome e com o cemitério ao seu lado direito.


O campo de repouso eterno do Bonfim foi palco de um caso curioso que assisti e me juntei ao poviléu, em frente ao portão, no ano 1948, quando algo de bizarro e insólito se aventava ter acontecido na noite anterior por via de uma notícia publicado no Jornal de Notícias.


Paras os lados de Miragaia havia a conhecida sala de baile de “Monchique” e, um moço tripeiro resolveu ir, ali, passar umas horas e dar uns passos de dança.


Na sala encontrou uma moça, solitária e lindamente vestida de tecido de crepe.


Estava só.


Depois de alguma hesitação afoitou-se e convidou-a para dançar ao que a donzela aceitou.


Durante a dança o rapaz estranhava que as mãos da rapariga estivessem frias e, a qualquer palavrinha sedutora e delicada do moço , à bonita mocinha, ela não lhes respondia.


Pensou, então, o amoroso: “mãos frias coração quente e mudinha, certamente, por causa da sua timidez...”


Alta madrugada o baile fechou as portas.


Saiu o par para a rua.


Condoído o rapaz, da menina, por não ter um casaco para lhe cobrir, os crepes leves e a abrigar do nevoeiro da manhã colocou-lhe, delicadamente, a sua gabardine por cima dos ombros.


Caminharam pela rua Nova da Alfandega, subiram as ruas Mouzinho da Silveira, a 31 de Janeiro (Stº António), entraram na Praça da Batalha e seguiram a Stº Ildefonso e estão na rua do Bonfim.


O par, sempre, de mãos dadas e as da rapariga continuavam gélidas e sem balbuciar palavra.


Ao chegarem ao largo da igreja do Bonfin a rapariga dirigiu-se para o portão do cemitério, largou a mão do acompanhante; retirou a gabardine dos ombros e pisgou-se a correr para dentro do campo, sagrado, de repouso.



O tripeiro, aterrorizado, deitou a correr, batendo com os calcanhares no traseiro, pela Bonfim abaixo com os bofes a sairem-lhe pela boca.


Parou na Avenida dos Aliados e entrou na redacção do Jornal de Notícias para contar o infausto acontecimento que acabara de ter.


O Jornal de Notícias era o diário mais popular no Porto da minha infãncia, depois havia o Comércio do Porto, para os comerciantes e o Primeiro de Janeiro para as elites conservadoras e literárias.


O JN continuava a ser o dário do povo, da procura e oferta de emprego e muito desenvolvido nos casos do dia que quotidianamente se passavam. Inclusivamente o desenvolvimento dos julgamentos do Tribunal de Polícia pelo juiz, humanista, António Quintela que sentenciava os arguídos, caso por caso, conforme as condições de vida de cada um.


Normalmente acusações que recaiam sobre um vendedor de rua ou uma varina que fez banca na via pública.


Pela manhã e dado à notícia do caso do rapaz e da morta viva inflamou de curiosidade os tripeiros e, em romaria encaminham-se para o cemitério do Bonfim.


As opiniões, entre o povo, dividiam-se mas perfeitamente crédulo daquilo que tinha acontecido.


Uma velhota mexida e de pronúncia “esganiçada” caminhava entre a boa centena de pessoas em frente ao portão e ía dizendo: a campa da rapariga é pegada ao jazigo da Santinha Bernardina!



O povo vai entrando e basculha sepultura po sepulturas e nenhuma se encontrava violada.


As vizinhas da Santa Bernardina estavam intactas.


Nos meus verdes anos olhava toda aquela cena patética que de forma alguma a encaixava no meu cérebro.


A gente dentro do cemitério aventava hipóteses de credibilidade que tomavam o caso como sendo real.


Mas entre todo aquele paganismo, caricato e profano levanta-se a voz de uma “tripeira” de pelos nas ventas e em termos de discurso político, em praça pública, em altos berros: “ vocês não vêem?


Vocês são, mas é uns “morcões” e umas “morconas” o que eles pretendem é acabar com o “Baile de Monchique”!


Os tripeiros dispersam sem um sequer levantar a voz.


A romaria continuou pelo dia adiante sem a dimensão e ajuntamente que tivera naquela manhã.


O campo de jogos do Futebol Clube do Porto era o da Constituição, pelado e muito reduzido.


O primeiro encontro de futebol que assisti foi o Futebol Clube do Porto e o Leça cujas pessoas se acomodavam nas bancadas e no peão como sardinha acamada em canastra


O estádio dos Dragões, com retombante entusiasmo foi inaugurado em 28 de Maio de 1952.


Quando haviam jogos de importância e, porque o Estádio da Constituição não comportava todos os adeptos e simpatizantes passavam para o Campo do Lima, já arrelvado do Académico do Porto.


Do lado oposto do Lima havia o campo do Luso, pelado, de portões abertos para a miudagem jogar com bola de trapos ou encontros entre solteiros e casados.


No Lima com pista de atletismo e outra de cimento, adjacente, com as curvas embauladas para provas de ciclismo e de automóveis o F.C. do Porto tivera ali tardes de glórias e onde vencera o Arsenal de Londres.


A Praça do Marquês era um local bastante aprazível onde, todos os dias, havia gente idosa sentada nos bancos do jardim; à sombras das árvores e, ao domingo a habitual afluência de gente de todas as idade e, claro, também as criadas de servir namoricando com os “magalas”, como acontecia em todos, os outros, jardins do Porto.



A entrada da Bomjardim estava o Asilo do Terço, com um espaço ao ar livre, para durante o verão a “malta” ir assistir às sessões de cinema por vinte e cincos tostões onde a ementa forte eram as “coboiadas” texanas; os “espadachins” as aventuras do Tarzan com a Jenny e a macaca Cheta.


Junto às bilheteiras os catraios e os já “piçudos”, tesos, na “chulice” a pedir uma “corôa” aos que compravam bilhete para adquirir os seus.


A generosidade do tripeiro não tinha medida.


Havia, sempre, uma corôa (cinco tostões) escondida, entre o cotão do bolso das calças para oferecer ao colega, tripeiro, do lado para a sessão de cinema ou na tasca, da esquina, afagar a alma bebendo um “néguinhos” de três ou um copo de meio quartilho de sete tostões.


Fim da 1ª parte


Jose Martins/Agosto 2003

DIA DE SÃO JOÃO: LEMBRAR O PORTO DA MINHA INFÂNCIA

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PORTO TRIPEIRO

(Memórias da Minha Infância)

2ª Parte

A Praça do Marquês com jardim, arborizado, acolhedor e com a primeira biblioteca instalada, num jardim do Porto era o ponto de encontro de diversas ruas: Bonjardim, Costa Cabral e Constituição.

Os “amarelos” vindos da Praça da Liberdade lá seguiam, arrastando-se em cima carris campainhando pelo calcar, alternado, da bota dos guarda-freios que subiam e desciam a rua de Santa Catarina em direção à Areosa e Rio Tinto.

Na rua da Constituição circulava o 20 que contornava a cidade desde a Praça da Liberdade, subia a Santo António, passava a estreita e tortuosa rua de Entre-Paredes, seguia ao lado do jardim de São Lázaro; junto à Biblioteca, tomava a esquerda e subia a inclinada D. João IV. Junto ao Estádio do Lima entrava na Constituição até ao Monte Pedral e curvava à esquerda para a rua de Serpa Pinto, Rotunda da Boavista e, já não me lembro do nome das outras ruas até regressar à Praça da Liberdade.

Além do Asilo do Terço, estava a elegante igreja da Nossa Senhora da Conceição que ainda se conserva na minha memória a construção.

Na quina da Costa Cabral e Constituição estabelecida a confeitaria Estoril do Sr. Silva, que me era familiar dado que ali ía entregar tabuleiros de queijo à cabeça posados numa “sogra” enrolada em tecido de serapilheira para aliviar a carga de uma arroba da especialidade amanteigada , desde a Rua do Loureiro, a pé, com a senhora Constância de Mafamude.

Entrava-se na Estoril de caixeiros engravatados, limpinhos e de manguitos desde o pulso ao cotovelo para que não sujassem as mangas da camisa ao roçaram no balcão de tampa de vidro.

Simpáticos no atendimento dos clientes; prazenteiros e não menos matreiros ao servir as vizinhas “sopeiras”. (pejorativo relacionado, com as empregadas domésticas, provincianas, que serviam como internas, as classes ricas e médias).

Circulava no ar o cheiro a pasteis jesuitas, de nata, caramujos, bolos de arroz, almendrados; o característico das meias de leite e dos “galões” com torradas.

O queijo, tirado do tabuleiro, pesado na balança de balcão “Avery”, conferido o peso desde os quilos até às gramas, designado na factura e, depois, trazer de volta, devolvido o recesso que não tinha sido vendido.

Era assim na época em que os queijeiros do Porto, na década quarenta, comercializavam a especialidade da Serra da Estrela, à consignação e ao preço de 20,25 e 30 escudos o quilo.

Queijos vendidos inteiros, aos meios, quartos de quilo e até às cinco coroas (vinte e cinco tostões).

O Café Pereira era conhecido pelas mesas de bilhar, onde a juventude das redondezas jogavam o livre por duas coroas à hora.

O Marquês era uma pedaço, airoso, do Grande Porto onde pelas linhas arquitectónicas das casas, com jardins, nos saltava à vista que estas tinham sido construídas por gente mais ou menos abastada.

O Tamariz na rua do Lindo Vale, “Night Club”, propriedade de um tal Galvão e, também, do “Paladium” na Santa Catarina, onde uns infieis às honras assumidas na igreja dispendiam, pela noite adiante, em companhia de umas raparigas pagando-lhes, umas garrafas de vinho espumante da Bairrada e que estas, depois de tantas promessas, fisgavam-se pela “porta do cavalo” onde as esperava o “sê home”, o Toni, azeiteiro, popular na Viela do Anjo, na Bainharia e na Reboleira.

Um pouco abaixo do Marquês, em direcção à rua Antero Quental, encafuado entre moradias e quintais estava o Campo da Constituição do Futebol Clube do Porto, pelado, e com exíguas bancadas construídas de tábuas de pinho.

Um campo de piso de cimento que servia para a prática de três modalidades desportivas: basquetebol, futebol de salão e o andebol de sete. Famoso no andebol era o Pintado. Aos sábados pela noite e aos domingos de manhã a “malta” seguia para ali para assistir a jogos ou treinos.

O primeiro desafio de futebol de grande importância, foi o Porto e o Leça.

Entrei de “borla” debaixo do sobretudo de um caridoso adepto do F.C.P. ludibriando os porteiros.

O Estádio do Lima, relvado, com pista de cinza para a prática do atletismo e, outra de concreto, paralela, de curvas emboladas, para corridas ou chegada de etapas regionais de ciclismo. Servia, também, para umas exibições de dar nas vistas de uns tripeiros privilegiados e possuidores de automóveis de parca cilindrada de ali fazerem o gosto ao pé e o regalo dos que observavam essas “piroetas” dos Hilmans, Peugeots e Wolksavagens.

