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domingo, 19 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 9ª
António Frederico Moor o terceiro cônsul de Portugal no Reino do Sião
Pouco antes da saída de Marcelino Rosa, faleceu o Rei Rama III, sucedendo-lhe seu meio irmão que viria a ser coroado com grande esplendor. Antes que descreva a obra do terceiro cônsul de Portugal no Sião, vamos transcrever o que o português Carlos Caldeira escreveu em 1858: « O trono do Sião é ocupado por dois reis. O primeiro, Somdet Pha Maha Mongkut, chamado grande rei, mostra muita inteligência, e parece ter lido muito os livros europeus, sobretudo a história das dinastias reinantes. Possue vasto conhecimento das línguas orientais antigas; fala as línguas modernas melhor que nenhum dos seus súbditos; conhece alguma coisa de latin; e tão correntemente o inglês, que o escreve com grande facilidade. Assim, faz figurar, com ufania, entre os seus títulos, o de professor de línguas»
Carlos Caldeira, em 1858, descreve as festas da coroação do rei Mongkut, celebradas dois anos antes em Banguecoque, tendo o retrato da Raínha de Portugal na sala do trono: « O sobredito cônsul (aqui refere-se a Carlos Manuel da Silveira), foi demitido em 1833 pela sua incapacidade. Hoje ainda alli temos um macaista Marcelino de Araújo Rosa, e ainda a nação portuguesa é a única que gosa de tal privilégio em Sião onde a nossa bandeira é respeitada há mais de 3 séculos. Recentemente alli ocorrerarm factos bem curiosos, comprovativos do prestígio de que ainda gozam os portugueses nestas partes. Em Abril de 1852 (aliás 1851) faleceu o velho rei do Sião com 63 anos de idade, e 27 de reinado, e o conselho supremo, composto por princípes, mandarins, e outros dignatários chamou para ocupar o trono o princípe Somdet Phra-Paracinde-Mahá-Mong-Kut. Logo que o novo rei foi proclamado, lhe dirigiu o nosso côncul uma carta de felicitaçóes, que foi entregue por via do mandarim Pascoal Ribeiro d´Albergaria, que serviu de capitão do porto, e intérprete do Estado, por quem o rei mandou agradecer, convidando o cônsul para a festa da sua entronização que teve lugar em 15 de Maio immediato. Dizem ter sido das mais brilhantes de que há notícia em Sião. O rei tinha na sala do do trono, , aos seu lado no lugar mais nobre, o retrato da rainha de Portugal, a quem trata por irmã, e ali recebeu felecitações de vários dignatários, co cônsul portuguez, e dos negociantes e missionários estrangeiros, assegurando a todos que permitia a continuação dos estabelecimentos estrangeiros, tanto comerciaes como religiosos; depois os convidou a um jantar, preparado à europeia, no fim do qual distribuiram aos convidados algumas flores de ouro e prata, e moedas dos mesmo metais. No dia 20, houve uma grande procissáo, ao uso do país, que o novo rei acompanhou, lançando ao povo moedas de prata no valor de um maz (130 reis); em 21, repetiu-se a mesma cerimónia no rio, sendo as moedas de prata lançadas à ágoa em paus boiantes de forma de limóes, e em grande profusão... A procissão compôs-se de 5.000 pessoas, e de muitos elefantes e cavalos ricamente ajaezados. Houve nestas solemnidades salvas de 21 tiros, e ainda a companhia ou corpo d´artilheiros denominada artilharia portuguesa. Entre os presentes que os príncipes ofereceram ao rei, figurou como especialidade o rabo de um elefante branco... Na última monção partiram de Bangkok 4 navios europeus; um para Cantáo com embaixadores, outro com fazendas para Hong Kong, e dois para Xangai. Para Macau já não há comércio algum, nem ali aportam embarcações siamesas, como dantes succedia, no entanto, conserva-se um consulado inútil, com o que se dispendem 1.000 patacas anualmente pela fazenda de Macau» (Nota: Carlos Caldeira, podemos considerá-lo um jornalista que efectuou uma viagem de Lisboa à China que viria a ser publicado aquilo que viu no Oriente num livro: "Apontamentos d´uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa». Parte 2.ª (Lisboa,1853), 7-8,.