Os grandes encontros futebolistas, internacionais (raros) cujo o F.C. do Porto seria o adversário e dada ao espaço minúsculo do Campo da Constituição o Estádio do Lima era cedido pelo Académico.

Na minha infância disputaram-se, nesse relvado, irregular, com algumas “carecas” desniveladas pelo meio do espaço destinado à bola e aos jogadores, encontros com alguma notariedade entre o Porto e equipas estrangeiras e foi a 6 de Maio de 1948 que o Porto venceu o Arsenal de Londres, por 3 a 2 (a melhor equipa de futebol do mundo) cuja vitória, deixou ao rubro a população tripeira.

Depois do encontro houve festa rija pelo burgo e arredores e vendidos milhares de “neguinhos” (copinhos de vinho de três tostões) acompanhado, sardinhas,carapaus e iscas de bacalhau e boroa de Avintes.

Pelo Marquês e, longe estava a madrugada rangiam a estrutura dos carros de bois com a chiadeira aguda, compassada, da fricção do eixo que suportava as rodas.

Animais corpulentos de cabeças ornadas com cornos de mais de meio metro de comprimento, cada um, jungidos a cangas decorativas com motivos regionais, puxando a carga de hortaliças e nabos das hortas da circurvalação da Aerosa, Rio Tinto para o Mercado do Bolhão na Sá da Bandeira.

O Mercado do Bolhão, quadrangular, com alas de lojas no rés-do-chão e um primeiro andar composto de quatro angulos nos talhos onde se viam pendurados bois inteiros.

No exterior que dava para a Sá da Bandeira, Formosa, Fernandes Tomaz e Alexandre Braga havia lojas de calçado. Junto à entrada, do mercado do lado da Fernandes Tomaz instalava-se a mercearia de Valdemar Mota, que foi estrela do F.C. do Porto, e colega de equipa do não menos famoso Artur de Sousa Pinga nos anos 1930/1940.

Conheci os dois. O Valdemar era me familiar porque várias vezes ali ia levar queijo da serra da Casa Arcozelo, da Rua do Loureiro à Casa Valdemar Mota.

O Pinga era um homem que passava longas horas sentado no Café da Brasileira, na quina da Sá da Bandeira e Bonjardim bem vestido e de cabelo, abrilhantinado, de risca ao meio e puxado para trás.

Velhas estrelas futebolísticas do F.C. do Porto

Era um homem baixo e os seus olhos denotavam alguma tristeza, talvez lembrando-se da glória havida há uma dúzia de anos e agora, talvez, vivesse com algumas dificuldades monetárias.

Valdemar Motar, depois de ter deixado a bola, firmou-se como um honrado comerciante de secos e molhados e, preparou assim o seu futuro. Era um homem alto, cabelo às ondas já meio grisalho; de poucas palavras e o estabelecimento de que era proprietário possuia uma clientela seleccionada.

Na Rua Formosa, en frente ao Bolhão, estabelecidas a Casa Vilares e a Confeitaria do Bolhão frequentadas pela gente abastada do Porto. Nas montras, expostas com bom gosto a doçaria e pastelaria de fabrico próprio cujo cheiro agradável atravessava a porta e chegava ao passeio e às narinas dos transeuntes.

Atravessando a Sá da Bandeira em direcção à Bonjardim temos a popular lojas de miudesas, tecidos e artigos de borracha a “Lã Maria”.

Estabelecimento que todo a população do Porto e arredores conhece.

Como devoção, na quadra das festividades do Sanjoaninas, numa das montras, já por anos, era armada uma castata, com figuras, em movimento onde além do S.João estão os diversos motivos da vida,quotidiana do Porto e dos concelhos limítrofes.

Na decoração não faltavam aquelas figuras, tipícas do dia a dia da cidade do Porto: os carros puxados bois; o aguadeiro; a figura Zé Povinho, imortalizada pelo Bordalo Pinheiro; as noras de retirar água dos poços circundada pelo piso circular que o boi ou a vaca “pachorrentemente” , através da força bruta, do poço, fazia trazer os baldes, amarradas a correntes, transbordando a água cristalina do fundo do poço até ao tabuleiro que ligado a um rego riscado no meio do milharal ou batatal.

Essa bênção da água fazia dos campos jardins verdes nos arrabaldes do Porto.

Magotes de pessoas, todos os dias, admiravam a montra decorada da “Lã Maria” e, tradicionalmente já nas orvalhadas da madrugada da noite do alho porro, manjerico e da cidreira antes de o tripeiro recompor as energias dispendidas durante a noite de folia, muitos destes, depois da tigela de caldo verde, com a tora de chouriço, nas barracas de comes e bebes das Fontainhas ou numa outra tasca encontrada no

caminho antes de se acomodar ainda passava pela Formosa e, já de olhos piscos olhava a montra da “Lã Maria”.

Do outro lado da rua estava uma filial da confeitaria Costa Moreira cuja a sede estava no Largo dos Poveiros.

Antes de continuarmos o roteiro, saboroso, do Porto Tripeiro e da minha infãncia, saltamos agora da Formosa e vamos recordar o que ainda se queda, bem vivo na minha memória as ruas de Santa Catarina, Passos Manuel e Santo António. A Santa Catarina (que já não vejo há 25 anos) era a rua “chique”, sem a menor dúvida do Porto.

Os carros e os eléctricos circulavam na rua e as pessoas nos passeios.

O Café Paládium, com porta rolante, na quina de Passos Manuel e no primeiro andar um “Night Clube” frequentado pela classe nobre do Porto e onde diziam, paravam por lá umas raparigas que alternavam com a clientela .

Á entrada e nas horas do almoço era o ponto de paragem, dos caixeiros da rua e chamados os “pipis-da-tabela”, muito encanadinhos, alguns com as camisas roçadas no colarinho de tantas vezes ter sido passadas a ferro, cabelo de risca ao meio e marrafado e, alguns, preferiam a popa muito bem armada e abrilhantinada.

Essa malta jovem, tripeira, durante o período das duas horas de descando para o almoço como entretenimento, quedam-se por ali a distribuir “piropos” às raparigas que em frente deles passavam.

“Piropos” com alguma pimenta e disfarçados como inocentes que esses conquistadores de “meia tigela” os disparavam em surdina:

- “que linda e formosa você é”!

As raparigas, passavam, algumas olhavam o chão para esconderam a frase pirosa que lhes tinha sido dirigida.

Outras, já assim não era, com picante na língua não gostavam, mesmo nada, das “piropadas” galanteadas.

Uma ocasião um “arranjadinho” ao passar uma “vampe”:

- quem me dera ter uma irmã bonita como você o é....

A rapariga caminha uma meia dúzia de passos; pára, volta para trás, e responde-lhe:

- ai queria, queria ter uma mana igual a mim?

- Olhe diga à sua mãe que passe por minha casa que o meu pai faz-lhe uma igual a mim...

- Piropos com troco.

Mas o “piropo” clássico nunca haja ouvido foi dirigido a uma moçoila de uns 20 anos que levava um molho de couves na mão:

- O rapaz pergunta-lhe:

- O que é isso que a menina leva na mão?

- Não sabe mesmo?

- Não sei.... vá diga-me bonitinha...

- São couves pesadas no toro e “leve no olho” ouviu?

Na rua Passos Manuel quando se sobe e ao lado direito, depois da Santa Catarina, está a Relojoaria Marcolino e o primeiro estabelecimento, do Porto, que mandou imprimir os calendários dos jogos do campeonato nacional que os ofereceia gratuitos.

A uns 50 metros esta a garagem do grupo empresarial chefiado por Sr. Rocha Brito.

Agente dos carros americanos de luxo..

Era corrente, passear pelas ruas da baixa tripeira Rocha Brito com um esplendoroso carro americando conhecido por “rabo de peixe”, com uma rosa vermelha na bolso do casaco e, acompanhado com uma linda jovem mulher onde até se surrurrava ter tido um caso com a trapezista, espanhola, “Pinito del Oro” cujas exibições, integrada num companhia de circo que actuou no Coliseu do Porto, redondou num total sucesso.

Rocha Brito gozava de enorme prestígio no Porto e, também, empresário das salas de espectáculos Sá da Bandeira e do Coliseu do Porto, este havia pouco sido construido.

O Teatro Sá da Bandeira, durante o ano exibiam-se companhias de revistas de Lisboa.

Revistas que por norma criticavam o Governo de António Salazar, chacotava as figuras públicas do Porto.

O preço dos bilhetes era acessível a todas as classe desde a plateia, ao balcão e os camarotes. Estes, a maior das vezes eram utilizados por grupos, por vezes até desconhecidos, para que a entrada ficasse mais em conta.

Um Porto, bem pequeno na altura, onde praticamente se conhecia todas as pessoas que viviam na baixa.

Passeavam pela baixa senhoras, elegantes, e de chapéu na cabeça e, comerciantes de bigodes farfalhudos.

Noites calmas de ruas e praças desertas.

As zaragatas ficavam pelo Bairro da Sé, no Largo da Cividade onde abertos toda a noite estavam os cafés “Royal” e o “Derby” frequentados por gente de mau porte e mulheres da vida, marcadas no rosto e nas pernas pelos sinais da sifilis, latente, que ainda não havia cura para a doença.

O romantismo no Porto era facto evidente.

Fossem comerciantes, empregados bancários, caixeiros ou as raparigas de balcão das lojas de moda da Santo António onde o estabelecimento que mais se distinguia era a Vadeca que vendia discos de 78 e 45 rotações e instrumentos de musicais.

Ora a revista no Porto era um importante acontecimento.

Vasco Santana, Costinha, António Silva, Beatriz Costa e ainda outros que não me ocorrem á memória actuarem nessa casa que foi uma sala de espectáculos cultural de critica, inteligentemente, interpretada e sofisticada pelos actores que por gestos e palavras o tripeiro entendia a quem os reparos eram dirigidos.

Evidentemente ao regime ditatorial; aos buracos e barracas que o Porto tinha.

O tripeiro assitia, hilariantemente, com bom agrado a essas exibições.

Ao outro dia as interpretaçãoes dos actores eram chacoteadas entre os amigos na mesa do café e em família .

A critica ajudava a desopilar fígado aos tripeiros.

Pelos cafés e restaurantes, finos, da baixa movimentavam-se os “pides”, na sombra do quartel general da rua do Heroismo ( a portas com o Cemitério do Prado Repouso), havia assim o cuidado dos tripeiros sussurrarem as cenas teatrais do Sá da Bandeira com esmero cuidado não fosse, porém, andar por ali um “bufo” (conhecidos, assim, por “ ovelhas ranhosas” os informadores da polícia política de Salazar) e, por uns dias ficasse a “pão e laranjas” na Heroismo e heroicamente aguentar umas chicotadas de cavalo marinho no costelado; registado o seu nome no livro do deve e haver, da PIDE como simpatizante da política, comunista, de Lenine da “Cortina de Ferro”.

Famosa na altura foi a revista os “Parolos de Santa Comba” , cuja esta, como era óbvio, era dirigida a Salazar.

Surgiam no palco actores vestidos, de parolos, de colete e calça de surrubeco e barrete, comprido, de pera na ponta e cantava: “.....nós vimos de Santa de Comba ó rebim-bimbim ó rebim-bimbão nós a todos tiramos e todos no-lo dão.....” A figura principal era o grande actor, humorístico, Costinha. Homem atarracada e desde que entrasse em cena o público ria-se a bandeiras despregadas.

As instalações da Estação da Trindade era um barracão velho na altura. Assim se conservou por mais uns anos bons. Nos “Parolos de Santa Comba” havia uma cena da peça onde era encenado o degradado barracão.

O Presidente da Câmara, na ocasião, era um tal Luis Pina. A figura do Pina está na cena bem representada e o seu interlocutor era nem mais nem menos que o actor Costinha. Este faz-lhe imensas perguntas a que o Pina lá lhe ia respondendo conforme pudia e sabia e o Costinha: “Sr. Pina aqui não opina nada, nada...” Neste

instante uma bomba estoirava no barracão, de papel, desfazendo-o e provocando enormes gargalhadas entre os espectadores.

Um Porto ainda destelevisado com rádios, “Telefunken” e “Philips” de goelas abertas a transmitirem os fados da Amália Rodrigues, da Hermínia Silva, do Afredo Marceneiro, Carlos Ramos e outros faditas de simpatia, dos tímpanos dos tripeiros, da época; os folhetins do “Zéquinha e da Lélé” e os “Companheiros da Alegria”.

Aos Domingos o “povoléu” esperava e para desopilar o fígado pela “Voz dos Ridículos” transmitida pela “Ideal Rádio” da rua Alferes Malheiro.

Não havia “tasca” no Porto que não tivesse um rádio pendurado na parede e que durante as horas não estivesse sintonizado mais com a Ideal Rádio do que com a “Renascença” e raramente com a Emissora Nacional que transmitia música sinfónia e noticiário político, cuja para esta o tripeiro se estava nas tintas.

E, que já que escrevi, atrás a palavra política o tripeiro nunca foi lá grande entendedor na matéria mas quando a política estava na rua lá estava ele, na barafunda a fazendo monte e a dar o seu apoio e ajudar às “barafustadelas” dos políticos a sério.

E nestas os “bófias” na linha recuada do ajuntamente de cassetete pronto para entrar em acção a todo o momento.

Os “tripeirotes” até lhes dava gozo o “sô polícia” fazer os cem metros, sem barreiras, em correria atrás dessa maldita irreverente catraiada com uma mão a segurar o “bastão”, maleável para não quebrar ossos e outra o boné não fosse por aí este saltar com a trepidação da correria nos paralelepídes, desnivelados, da rua.

Política nunca foi o forte da gente humilde do Porto. A população deste burgo é de raizes operárias e das “terras de lá de xima” e arribaram os seus ancestores quando se deu o começo do desenvolvimento industrial do Porto.

Entretanto uma grande parte de mão de obra para abastecer as necessidades, laborais das fábricas do Porto chegam dos concelhos confinantes:

<>. ( Texto extraído “ Habitação Popular na Cidade Oitocentista – As Ilhas do Porto” de Manuel C. Teixeira – Fundação Calouste Gulbenkian – Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, pag. 104 e de autoria “Citado em Armando Castro, ob.cit., p.91”

O burgo não está preparado para habitabilidade das gentes chegadas das províncias e são, então, construídas numerosas ilhas nos quintais do primeiro e segundo bairros: Bonfim, Campanhã, Paranhos, Stº Ildefonso,Sé, Cedofeita, Foz do Douro, Lordelo do Ouro, Massarelos, Miragaia, S. Nicolau. Vitória, Aldoar, Nevogilde e Ramalde. A população de todas as freguesias cifrava-se: 1864 - 86.761; 1878 - 105.838; 1890 -138.860 e 1900-167.955 milhares de almas. Em 36 anos a população, tripeira, dobrou quase o dobro.

Curioso é que em Aldoar, Nevogilde e Ramalde de 1864 a 1890 não existia população significativa qque merecesse censo dado que essas zonas eram rurais ou melhor as quintas dos arrabaldes do Porto.

Essas quintas e quintais adjacentes às moradorias ainda por Ramalde havia, na década de 50 quando por uns dois anos, fui motorista, da Cooperativa de Ramalde, no Largo de Pereiró.

A Cooperativa modernizou o sistema de entregas aos associados, adquirindo um furgão “Wolksvagen”, substituindo o cavalo e a carroça que tinha como carroceiro “o ti Manel” da Senhora da Hora; já entrado na idade e analfabeto não poderia tirar a carta de condução.

Por concurso fui então admitido, como motorista, com um salário de um conto de reis por mês. Mudei com isto a profissão de caixeiro da Confeitaria Serrano, gerida pelo sócio e meu primo, de sangue, Joaquim Daniel “o Lopinhos”, mais velho que eu uns 15 ou mais anos. O meu primo “Lopinhos” era um pregador de moral e as nossas relações estavam muito além, daquelas que deveriam ser pelos laços sanguínios que nos prendiam.

Antes da minha saída da Serrano, a caixa registadora do balcão andava a ser “crestada”, por um empregado de mais de uma dezena de anos de casa e por uma rapariga dos lados de Ermezinde.

As dúvidas do meu primo Lopinhos, em cima do crestador da caixa registadora era eu!

Embora nunca me o tenha atirado à cara eu sabia que estava debaixo de sua suspeição. Pouco depois de eu ter saído da Serrano ele viria a descobrir os que davam “murros” na registadora.

Com isto fui e humilhado fui pregar pregar para Ramalde.

Mais tarde conheci a Guida, uma jovem bonita costureira, morgada e passado seis meses viriamos a casar na Igreja Velha de Ramalde.

União matrimonial que não chegou a bom porto cuja a falta foi minha e dou a mão à palmatória.

A imagem da Guida nunca, até hoje, se apartou de mim e por ela tenho uma enorme admiração, como mulher de princípios morais e de vida.

Ramalde, era um meio absolutamente rural nos anos sessenta. Havia por lá casas de lavradores, seculares, de largos pátios , lojas de gado, alfaias agrícolas e campos de cultivo de milho batatas e outros vegetais que seguiam para abastecer os mercados do Anjo, junto aos Clérigos (substituído pelo moderno do Bom Sucesso) mercado do Bolhão, rua Escura e, ainda para as típicas mercearias tripeiras espalhadas pela toda cidade.

Em 1900 e porque na zona da Boavista se instalam-se várias indústrias, uma com grande significado a fábrica dos ingleses, onde empregou milhares de pessoas e, que mais tarde viria a encerrar (não sabendo porquê), nos anos 1950/60 que deixou centenas de pessoas desempregadas e em dificuldades económicas que se valiam dos créditos da Cooperativa de Ramalde.

Depois instalava-se a Fábrica Veludo de papeis pintados e com estabelecimento de venda ao público na Sá da Bandeira junto ao teatro. Praticamente não havia, no Porto, palacete,casa propriedade da média classe que não tivesse forrado nas suas paredes interiores papel, decorativo, pintado.

As indústrias tripeiras, as com maior significado estendiam-se para os arrabaldes, embora as de pequeno porte continuavam a quedar-se no centro.

Temos a rua dos Caldeireiros onde naquele artéria inclinada se ouvia, durante o dia, o martelar constante dos caldeireiros a moldar o cobre.

No morro, a confinar as traseiras do Largo da Cividade junto à Rua Chã, estava a Fábrica das Balanças com a loja de venda na Rua do Loureiro junto à Mercearia Camões e a Farmácia do samaritano Barros que foi uma figura inolvidável na zona da Sé que receitava as mezinhas, aplicava as injecções quer fossem ricos ou pobres tripeiros.

Junto à margem do Douro no sopé do morro das Fontainhas e para os lados de Massarelos havia outras indústrias e a maior era fábrica de garrafas de Barbosa & Almeida para satisfazer as necessidades de engarrafamento do Vinho do Porto dos armazenistas da outro banda do Douro em Vila Nova de Gaia.

Voltando ao fluxo demográfico de Aldoar, Nevogilde e Ramalde e pelo que acima descrevemos, dada a expansão industrial, em 1900 em Ramalde viviam 7.111; Nevogilde 1.210 e em Aldoar 1.052 que somavam 9.373 habitantes.

Até aos anos de 1950, a expansão demográfica está mais ou menos balançada para satisfazer a procura de mão-de-obra para a industria e rural.

A partir dos anos de 1950 o cenário rural e campesino lentamente desaparece ( já com a Fábrica dos Ingleses encerrada) e dá-se início à modificação do meio com a construção de novos bairros, abertura da Rua do Lidador, e uma zona industrial nos campos para lá da Rua Pereira de Sousa junto à incompleta Via Norte, transitável até à Estrada da Circunvalação.

A população de Ramalde, Aldoar e Nevogilde vai vivendo conforme pode e com evidentes dificuldades para a compra de meia boroa de Avintes, um quarto de toucinho, uns meios quilos de arroz e acúcar e umas cem gramas de café com chicória e cevada moida.

Vivem os tripeiros com certas dificuldades económicas e dentro de falta de salubridade isto porque a classe pobre vive nas ilhas.

A 1ª e 2ª Guerras Mundial tinham deixado marcas profundas de miséria em Portugal e o Porto não foge à regra.

Portugal produzia produtos agrícola suficientes para a alimentação dos portugueses antes da 1ª Guerra Mundial.

A Guerra Civil de Espanha, a Mundial que se segue produz chagas profundas na população lusa.

Do lado de Espanha havia o perigo da entrada dos comunistas e com isto criar o caos no Povo português, despolitizado e que não sabia bem o que era a doutrina da “Cortina de Ferro”.

Alvaro Cunhal, um “rapazola” nascido em Seia (Serra da Estrela) já se movimentava com outros, seus, comparsas, no escuro, para a infiltração da doutrina comunista na classe operária.

Os bombardeamentos aéreos dos alemães eram uma ameaça constante.

Recordo que já no final da 2ª Guerra Mundial e de quando cheguei ao Porto havia ainda muitas janelas de casas e montras com fita, gomada, colada para evitar o estilhaçar dos vidros pelo o impacto do estoirar das bombas.

Com isto o Dr. Salazar disse aos portugueses: “da guerra vos livro mas da fome não!”.