António Frederico Moor, foi nomeado cônsul efectivo, em 22 de Março de 1855, e esteve no cargo até 28 de Abril de 1868. Foi, igualmente. encarregado, interinamente, de negócios da França no Sião.
Mas quem era António Frederico Moor?
Vamos transcrever como o Monsenhor Manuel Teixeira o descreveu: Hugh Moor, natural de Rotterdam, veio para Macau como médico da "Oast Indische Compagnie»; quando esta Companhia holandesa se extinguiu, o Dr. Moor fixou aqui resiência e aqui morreu. Era casado com Ana Maria Moor, natural de Macau, de quem teve ( que nós saibamos) dois filhos.
1. Ana Maria Doroteia Rosa; casou com José Osório de Castro Cabral Albuquerque, governador de Macau (1817-1823), de quem teve um filho, Joáo, nasceu a 13 de Novembro de 1821. António Frederico Moor, nasceu em Macau, a 19 de Agosto de 1807, e viria a falecer em Bangkolém, perto de Bangkok a 22 de Fevereiro de 1877; casou com Joana Maria Grandpré, nascida em Macau, a 21 de Maio de 1818, filha de Alexandre Joaquim Grandpré e de Juliana Antónia Alves, neta paterna de Alexandre Joaquim Grandepré e de Teodora Francisca de Paula Proença, e materna de Joáo António Alves e de Rita Catarina Quíncio. António Moor teve de sua mulher Joana Grandepré os filhos:
1. Emílio Aquiles Moor, nasceu em Macau a 27 de Fevereiro de 1843; faleceu solteiro na província de Muang-man, en Sião, em Agosto de 1870.
2. Hersília Victória Moor; nasceu em Macau, em Janeiro de 1844, e faleceu solteira em Bangkok a 21 de Setembro de 1870.
António Frederico Moor, que enviuvara, casou, outra vez, pouco antes de morrer, com Catarina Maria do Rosário, natural de Timor, a qual faleceu em Bangkok de hemoptise, a 31 de Agosto de 1877. Assim se extinguiu esta família. António Frederico Moor exerceu o seu cargo até 28 de Abril de 1868, sendo a sua gerência interrompida apenas em 1863, ano em que desempenhou interinamente, as funçóes consulares Joaquim Maximiano da Silva. (Dado que náo temos informação sobre o motivo que o Moor, teria entregue a gerência a Maximiano da Silva, prevemos que deveria ter-se deslocado a Macau).
O rei Rama IV comunicou ao nosso Cônsul o desejo de de assinar um tratado com Portugal. A Portaria do Ministério da Marinha e Ultramar a comunicar as instruções pelas quais o Governador de Macau e Plenipotenciário do Rei de Portugal para concluir e firmar até ao ponto de ratificação um tratado de amizade e comércio com o reino do Sião, Isidoro Guimaráes, se deverá reger no cumprimento da referida missão. (Sobre o conteúdo deste Tratado convidamos a um clique http://portugalnatailandia.blogspot.com/2007/07/texto-do-tratado-de-1859-entre-portugal.html um outro nosso blogue, onde foi inserido, o texto e a visita, a Banguecoque, do Governador de Macau Isidoro Guimarães).
Voltando a Sua Majestade o Rei Mongkut, Rama IV, nasceu em 18 de Outubro de 1804, denominado Príncipe Celestial de primeira classe, e viria a ser entronizado com o nome de Somdet-Phra-Paramender-Maha-Mongkut. Antes do falecimento de seu meio-irmáo, fora nomeado Director-Geral do Departamento dos Pagens Reais; aos 20 anos, recebeu a ordenação de monge budista, vivendo num templo durante os 27 anos do reinado de Rama III; estudou, profundamente, a religião budista a fundo, obtendo no exame o grau de "parien" (doutor).
Nomeado superior do Templo de Bouvinnivet em 1837: tratou de purificar o budismo e viria a fundar a congregaçao de Tammayut Nikaya, daqueles que aderem à lei.