Comboios, carregados de comida rodavam pela calada da noite na linha da Beira Alta em direcção a Espanha.

Salazar jogava com pau de dois bicos ou seja de boas relações com Deus e o diabo (ingleses e os alemães)

A população, além das guerras, sobre pelos efeitos do clima (nevoeiro e humidade constante no inverno) que não lhe é propícia para uma vida com a mínima qualidade.

A tuberculoso, as gripes, as doenças venéreas (sifilis e a gonorreia) eram as causas maiores das mortes. Na baixa da cidade, gente doente, esquelética e de faces pálidas deambolavam pelas ruas esperando pelo dia da partida para os cemitérios Prado do Repouso ou de Agremonte.

Não escapavam os ricos ou os pobres devido à contaminação da atmosfera pestosa.

No Porto e nos arrabaldes abundam as pequenas mercearias com o polvo seco, sacos de sarapilheira até ao cogulo de cebolas, batatas, castanhas, barricas de azeitonas em salmoura e barrigas de toucinho, focinhos de porco e orelhas fumadas e salgadas pendurados à entrada das portas.

Lá dentro pipos de vinho espremido das videiras de fraca cepa das quintas dos arredores do Porto e outro chegado ao cais do muro da Ribeira do Douro trazido nos barcos rabelos.

Operários em que nos seus bolsos abundava o cotão e menos mil reis/escudos é criado o livro de crédito na mercearia e outro mais pequeno para o freguês onde os fornecimentos do sabão, petróleo, vinho, mercearias, toucinho, banha de porco, fósforos e o maço de cigarros fortes (pedreiros), eram assentes e, que, seriam pagos no fim de cada mês.

O Porto ostentava a sua tradicional burgesia instalada nas baixa tripeira.

Estendeu-se depois para os lados da Boavista, Marechal Gomes da Costa e Foz do Douro.

Os janotas, românticos, estes rondavam a Praça , passeavam pelo Passeio das Cardosas, Santo António, Clérigos, Leões e Carlos Alberto botando os “olhinhos”, apaixonados, às prendadas meninas que pelas tardes acompanhadas das mãmãs iam juntar-se a outras senhoras gradas e tomarem, juntas, o chá da tarde com bolos à Arcádia ou à Ateneia na Praça da Liberdade.

Voltamos à rua de Santa Catarina com o Primeiro de Janeiro o diário dos intelectuais e dos conservadores.

Mais acima e antes que se chegue à rampa da rua Firmeza do lado direito temos a Confeitaria Cunha e famosa pelo bolo rei e pão do ló do Teixeira Bonito. Comerciante de grande popularidade no cidade tripeira e não havia ninguém que não conhecesse o Teixeira da Cunha.

Porém, não vou deixar, de contar uma história passada entre mim e o Teixeira da Cunha.

Era eu um rapazola de uns 19 anos e caixeiro de balcão da Queijaria Gaspar, na Travessa de Cimo de Vila cujo o proprietário era o António Gaspar ou melhor o “Gaspar dos Queijos”, como era conhecido na cidade e arredores.

O António Gaspar natural de São Paio da Serra da Estrela foi criado no Porto, (onde o seu pai foi um comerciante conceituado e dinamizador do comércio de queijo da serra), junto ao irmão José Gaspar,este como o irmão António, estava estabelecido com uma queijaria na Santa Catarina e em frente á Confeitaria Cunha.

Teixeira Bonito e os irmãos Gaspar era assim rapazes do mesmo tempo. A Confeitaria Cunha especializada em bolo de noivos, e com numerosas encomendas na época dos casamentos para a confecção da especialidade e até revertia em vaidade haver na boda um bolo com a marca da Cunha.

No topo do bolo, de mais ou menos de meio metro de altura, era colocado os noivos fundidos em açucar branco.

Num Domingo, na parte de manhã, a Cunha tinha que entregar uma dessas gulosas ornamentação, nupcial, para os lados se Santo Ovídio.

Teixeira Bonito não tinha, disponível, a furgoneta da firma e foi pedir, esta, ao amigo “Gaspar dos Queijos” e, meu patrão que me encarregou de a guiar , “Fordson” fechada de cabine avançada e já em voga pelos merceeiros do Porto.

Tinha eu obtido a carta de condução aos 18 anos e emancipado, contra a vontade do meu Pai, dado que conduzir automóveis, naquela época era coisa para “malucos” que até atropelavam gente.

Depois de cinco vezes na Direcção de Viação de Santa Catarina, fazer cinco provas orais; manobrar na Rampa da Escola Normal, entrar nas vielas de Paranhos, na das Taipas e na da Trindade, lá consegui depois de dez exames orais e de condução conseguir o doutoramente na arte de guiar um automóvel que até era um “licenciamento” que dava algum estatudo a um caixeiro de balcão que tinha calcarroado as ruas do Porto com tabuleiros de queijo à cabeça.

À porta da Cunha esperava-me o Teixeira Bonito e em cima do balcão o bolo que deveria ser entrega na casa onde o copo-de-água ia ser servido.

Os noivos e os convidados na igreja seguindo os rituais da união (recordo que na minha infância não havia casamento que não tivesse sido celebrado na igreja e noiva que não levasse um ramo de botões de flores , naturais, de laranjeira como símbolo de sua virgindade)

Colocado a especialidade no lastro da “Fordson”, Teixeira Bonito junto a tomar conta dele e eu como condutor da já bem rodada furgoneta.

Guiei pela Santa Catarina até à Batalha, passei a Ponde de Dom Luis sem problemas de monta.

Mas nas subidas da Avenida República até santo Ovídio o motor da furgoneta começa a “engasgar” e dar violentos esticadões para a frente e para trás que eu lá ía a sustendo com os travões de modesto funcionamento.

Teixeira Bonito, segurava, como pudia a base do bolo e aos gritos:

- Ai minha Nossa Senhora, ai o meu bolinho;

- Ai meu Deus que se vai partir mesmo;

- Guie lá isso com cuidado sem dar “barrigadelas”;

- Mas como vai ser, como!

- Como!

- Se os noivos ao chegarem da igreja não têm o bolo...

Bem o bolo chegou mesmo, ao destino, meio empenado e beliscado mas só que umas alianças, decorativas, tinham-se desprendido do bolo e caido.

Não apareciam...depois da busca lá estavam, estas, numa frincha do lastro de madeira.

Recordo com saudade a figura popular, dentro do burgo tripeiro, que foi o Teixeira Bonito da Confeitaria Cunha.

Vivi por alguns anos na rua do Bonjardim, do rés-do-chão do número 947 com a família de Francisco Mendes e a Dona Lígia.

Ele da mesma terra que eu de Arcozelo da Serra do concelho de Gouveia; a Dona Lígia de Esposende.

Aquele rés-do-chão era mais ou menos um centro académico isto porque acolhia hóspedes estudantes, já homens como eu.

O menos culturalmente, falando, era eu e um caixeiro de balcão na Confeitaria Serrano, na rua do Loureiro, propriedade da “Daniel, Albuquerque & Cª Limitada” cujos sócios eram meus primos onde auferia um ordenado, mensal, de 800 escudos. Quinhentos escudos pagava eu, mensalmente, à Dona Lígia, restavam-me 300 para o meio maço de cigarros “Definitivos”, para a “borga”, noctívaga, com o Carlos Alberto Brites, o Pedro Albuquerque, os dois do Arcozelo, o Gil de Vila Real de Trás-os-Montes e, o Senhor Joaquim do Fundão empregado de escritório da “Fábrica de Bicicletas” da rua de Camões.

Hospedava-se, também, o Senhor Moura, transmontado dos quatro costados e, estudante universitário que resolveu, com toda a força e vontade, depois de sair da tropa, licenciar-se em Letras na Universdade do Porto.

O Moura era um jovem homem bastante sossegado, nunca saia à noite com a “malta”; ensinou-me uma palavra, filosófica, que me marcou e viria a servir de mastro para me guiar durante a vida: “A Vida Começa Todos os Dias!” .

Era isso mesmo desde que se acorde vivo na manhã de todos os dias.

O dinheiro nos bolsos da rapaziada era sempre escasso. Eu com os meus 300 escudos depois de pagar a pensão, os estudantes sempre à espera da mesada que nem sempre o vale do correio chegava a tempo e horas.

Dentro do rés-do-chão da Bonjardim havia um bom coração que era a Livinha, irmã da Dona Lígia, uma mulher muito inteligente, empregada numa importante casa de tecidos da Mousinho da Silveira que “emprestadava” , uns 20 escudos de quando em quando.

No primeiro andar da 947 morava o guarda-redes Barrigana (expulso havia pouco do F.C.P.) e o guardador das redes do Salgueiros de Paranhos.

Naquela área da Bonjardim era um espaço de amizade onde vivia uma malta “tripeira” porreirinha.

No Bairro da Fontinha, vivia a sempre alegre e apetitosa (viria mais tarde a ser uma fadista famosa) a Beatriz da Conceição.

Assaltos a pessoas ou roubos na rua, tão-pouco o método do esticão era prática desconhecida.

Havia, sim, uma técnica, inofensiva pelos “vigas” de rua que era o de vender o vigéssimo premiado ou um anel de latão, que dois malandros, encenavam, no passeio aos olhos do provinciano vindo ao Porto para comprar umas “coisinhas” que na sua “parvónia” não havia.

O “truque” do vigéssimo premiado era mostrar a cautela ao incauto e anafalbeto provinciano, que lhe tinha saído a “taluda”, mas que precisava uns 500 paus, enquanto não a iria cambiar à Casa da Sorte da praça de Almeida Garrett.

A do anel era encenada por dois “vigas”, muito bem treinados que um passava, ladino, junto à vitíma, e deixava cair a peça no passeio.

O outro vigas seguia atrás da vítima.

Este, logo que via o anel ainda a pinchar no chão, recolhia-o, olháva-o num instante e metia’o no bolso.

Ir entregá-lo ao que o perdeu...que ideia!

O ouro era tão raro que até lhe fazia um jeitão...

- Naquele instante o “malandro” de trás:

-“ó tiozinho” eu vi!

-Vamos lá dividir isso ouviu?

Os dois a um canto da rua discutiam o negócio do “pega ou larga”.

O vigas um actor/pilha conseguia logo ali avaliar a peça e apresentava a proposta ao “tio de lá de xima”: dou-lhe 100 paus e fico com o anel!

O provinciano e alheio às vigarices da cidade e acostumado às vendas do tecido reles dos ciganos nas feiras da sua parvónia, lá dava, cobrindo a proposta 150 ou mais escudos, ao burlão.

Pouco depois, o burlado, ia avaliar a peça de ourivesaria às lojas de ouro da Rua das Flores e, entendia então, que tinha sido vigarizado.

Em cima da vigarice da cautela a coisa era diferente!

Havia o encontro de dois vigaristas.

O burlado virava burlão e este a falar para os seus botões: ai xim esta cautela tem a taluda?

- Esperar por esse gájo para quê?

- Que se lixe vou mas é trocar isto!

E lá seguiu para a Casa da Sorte e sabia, ali, que a cautela estava branca como a cal!

Junto à casa onde eu morava e no final da rua do Paraiso estava a “Fonte da Vila Parda” , uma loja de solas e cabedais, a “tasca” do Castro; a tertúlia onde a rapaziada se reunia e bebia os indispensáveis “neguinhos” de branco ou tinto a três tostões.

A malta amiga compunha-se: o Quim Polidor, amador da prática do boxe na categoria dos leves que aparecia, normalmente, com o nariz esmurrado e olheiras fundas e negras do sague pisado, depois dos combates de fim-de-semana; o Jorge sobrinho do Barrigana muito dado ao aeromodelismo; o Toninho, empregado num armazém de malhas e miudesas da Rua Mouzinho da Silveira, um fraco tocador de gaita de beiços que quando lhe faltavam umas “coroas” lá ía empenhar um ou mais realejos à casa do “prego”.

E quando o prazo da cautela estava preste a expirar negociáva-a e ficava a “malta” por uns tempos sem as melodias “realejoeiras” do Toninho da “Fonte da Vila Parda”.

Claro como já todos eramos meios homens começamos a fumar.

O cigarro davamo-nos a personalidade de adultos com barba na cara.

Em frente da acasa onde eu morava havia um quiosque enfiado num vão de escada onde nos abastecia-mos, por dois tostões, de três cigarros “pedreiros” também conhecidos por bombas.

Morava por ali outra juventude e outra nas ruas de Camões e da Faria Guimarães que ao fim do dia ou para uma “trapalhada”, noctívaga, se reunia na tasca do Castro. Na tertúlia dos “néguinhos” e das iscas de bacalhau a cinco tostões o plano da “matulagem” era naquelo centro cultural da “pinga” traçado.

Uma bilharada livre no café Pereira do Marquês; uma volta pelas “casas de tia” e fazer alguma sala até que a “matrona” não corresse a rapaziada à vassorada pelas escadas abaixo. Praguejando: vêm “práqui” estes azeiteiros de merda, rua,rua daqui!

A ronda da malta pelas casas de “porta aberta”, ficava pela famosa 515 da Bonjardim: mais abaixo depois de cruzar a Fernandes Tomás estava a Rua Estevão. Do outro lado estava o muro do Palácio dos Correios que nunca a construção atava ou desatava.

Na viela das Liceiras, pegada ao barracão da Estação da Trindade, ao fundo, a “Bem-me-queres” que de bem não fazia nada aos mais “ataviados” de cio que acabavam de ir curarem-se, para os lados da Rua da Carvalhosa, no dispensário que tratava as doenças venéreas com a famosa injecção 1914 que aterrorizava, só o nome, aos libertinos mesmo sem serem picados pela, também, conhecida: “dose de cavalo”

Fim da Segunda Parte

José Martins/2004.



segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O MEU SÁBADO EM PROCURA DA HISTÓRIA DE BANGUECOQUE

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Sábado Domingo e os dias da nova semana que se seguem são todos os iguais para mim. Orgulho-me de ser o único reformado do Ministério dos Negócios Estrangeiros depois de ter servido a diplomacia, em nome de Portugal, na Tailândia ter ficado por cá.
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No passado sábado, 15 de Agosto e o dia da veneração da Nossa Senhora de Assunção, em Portugal, estou em casa sem saber aquilo que irei fazer da parte de tarde. Não me apetece mexer uma palha nem bater tecla que valha porque estou sem inspiração nenhuma.





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Por devoção à Senhora de Assunção também não vou ser má língua e insurgir-me com os meus rivais, desta praça, que seguem demasiadamente cansados e com a cabeça feita em água de tantas investigações políticas e culturais dos seus dias e dias a passearem nos corredores das grandes superfícies comerciais onde a frescura do ar condicionado é de borla.
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Preguiçosamente inclinei o corpo para as costas do cadeirão que a minha mulher me comprou há uns cinco anos e tem se portado com resistência admirável na estrutura e nas quatro rodas na base.
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Fechei os olhos por um momento e quando me preparava para entrar nas brasas chegou-me à memória um templo ao ar livre e a história viva de Banguecoque depois de meados do século -XIX e princípios do XX.


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O lugar poderá ser macabro para alguns, dado que todo aquele espólio histórico está dentro de um cemitério, mas para mim não tem esse significado pelo amor à história e às coisas do passado.
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Trata-se do Cemitério Protestante, na Chalerm Krung Road e ali foram sepultadas as grandes figuras, estrangeiras, que elas se deve, hoje, a cidade de Banguecoque e o modernismo da Tailândia.
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Levanto-me do cadeirão pego na Nikon D70, verifico as as baterias e toca a dirigir-me para a Chalerm Krung e verificar como as coisas se quedavam e o terreno, frequentemente alagado motivado pela subida do caudal do Rio Chão Prya. Estava seco o solo em alguns locais e outros ainda alagados mas com pé para se caminhar.
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Quando visitei Banguecoque, pela primeira vez, há 32 anos e viria a ficar para sempre, a cidade encerrava ainda muito daquilo que tinha sido havia 150 anos.


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Casas de madeira de teca, na moderna rua da Silom, nas avenidas Sathorn e Sukhumvit. Na zona ribeirinha, apenas o velho Oriental Hotel, os correios Centrais, a residência dos embaixadores de Portugal, uma casa velha, desabitada, sino portuguesa, na Captain Bush Lane (que nunca cheguei a descobrir que ali teria vivido) e a seguir os armazéns da empresa fundada pelo Louis Leonwens (filho da famosa escritora Anna Leonwens).
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O cemitério protestante da Chalerm Kkung está carregado de história e nele repousam as individualidades, estrangeiras, que contribuíram para a modernização da cidade de Banguecoque e a Tailândia.
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Quando a terceira capital, Banguecoque, foi transferida de Ayuthaya em 1782 entrou numa nova era. Já me referi, anteriormente, que a cidade cresce com as navegações a vapor que da Europa e dos Estados Unidos entram na embocadura do Rio Chão Praya em procura das muitas riquezas de um Reino do Sião rico. Foi o fim dos centenários juncos chineses.
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Seria longa a história e preenchia inúmeras páginas se aqui a fosse contar no seu todo. Vamos porém resumi-la. A partir da década 30 do século XIX, chegaram a Banguecoque os missionários protestantes americanos de que viriam a influenciar S.M. Majestade o Rei Mongkut, antes de ser entronizado Rei Rama IV, que viria não só a expressar-se fluentemente na língua inglesa com obter conhecimentos sobre os hábitos do
ocidente.



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Na década de 50, do século XIX, já existe uma comunidade, estrangeira numerosa em Banguecoque e foi aumentando até aos dias de actuais.
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Empresas estrangeiras estabelecem-se num quarteirão, não muito distante da margem esquerda do Rio Chão Prya e numa extensão de uns quinhentos metros que se situava entre o princípio do “China Twon” até bifurcação da Chalerm Krung com a Silom Road.
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Mas entre as pessoas, estrangeiras que geriam empresas ou exerciam suas actividades dentro das mesmas, há outras contratadas pelo S.M. o Rei Mongkut , para modernizarem o reino no estilo da administração ocidental. Porém dada a insalubridade de Banguecoque e a disposição da cidade em solo alagadiço estava a nova capital sujeita a pandemias como a febre tifóide e a cólera que não poupava classe étnicas e uma esperança de vida muito limitada e pouco além de meio século de vida.
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Onde há vida existe a morte e, com os hábitos das comunidades estrangeiras onde se incluem, a chinesa e muçulmana com a tradição de enterramento dos corpos, a Coroa siamesa doou-lhes terrenos para enterrarem os seus defuntos.
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As concessões são oferecidas conforme a etnia a que pertenciam. São assim implantados os cemitérios Protestante, na extensão da Chalerm Krung, o Católico, Ortodoxo e o chinês, na Silom Road em talhões separados. O três bairros portugueses; Senhora do Rosário, Santa Cruz e da Imaculada Conceição têm os seus próprios cemitérios paroquiais que desapareceu, o do Rosário e o de Santa Cruz sendo o terreno ocupado com construções para a Igreja Católica.
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O católico da Silom Road, também desapareceu e apenas ficou o talhão chinês e uns espaços, particulares, que pertencem a famílias chineses abastadas, que não consentem que naqueles espaços, bastante, largos a profanação do espaço onde dormem seus antepassados, praticamente desde a fundação de Banguecoque em 1782.
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Toda a história, viva, da fundação da cidade perdeu-se e difícil poder fazer-se um
inventaria dos que ali foram enterrados que foram um quinhão que contribuíram para edificar a grande cidade, de Banguecoque, que é hoje.
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Mas o Cemitério Protestante da Silom Road já está dado como monumento da cidade e vai ficar para sempre. Há uns quatro anos descobrimo-lo, fizemos umas poucas imagens, mas não podemos caminhar pelo meio das sepulturas dado que o terreno, que se afunda ano por ano, estava completamente alagado. O capim alto também dificultava para ler os nomes dos epitáfios que parte deles completamente apagados.