Com os seus amigos, os missionários americanos, Reverendos Dr. B. Bradley e J.Caswel e o latim com Monsenhor Jean Pallegois, bispo titular de Mallos e coadjutor do vigário apostólico do Siáo (1838-1842). Rei Mongkut foi o primeiro monarca siamês a falar e a escrever a língua inglesa. Carlos Caldeira informa:«Por falecimento do cônsul Rosa, foi nomeado macaense, António Frederico Moor, que hoje (1858) reside em Bangkok, e de quem recebemos cartas recentes, que suscitaram escrever este artigo: É só pelo antigo e arraigado prestígio do nome português, que o nosso cônsul goza da estima e consideração da corte de Bangkok. perante a qual é também interinamente encarregado de negócios da França, o que é bem significativo...
Concluiremos esta notícia transcrevendo do jornal francez La Press, o que publicou sobre este assunpto no meado de março último, ignorando a nossa incúria e a verdadeira causa do~favor que gozamos no Sião.
«Muitas potências ocidentais tèm feito novos tratados de amizade e comércio com o reino do Sião. Os portugueses e os franceses, ingleses e americanos têm hoje direito de se estabelecerem em Bangkok, de comprar propriedades e de se entregarem a todas as indústrias que julgarem proveitosas.
Podem igualmente, sobre condições razoáveis, importar e exportar géneros no país e do país.
Há, portanto, grande vantagem nestes trabalhos; mas cumpre que não se deixem cair em desuso, aliás acabarão por si mesmos. Esta observação cabe principalmente à França, que por descuido tem perdido as vantagens do tratado que fez.
Portugal, Inglaterra e os Estados Unidos mandaram cônsules para Bangkok e, semelhantemente muitos estabelecimentos industriais naquelas regiões são protegidos pelos seus respectivos governos. Resulta daqui que os súbditos destas três nações acham ali protecção.
Porque não fará o mesmo a França?
O redactor da Press ignorava que o poderoso império francês é representado em Sião pelo humilde cônsul de Portugal, a quem incumbiu tais funções mr. Montigny, cônsul de França em Shangae (na China), quando foi a Bangkok negociar o tratado»
«O Rei Mongkut tem perguntado ao cônsul porque não se apressa a fazer tratado que o equipare às nações que os têm com Sião. É verdade que os nossos navios, que de Macau vão a Bangkok, gozam dos mesmos privilégios, e pagam os mesmos direitos que os das nações que já têm tratados; mas isto é pura cortezia e favor do governo siamês, que nos pode retirar quando bem lhe prouver. Esta circunstância, lisongeira para Portugal, mais devia determinar o governo, ainda que só fosse por espírito de grata civilidade, a realizar quanto antes uma convenção da qual o reino e mais particularmente as nossas províncias da Ásia e da Ásia Oriental poderão colher vantagens muito reais».As nações que firmaram tratados de amizade e commércio com o Sião neste reinado foram as seguintes:
Em 18 de Abril de 1855, foi assinado o tratado anglo-siamês por John Bowring, governador de Hong Kong, enviado pela Raínha Victória.
A 29 de Maio de 1856, novo tratado de Amizade, Commércio e Navegação com E.U.A., assinado por Townsend Harris, Cônsul-Geral da América no Japáo, enviado ao Sião pelo Presidente Franklin Pierce; no mesmo ano 1856, Tratado franco-siamês, assinado por Mr. de Montigny, enviado por Napoleão III: em 1856, Tratado com a Dinamarca; em 1860, com a Holanda; em 1862, com a Prússia; e em 1868 com a Suécia-Noruega, a Bélgica e a Itália.
O cônsul A.F. Moor informou Portugal dos desejos do rei Mongkut para que lhe fosse enviado um ministro com poderes para efectuar um tratado de aliança com o Sião.
O Minsitro escolhido foi Isidoro Francisco Guimarães, Visconde da Praia Grande, Governador de Macau e Ministro Plenipotenciário de Portugal às cortes da China, do Japãõ e do Sião (1851-1863), que concluiu o tratado com o Sião em 1859.