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Pelas arvores, com as raízes protegidas, estendidas pelo chão, me pareceu que aquele campo histórico vai ser transformado em Parque e os nomes, esculpidos no granito ou em mármore fina de Carrara, e trabalhava por artistas italianos que viviam em Banguecoque vão ser avivados e dar a oportunidade que sejam lidos os nomes das importantes figuras que ali dormem.
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O meu objectivo é o poder encontrar o nome de duas pessoas para que possa completar a investigação sobre suas vidas e obras.
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As fotografias inseridas bem dão conta das proeminentes figuras que ali foram enterradas entre elas o Almirante Bush, o nome da rua onde se situa a Embaixada de Portugal em Banguecoque.
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Digno de realce que pelos bons serviços que prestaram ao Reino Sua Majestade o rei Chulalongkorn mandava-me erigir um monumento como prova de gratidão aos seus bons serviços.
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Voltarei de quando aquele monumento nacional ao ar livre esteja transformado em parque, os nomes nos epitáfios avivados e continuar a minha investigação. Mas já recolhi vários nomes que me eram familiares, entre eles membros da família do médico Campbell e outras que deixaram nome em Banguecoque.
José Martins

terça-feira, 11 de agosto de 2009

LONGA VIDA PARA SUA MAJESTADE A RAINHA SIRIKIT



Na feliz data de hoje 12 de Agosto, de 2009, solenemente, minha família e eu felicitamos Sua Majestade a Rainha Sirikit, da Tailândia, pelo seu aniversário de seus 77 anos, cuja parte de sua vida, 60 anos, foram dedicados à harmonia do Povo do Reino da Tailândia, a obras de benemerência e em especial à dignificação e modernização da mulher tailandesa.
José Martins
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P.S. A fotografia de Sua Majestade acima aposta fui obtida por mim, em 4 Maio de 1994 e de quando, pela primeira vez uma Raínha da Tailàndia, despendeu um serão de cerca de 5 horas na Residência dos Embaixadores de Portugal na Tailândia.

domingo, 5 de julho de 2009

O MEU RIO VISTO DO ALTO

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Não via o meu rio, junto aonde vi por muito anos, há 19 meses nem do alto nem de baixo.
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Afastei-me do rio e da minha rua a Captain Bus Lane há 18 meses. Foi no princípio da noite de 16 de Janeiro do ano passado e desde então nunca mais lá passei, apenas uma vez, mas na Chalerm Krung de onde a Captain Bush parte e a uns pouco mais de 100 metros, quando os olhos, de quem por ali passa, ao seu lado esquerdo, vê a Embaixada de Portugal.
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Não me zanguei com a minha rua, muito menos com o meu rio Chao Prya, mas incomodaram-se comigo uns inquilinos que temporariamente, junto à margem, vivem.
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Vou deixar, para outra altura, com mais pormenor, a história.
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Hoje vou apenas referir-me de onde vi o meu rio o Chao Prya e, precisamente, de um 30º andar da margem esquerda e a um quilómetro de distância e do mesmo lado onde se instala, num terreno doado a Portugal, para construir Feitoria, pela real graça de Sua Majestade o Rei Rama II, em 1820.
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Asilei-me em minha casa há 19 meses, desde que fui expulso, por indecente e má figura, ao fim de permanência de 24 anos, por sua Excelência o Embaixador de Portugal António de Faria e Maya que viria a escrever uma página na história de minha vida.
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Sua Excelência não gostou, nada mesmo, de umas verdades puras saídas de minha boca, que não me arrependeria se estas, as merecesse, dirigi-las a Sua Excelência o Presidente da República e quem o credenciou para representar Portugal na Tailândia.
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Raramente, depois de ter sido quebrada a minha rotina diária em 16 de Janeiro de 2008, não saio de minha casa, para o centro de Banguecoque e fi-lo pouco mais de uma meia dúzia de vezes.
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Claro que não sou um prisioneiro, voluntário, de quatro paredes, ou que esteja por aqui de olhos de "carneiro morto", um desgraçadinho, obcecado, pelo passado, de 24 anos, de ter servido Portugal (nunca servi homens) no meu melhor, oferecendo mais do aquilo que haja recebido.
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O dia para mim começa muito cedo e outra vida nasce desde que acorde vivo.
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Vamos lá contar a história. Certo, se dissesse o contrário fugia â verdade, tenho muitas saudades do meu rio e de todo aquele movimento matinal que lhe conheci.
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Por muitos anos, pela fresca manhã, ainda o sol não se tinha descoberto e beijar com os seus raios o ondulado da água superfície do rio, já eu sentado, num banco de cimento, no embarcadouro da Captain Bush Lane, observava todo o movimento, humano, no seu vai-e-vem da margem de cá de Banguecoque para o lado de Thomburi.
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A capital tailandesa é rasgada em duas partes pelo meu rio e a ele se deve a bênção de ter sido o elo de ligação entre o Reino do Sião e os países da Europa desde 1509 e de quando o português Duarte Fernandes (a), navegou por ele acima, para a Ayuthaya e com a mensagem do Grande Afonso de Albuquerque para Rei Tibodi II: “dizei ao Rei so Sião que os portugueses vão conquistar Malaca”.
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Sei la quantos vezes, sentado no banco do cimento do embarcadouro, além de toda aquele gente que via, vesti a pele dos portugueses de outras eras e por vários séculos subiram e desceram o rio.
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Continuo dentro das pieguices, que me têm caracterizado, um patriota de “meia tigela” e continuar a ser independente a contar a história de Portugal na Tailândia, sem nunca me ter arrastado aos pés, ou beijado o “traseiro” do Poder e solicitar-lhe dez reis de mel coado para as minhas investigações histórias desde há 24 anos.
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Preferi viver livre e quando o Poder não me merece a mínima consideração mandei-o colher malvas.
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Não sou nenhum anárquico, mas por algumas vezes insurgi-me, quando o Poder se deteriorou, porque poder, sem poder que valha é devassado.
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Uns três dias antes de sábado passado, um português (daqueles emigrantes a sério que de muito novo, como eu, agarrou os cornos do mundo e correu as sete partidas), enviou-me um e-mail a convidar-me para uma merenda, no seu apartamento, situado num trigésimo andar, que habita junto à margem esquerda do meu rio.
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Quando um português, daqueles emigrantes a reais, convida outro patrício, desde logo, à cabeça, se sabe que vai haver mesa farta, petiscada variada, onde não pode faltar o “bacalhau”. Vinho português, nesta merenda, não houve um gole que fosse e bebeu-se do Chile.
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Não vou acusar aqueles que tinham, por dever e obrigação que em Banguecoque, agressivamente, o vinho português fosse levado à rua e não em provas para meia dúzia de bebedores, distribuindo, uns aos outros sorrisos e palavras a transbordar hipocrisia, que além de dizerem, para agradar ao anfitrião: “ the wine´s excelente”!, nas suas mesas não entra "pinga" que seja do néctar das vinhas, solarengas, de Portugal.
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Uma tarde bem passada com comes e bebes naquela torre de cimento e aço e juntei o útil ao agradável! Petiscada lusa, boa hospitalidade e então a vista, de uma beleza rara, o ter admirado o meu rio bem alto e um olhar que nunca haja tido o privilégio.
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De facto o meu rio, não tinha aquele movimento de turistas, visto dois anos atrás, onde nos convés dos barcos, a céu aberto tomavam as suas ceias, enquanto outros dançavam ao som de uma banda de música. Observei um apenas. Os turistas vão voltar e não tardam. A magia daquele rio não se apaga na memória dos que nele navegaram e voltam sempre.
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As margens do rio cresceram muito em 32 anos quando pela primeira vez o naveguei e o canais de Thomburi, num barco, indolente e conhecido por “tuk-tuk”.
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Aquele casario construído de madeira e suspenso em estacas de árvores de teca, deram lugar a enormes torres de trinta e mais andares. É o progresso a que o o meu rio não escapou. Uns velhos armazéns e ainda umas casas de madeira, seculares, a querer vencer a lei do tempo e do progresso nas margens teimam em identificar a cidade de Banguecoque de outras eras.
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Regressei a casa no principio da noite feliz porque vivi, nostálgico, o meu rio e o da minha poesia das alturas.
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José Martins
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(a) Alguns historiadores têm referido à data de 1511, da chegada dos portugueses ao Reino do Sião, quando esta data é de 1509. O proeminete historiador John Villiers escreveu, numa monografia “Portugal e a Tailândia” (Fundação Calouste Gulbenkian) em 1988: “...Para este efeito enviou Duarte Fernandes (que viera para Malaca em 1509 como oficial da frota portuguesa comandada por Diogo Lopes de Sequeira e que falava um pouco tailandês) a Ayuthaya, onde lhe foi concedida uma audiência com o Rei Rama Thibodi II, na qual este foi presenteado com uma espada cuja bainha era de ouro incrustada com diamantes...” Está completamente errada a data de 1511 da chegada dos portugueses, ao Sião quando esta foi em 1509.
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Em 30 de Setembro de 2002 escrevi a peça, transcrita, a seguir e publicada no website www.aquimaria.com/html/aboutth.html
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"A poesia do rio e da minha rua. Em Banguecoque tenho muitas ruas. Rios só um: o Chao Praiá. Aquela onde vivo, outras que me são familiares há muitos anos, principalmente as que me servem de manhã para chegar à Embaixada de Portugal e de volta a casa ao fim da tarde. Itinerários que não mudo para me facilitar a fuga ao tráfego nas horas do começo da movimentação da grande cidade. Pontualmente, programado, às seis da manhã, eu e a Maria saímos de casa. Oitocentos metros é a distância que separa a Varanda do Oriente, de minha casa, até à auto-estrada. Depois de atingir a enorme via, o eixo rodoviário da Tailândia, do Norte ao Sul até à fronteira da Malásia, são uns escassos 15 minutos que o meu utilitário necessita para deixar minha filha na escola internacional que frequenta há uma dúzia anos. As escolas em Banguecoque, tailandesas ou internacionais iniciam as aulas (a grande maioria), às sete, dado ao rigor do clima tropical; encerram às duas e meia da tarde e, com isto os alunos ter tempo para executar as lições para o dia seguinte. Antes de iniciar as minhas funções que começam às nove tenho duas horas para consumir, e não as aproveito, sentando-me a polir o fundo de uma cadeira, num café da Rua da Silom. Vou assim para os meus espaços matinais que são a minha rua e a margem do rio Chao Praiá. Depois de estacionar o carro para lá dos portões que dão acesso ao parque da Antiga Feitoria de Portugal (hoje a Chancelaria da Embaixada), saio, para a rua, com a máquina, de fixar imagens digitais, que não precisa de filme, revelação e, até podem, ser arquivadas na memória do computador, gravadas em CD Rom ou em disquetes, por anos. Percorro a minha rua, a Captain Bush Lane que é, defacto, um mundo poético, e prazer envolver-me na movimentação, humana e observar tudo que por ali passa no começo de mais um dia para milhares de banguecoquianos. A cidade de Banguecoque é dividida em duas partes. O marco é o Rio dos Reis (Chao Praiá, Menam ou Mãe das Águas) onde correm as àguas das terras do Norte e Nordeste da Tailândia e vão desaguar no Golfo da Tailândia. Sobre as águas do Chao Praiá, durante as 24 horas, dos ponteiros do relógio, flutuam canoas, barcos, comboios de barcaças, mergulhadas até ao convés, de grande porte, puxadas por reboques vindos de grandes distâncias, a montante, do rio, em direcção aos armazéns do porto de Banguecoque, onde alijam a carga, composta de produtos da terra ou materiais de construção. A Casa Nobre, um palacete, a residência dos Embaixadores portugueses acreditados na Tailândia e uma peça, finíssima da arquitectura, colonial portuguesa e conhecida na Tailândia por Sino/Portuguesa, está a pouco -mais de 100 metros da margem esquerda do rio. A frontaria da Nobre Casa, ainda com o distintivo da monarquia lusa, as cinco quinas, os sete castelos e a coroa dos Reis de Portugal decorada com ramos verdes e cravos vermelhos. Quando foi construída, depois de meados do século XIX, a circulação e movimentação das gentes; das mercadorias era efectuada pelo Chao Praiá; pelos canais de uma cidade, acabada de surgir entre a densa vegetação, aquática, abertos a braços do homem e dado, assim, nome à nova capital, pelos cronistas, da época, europeus a “Veneza do Oriente”. A capital da Tailândia é, ainda hoje, conhecida por esse nome. A bandeira das quinas, de três panos, já desfraldada ao sabor do vento que lhe é favorável da monção, na ponta do pau, flutua a uns 35 metros da base de cimento. O símbolo da nação, portuguesa, está ali desde 1820 quando Sua Majestade o Rei Rama II, ofereceu a Portugal a larga parcela de terreno para construir Feitoria e estaleiro para reparar ou construir barcos. Bandeira e pau que a suporta, serviu por muitos anos ponto de referência para as pequenas embarcações navegando nos canais, dos pontos mais distantes de Banguecoque para se orientarem em direcção ao rio Chao Praiá. O farol luso da margem do Chao Praiá tem a concorrência das alturas, a poucos metros, de uma torre de vidro que lhe tirou o visual da orientação. Mas continua no mesmo mastro garbosa, a ondular o pano com as cores que identifica o lugar como espaço de português na Tailândia. A “Captain Bush Lane”, a minha rua ( Rua do Capitão Mata), o nome foi uma homenagem ao Almirante John Bush K.C.W.E., que serviu dois Reis, Majestades Maka Mongkut e Chulalongkorn, (Pai da moderna Tailândia), pelo período de 40 anos, como administrador e organizador do Porto Marítimo de Banguecoque desde a metade do século XIX até ao começo do XX. Rua que ainda hoje mantém pedaços da história de um passado. Uma casa sino/portuguesa, desabitada, está em coma há muitos anos, certamente aguarda os golpes implacáveis do camartelo para o lugar histórico, onde foi construída, se erguer uma torre de cimento e vidro. Um pouco mais à frente está a tabuleta da empresa “Louis Leonowens”, filho da Anna Leonowens, professora de inglês da Corte de S.M. o Rei Mongkut (reinou de 1851 a 1868) que escreveu a controversa obra o “Romance no Harem”, que mais tarde viria a ser aproveitada por Hollywood para rodar a grande metragem “O Rei e Eu” e motivo ofensivo ao povo tailandês dado que a história não narra os factos verdadeiros. A destoar o cenário, da minha rua, é a luxuosa ilha de riqueza o Hotel Royal Orchid, famoso é certo, mas não tanto como o, secular, Oriental a um quilómetro a jusante e preferido pela gente, “bonitinha” da “jet” set internacional e, de alguns políticos, impressionistas, portugueses (não revelo nomes), têm uma paixão predilecta, pelo hotel,mais famoso do mundo. O escritor Somerset Maugham, hospedou-se, na sua primeira visita a Banguecoque, no Hotel Oriental, em 1923. Gostou, repetiu por várias vezes e a sua passagem ficou assinalada com uma suite: “Somerset Maugham” No Royal Orchid, há uns anos, foi preso um tal Faria, brasileiro, membro do executivo do Presidente Color que foragido e acossado pela polícia internacional o Faria, incauto, foi meter-se na “boca do lobo”, com uma comitiva de uns 10 assessores e a esposa a ocuparam suites de luxo, nas alturas, do hotel. As tripulações da companhia aérea nacional brasileira, VARIG, hospedavam-se no Orchid para se recompor depois de ter voado longas horas e segundo por aqui se constou teriam sido as vozes denunciantes, do paradeiro do “bom vivante” Faria. O informador do paraíso do brasileiro, teria dito à polícia tailandesa que era um homem perigoso e armado. Pois na altura da sua detenção o Faria não tinha, sequer, um corta unhas para atacar quem fosse. O acusado do crime de peculato, estava, com o seu grupo a viver à larga e à francesa; a gozar o cenário do Rio Chao Praiá. Na altura da detenção, o Faria, saía, depois de uma lauta ceia, do Restaurante Captain Bush que deu o nome à minha rua. Uma pequena viela leva-me ao cais de desembarque. Da banda de Thomburi chegam batelões com estudantes, operários, jovens e muita outra gente, graúda e a arraia-miúda que vai apanhar o comboio á estação ferroviária, centenária, Hula Lumpoon que liga Banguecoque a todos pontos do Reino. Cruzam-se barcos expressos, de passageiros outros de grande porte aproximam-se dos hotéis, da beira rio, para embarcarem turista, e oferecer-lhes uma viagem de sonho de umas três horas até Ayuthaya, com preço acessível a todas as bolsas. (A Tailândia continua a ser a melhor destinação turística, em toda Àsia, para o visitante estrangeiro). Miro o grande o rio, na manhã nublada, sinto por ele uma grande paixão. O Chao Praiá é um pouco já da minha vida. Conheci as margens com casas de tábuas, em cima de estacas de madeira de teca. Hoje nas suas margens há enormes prédios de residências e hotéis de luxo. Turistas aos milhões visitam a Tailândia e o Chao Praiá é uma via aquáticas, obrigatória e desejada a navegar. Rio que recebe as cheias dos outros afluentes do norte e nordeste e alagas a zona ribeirinha das duas margens de Banguecoque. Pessoas habituadas à bênção da àgua que aceita as inundações com o sorriso característico que identifica, o Reino das gentes tailandesas, o País dos Sorriso. A Rua Captain Bush Lane e o rio Chao Praiá são espaços de poesia e pura harmonia. José Martins30.09.2002"

sábado, 1 de novembro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 17.ª
Consulado de António Feliciano Marques Pereira

A 16 de Setembro de 1875, o consulado geral de Portugal em Singapura e Malaca e suas dependências foi anexado ao consulado de Portugal no Sião, sendo elevado a cônsul-geral daquele distrito o cônsul de Portugal no Sião, António Feliciano Marques Pereira, que estava à frente desse consulado desse Janeiro desse ano:
Este nasceu em Lisboa, a 1 de Junho de 1839, sendo filho de António Marques Pereira e de Maria Catarina Damário Ferreira. António Feliciano Marques Pereira casou em Macau com Belermina Inocência de Miranda, baptizada na Sé, a 5 de Junho de 1839, filha de António José de Miranda e de Ana Joaquina de Miranda; neta de paterna de Agostinho José Miranda e de Mariana Marques de MIranda e materna de Januário Agostinho da Silva e de Maria Ana Francisca Pereira da Silva. Agostinho de Miranda era filho de José Miranda e Sousa e de Maria Rosa Correia de Liger; sua mulher, Mariana Marques, era filha de Gabriel Marques e de Clara Maria Rosa Vieira, neta paterna de Domingos Marques e de Maria Francisca dos Anjos Ribeiro Guimarães e materna de Raimundo Vieira e de Maria Francisca de Miranda.
António Feliciano Marques Pereira e seu filho João Feliciano foram dos maiores historiadores de Macau, publicando várias obras e inúmeros artigos sobre esta terra. O pai pai foi cônsul de Portugal em Banguecoque durante 6 anos, desde Janeiro de 1875 a 1 de Abril de 1881.Falando de seu pai, escreve João Feliciano Marques Pereira:
«No meio dele (povo siamês), passou meu chorado Pai alguns dos melhores anos da sua vida (de 1875 a 1881), conseguindo a muito custo restabelecer o antigo prestígio tão abalado por muitos desleixos e vergonhas que constituem o costumado fim de muitas glórias portuguesas...
Mas nesse patriótico empenho arruinou a sua saúde num clima inhóspito para europeus.
Tendo saído de Bangkok, em Abril de 1881, veio morrer em Setembro desse ano em Bombaim, como cônsul-geral na Índia inglesa, cargo para que tinha sido promovido como prémio dos seus longos serviços na Ásia, conforme diz o respectivo decreto.
Foi durante a sua permanência em Bangkok que se levantou o novo edifício consular à custa dos rendimentos do próprio consulado e se acabou com a residência do representante de Portugal na imunda pocilga ou barraca feita em 1820 pelo cônsul Carlos Manuel da Silveira. em 1858 Carlos José Caldeira no 1-º volume do Archivo Pittoresco clamava contra a vergonha de tal habitação que já então «estava sustida com cordas e pontaletes para não cair, e que só por irrisão se denominava casa do consulado e feitoria portuguesa».
Meu Pai contribuiu muito para que se resolvesse a questão entre o 2.º e o actual 1.º rei, suscitada depois da implantação da nova constituição política de 1874.
Para isso também trabalhou bastante o falecido Conde de S.Januário, quando Governador de Macau e ministro plenipotenciário em Siam.
Por esses e outros valiosos serviços... a comunidade portuguesa de Bangkok ofereceu a meu Pai uma taça de prata, com dedicatória grande, acompanhada da seguinta mensagem, da qual, já agora, não resisto à tentação de transcrever os seguintes trechos:
«Aprouve ao Governo de Sua Majestade Fidelíssima elevar a V. Ex.ª a um cargo superior ao que por sete anos V.Ex.ª há exercido no reino do Siam táo distinta quão briosamente.
Receba assim V.Ex.ª um prémio condigno do seu subido mérito, geralmente reconhecido talento e acrisolado patriotismo.
Nós, porém, os abaixos assinados, súbditos portugueses aqui residentes, vamos ficar privados dum Representante sem igual na história das relações entre as nações portuguesas e siamesa; daquele a quem coube o destino de restabelecer o prestígio do nome português que muito declinara neste país; que completou e embeleceu o nobre edifício da residência consular, reformou o serviço e coordenou os arquivos do consulado e melhorou os seus redimentos; administrou justiça recta; dispensou-nos conselhos prudentes; pugnou pelos nossos interesses e pelos da nação: que soube enfim, pela perspicácia e firmeza nos negócios diplomáticos, afabilidade, bizarria e hospitalidade nas relações sociais captar respeito, a estima e consideração da nobreza de Siam, dos seus colegas do corpo consular e outros residentes estrangeiros, e de nós os portugueses.
Penhorados. pois, por tanta benevolência, pátrio zelo e amabilidade, vimos aqui desempenhar-nos dum dever de gratidão rogando a V.Ex.ª se sirva aceitar esta taça com a inscrição nela gravada, expressiva dos nossos sinceros agradecimentos pelo bem que V.Ex.ª nos há feito. Digne-se mais aceitar a manifestação do nosso sentimento pela sua próxima partida para longe de nós.
A ausência e o tempo não poderão extinguir-se em nós a grata recordação dos feitos dum benemérito da Pátria, como é V.Ex.ª nem do seu nome justamente respeitado».
São já passados 20 anos (1881-1901). Muitos se não a maior parte, dos signatários dessa mensagem estão mortos.
Mas um núcleo de briosos rapazes, com a fundação da «União Portuguesa», tentou patrioticamente respabelecer as antigas relações comerciais entre os portugueses e siameses e honrar pelo trabalho o nome de Portugal. Que o Governo olhe, como deve, pela comunidade e pelo consulado português em Siam (1).
Compreendem-se estas palavras na boca do filho, que pinta o pai como um sol sem mancha, mas veremos as sombras no relatório do cônsul Loureito.
Por ofício de 3-8-1876, Marques Pereira envia ao Governo de Macau cópia do inventário do Consulado de Singapura, pedindo que pela Junta de Fazenda de Macau lhe fosse abonada a quantia necessária para aquisição da bandeira e material para o Consulado (2). A 18 de Julho de 1877,
Marques Pereira oficia a Chow Phia Kham Wongse, Ministro dos Negócios Estrangeiros, sobre o assassinato cometido pelo monopolista de espíritos, Kimian (monopolista de Supan) na pessoa de Chin Jesun, criado de Chin Ip Chion Si.
Diz ele que outrora não havia crimes; mas, desde que os monopolistas viram que a repartição das finanças desculpava todos os abusos, estes repetem-se todos os dias. Ele cônsul, reteve 320 ticais (quatro cates de prata) que o assassínio lhe dera; a este, mandou aplicar 4 chibatadas.
(1) Ta-Ssi-Yang-Kua, Vol. 11, p.761 - (2) Processo n.º 98, de 3-8--1876.
O Ministro mandou o Sr. Jesus (1) ao consulado pedir os 4 cates, mas não lhe foram entregues. Perante a queixa do Ministro o Cônsul replicou: «Os quatro cates cá estão». Não tenha V.Ex.ª cuidado, que eles daqui não desaparecem.
São meus, foram-me dados pelo monopolista de Supan, mas como eu não costumo receber dinheiro por este modo, ofereci-os a V.Ex.ª e torno hoje a oferecê-los, pedindo-lhe que os aplique aos pobres ou que lhes dê o destino que V.Ex.ª entender mais justo.
Mas preferia esperar pela decisão do tribunal sobre o caso do assassinato.
O Ministro disse que era impossível corresponder-se com o cônsul, enquanto este não lhe desse os quatro cates. O Cônsul respondeu estranhando esta deselegândia e dizendo que o monopolista Kimian tinha a responder por dois crimes: 1.º) o de assassinato; 2.º) de ter tentado subornar o intérprete do consulado e depois o próprio cônsul, entregando-lhe quatro cates de prata e prometendo-lhe muito mais dinheiro.
Mas se o Ministro julga que esse dinheiro estará mais seguro no Ministério do que no Consulado, ele lho enviará. Ele enviou-o ao Ministro. Este queixou-se disto a Eugénio Correia da Silva, Governador de Macau.
A 30-3-1878, Pereira escreveu a Correia da Silva, em resposta a um ofício de 28 do mês anterior, disendo:«nas fraquissímas condições em que está o consulado, melhor é não o sobrecarregar com a protecção dos chinas...
Os chinas podem apostar, viver e comerciar em Bangkok sem necessidade de passaportes ou de protecção de consulado algum.
Termina dando explicações sobre a questão dos quatros cates de prata (2). A 23 de Outubro de 1880, Marques Pereira remeteu ao Governador de Macau o projecto do tratado entre o Sião e a Inglaterra, combinado em Londres pelo embaixador siamês Chow Phia Khan Wongse; regressado recentemente a Bangkok
«O Conde Granville aceita esse projecto, mas unicamente no caso das outras nações o aceitarem» (3). A 28 de Janeiro de 1881, Pereira informou Joaquim José da Graça, o Governador de Macau e ministro plenipotenciário (1879-1883) que o rei do Sião ia nesse ano mandar uma embaixada à Europa, de que seria encarregado o próprio Kalahone, ou primeiro-ministro (4).
(1) Trata-se de Adeodato Francisco de Jesus, que nasceu em Macau, a 19 de Maio de 1841, sendo filho de Adeodato de Jesus e de Rita Josefa dos Remédios, neto paterno de Miguel de Jesus e de Isabel Lopes e materno de José Félix dos Remédios e de Ana Maria Correia. Ainda hoje há na Tailândia muitos descendentes desta família, alguns dos quais ocupando altos cargos do Governo e da Igreja. Nas nossas visitas no Sião conhecemos muitos deles: um é religioso redentista, sendo hoje bispo duma diocese na Tailândia, outra é Provincial das Irmás de Holy Infant Jesus nesse país; outro é alto funcionário do Governo, etc. (2) Processo n.º 164, série P. de 30-3-1878, Arquico Histórico de Macau, (3) Processo n.º 276, série T, de 23-10-1880. (4) Processo n-º 165, série N, de 20-1-1881 (De Monsenhor Manuel Teixeira, cremos do ano 1984). Com a data de 1 de Março de 1881, António Feliciano Marques Pereira redigiu um Relatório do Consulado em que nos dá interessantes informações em cima das inscrições no consulado:
1815................................................................................................................15
1860................................................................................................................. 6
1861..................................................................................................................3
1862..................................................................................................................2
1863..................................................................................................................1
1864..................................................................................................................5
1865................................................................................................................. 4
1866..................................................................................................................2
1867..................................................................................................................2
1868................................................................................................................24
1869................................................................................................................11
1870..................................................................................................................1
1872..................................................................................................................2
1873..................................................................................................................2
____
80 (total da soma acima)
O Consulado protegeu vários súbditos não cristãos, sobretudo chinas, idos de Macau.
Em 1871 - aparecem registados 1 muçulmano e 4 chineses; em 1872, um chinês; em 1873, até 19 de Maio, um chinês. Nesse ano de 1872 foram inscritos 368 protegidos chineses mas essas inscrições foram anuladas. Nos anos seguintes, M.Pereira registou 106 indivíduos:
1875.................................................................................................................42
1876.................................................................................................................13
1877.................................................................................................................12
1878...................................................................................................................7
1879.................................................................................................................12
1880.................................................................................................................20
___
106 (total da soma acima)
Os protegidos que não católicos:
1875..................................................................................................................12
1876..................................................................................................................11
1877..................................................................................................................11
1878...................................................................................................................7
1879...................................................................................................................8
1880..................................................................................................................16
____
65 (total da soma acima)
As naturalidades dos súbditos portugueses são as seguintes:
Lisboa.................................................................................................................5
Goa..................................................................................................................... 3
Macau...............................................................................................................20
Bombaim.............................................................................................................1
Singapura............................................................................................................1
Banguecoque.....................................................................................................11
___
41 (total da soma acima)
Profissões:
Vivendo em parte incerta...................................................................................9
Comerciantes.....................................................................................................10
Marítimos............................................................................................................ 7
Empregados do Governo siamês........................................................................6
Empregados do consulado................................................................................. 4
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36 (total da soma acima)

Desses 41 faleceram 4 e 2 ausentaram-se, ficando 35, devendo acrescentar-se 62 protegidos; os serventes destas duas classes são 274.
Marques Pereira descreve as orígens dos portugueses no Sião: «Por duas veses demos socorro a Siam em guerra contra os birmaneses, sendo a última em tempo da senhora D. Maria I. Ainda há poucas semanas o Kalahone (primeiro-ministro e ministro de guerra) em visita, sem que eu a este assunto houvesse aludido, fazia menção altamente honrosa do valor de tais auxílios, e me referia que duas das principais fortalezas que defenderam o Menam foram construídas por militares portugueses. Em 1852, sendo cônsul o macaista Marcelino de Araújo Rosa, ainda o corpo de artilheiros do palácio real de Bangkok se denominava artilharia portugesa.
Estas expedições auxiliares fixaram em Siam muitos portugueses, que se casaram com siamesas e tiveram descendência»
Falando da decadência do nosso comércio, escreve Marques Pereira: «Desde há anos que não existe comércio algum entre Siam e Portugal nem entre Siam e as possessões portuguesas. Veio apenas de Lisboa, em 1871 1 872, a galera portuguesa Viajante. Trouxe vinhos, aguardente, azeite, conservas e calçado e levou para Lisboa arroz, açúcar, teca, pimenta, peles, etc.
Um súbdito português residente em Siam, o sr. José Maria Fidélis da Costa, comprou em 1876 a barca Cap-sing-mun, que mais tarde chamou Ana Rosa. Empregou-a em fretes, com vantagem, para Singapura e Hong Kong, mas teve de a vender, em fins de 1877, por ser velha. Já antes utilizara de modo igual a escuna Lusitânia, que ele mesmo fizera construir nesta cidade e vendera em 1870».
Sobre os macaenses no Sião, Marques Pereira descreve-os:«Sóbrios e pacíficos, mas incompletamente educados e assim pouco enérgicos




e perseverantes, não sobem geralmente das tentativas de um comércio modestíssimo, ou da posição de empregados secundários das casas comerciais estrangeiras, e ainda aí, não só as alemãs em começo de carreira, mas a raça activa e esperta dos chamados babás ou chinas dos Estreitos, lhe fazem de dia para dia competência mais grave. A navegação mercante de vela com bandeira siamesa, que facilitava aos portugueses a profissão de capitães e pilotos, decresceu com o aumento de vapores à quinta parte do que era em número de vaos não há muitos anos, baixado também os salários e o ensejo de obtê-los, por crescer a oferta de marítimos suecos, dinamarqueses, alemães e outros.
É certo, porém, que a vida em Siam é fácil, ou pelo menos barata. Os portugueses que para aqui emigram, não só de Macau, mas de outras procedências, fixam-se em geral no país, e não raro criam plantações e outras propriedades. Ligam-se frequentemente com a população indígena por casamentos, etc., mas conservam, sem modificações importantes, os usos, a língua e a religião pátria. Vivem, quási todos em Bangkok, e são unidos no amor da sua nacionalidade.
A opinião geral acerca desta pequena colónia é não ser rica, nem muito instruída e empreendora, mas ser honesta» (1)
Jacinto de Moura desfaz-se em elogios a Marques Pereira:«Desde essa data (2-10-1873) retomou o cargo, como encarregado, o secretário Joaquim Vicente de Almeida, até que, em 15 de Janeiro de 1875, tomou posse, como cônsul, António Feliciano Marques Pereira, pessoa de alto valor moral e mental e trabalhador infatigável, cujo nome está ligado estreitamente a Macau, pelo seus relevantes serviços ali prestados, entre os quais avultam, os seus importantes trabalhos de investigação histórica.
A ele se ficou devendo a conclusão do consulado por meio de um empréstimo que realizou»
Adiante se irá analisar o que o Cônsul Loureiro diz sobre Marques Pereira que o teria conhecido bem.
(1) Boletim Oficial de Macau, Vol.XXVII, n.º31,30-VII-1881 (2) Jacinto de Moura, I.c.,93.
José Martins
Fim da parte 17.ª
CONTINUA
P.S. Aparte das opiniões do autor, este, vai consultando, cópias, dos seus arquivos pessoais e como guião ( sem este não seria possível levar em frente este trabalho) a obra do Monsenhor Manuel Teixeira: "Portugal na Tailândia - Imprensa Nacional de Macau - Maio 1983.