José Martins
Fim da parte 9.ª
Fontes: Várias dos nossos arquivos.
CONTINUA

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL NA TAILÂNDIA - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 8
Consulado de Marcelino Rosa
Como se afirmou na parte anterior a gerência do consulado por Marcelino Rosa não foi brilhante, acomodou-se com a comunidade, residente, inglesa e a americana e foi vivendo ao sabor, do passar, do tempo.
Os navios portugueses que tenham navegado para o Sião, apenas se conhece, ter sido o brigue "Feliz Viana", saído de Goa com destino a Macau e Sião.
Uma recomendação do Governo de Goa para o Leal Senado, era o de haver toda a conveniência de se incentivar os comerciantes de Macau de que enviasse um barco, por ano, ao Sião. Tal não viria acontecer e se houve alguma navegação e
permuta de mercadorias teria sido através dos juncos chineses.
De facto o cônsul Marcelino Rosa não poderia fazer mais do que ajustar-se às manobras de Robert Hunter, que nos anos 1833 era o único mercador, europeu, estabelecido, em Banguecoque, sob as graças e protecção do Rei Rama III.
O Hunter era útil à corte pelo facto de ser o elo de ligação, na parte linguística, entre os americanos e ingleses que se expressam na mesma língua.
Bem se pode considerar um novo Constantino Falcão, quando a nova capital do Sião despertava e tinha servido na corte do Rei Narai, como primeiro ministro, em Lopburi, promoveu e foi concretizado o relacionamento com a França, que viria a redondar num fracasso.
O Rei da Tailândia não desconhecia o poder de compra e economia dos países do Ocidente, mas tinha fortes razões para desconfiar da seriedade deles, dado que os franceses, no consulado do Rei Narai, tentaram arrebatar a soberania do Sião e colonizá-lo, na década oitenta do sec. XVII.
Portugal teria sido a aposta certa do Rei Rama II para encetar o relacionamento com as nações estrangeiras e o internediário para lhes vender o que no Sião, de abundância, havia. A tradição de boa vivência que os portugueses tinham construído, por mais de dois séculos e meio, em Ayuthaya; com ausência de problemas políticos e sociais era o suficiente para que o monarca siamês tivesse plena confiança em Portugal. Além do mais a língua portuguesa foi a franca e o meio de comunicação com estrangeiros. Todos os que do Ocidente aportavam os seus navios no rio Chao Prya, tinham por obrigatoriedade de trazer com eles alguém que falasse a língua portuguesa. Marcelino Rosa, que muito bem conheceu Carlos Manuel da Silveira e as dificuldades que se lhe depararam, durante os seus 12 ou 13 anos que assumiu a gerência do consulado, não pretende envolver-se nelas e vai procurar viver da melhor forma que puder e aproveitar-se da oportunidade, do desleixo e o desprezo da hierarquia de Goa, do Leal Senado de Macau pelo Sião.
O Rosa não recebia os montantes que lhe eram necessários de Goa e Macau para o funcionamento do consulado; do serviço de chancelaria, embora houvessem umas poucas "moedas", entradas, de algum assento ou passaporte emitido a portugueses, residentes, em Banguecoque não era o bastante para manter as depesas do consulado. Aquela larga parcela de terreno doada para o fim de ser instalado um estaleiro de construção de navios, instalar uma Feitoria, estava para ali devoluto com uma casa, construída em cima de estacas, ao fundo ao lado direito e a um canto. Os portugueses que ostentavam o poder hieráquico continuavam a viver sob a "calaceirice", na Índia portuguesa e em Macau. Os hábitos e os vícios de um passado, mais ou menos de abastança, mantinha-se absolutamente vivo. A fidalgaria, a chaga de Portugal, que se implantou na Índia seguia num viver de ociosidade à sombra dos galões e dos favores da corte.
Os termos de governação dividiam-se em curtos prazos para dar lugar a outros, para com isto não fossem criados atritos, entre a classe e teria que haver a uma perfeira harmonia onde, entre eles, não havia escrúpulos de roubar o mais que possível da fazenda de el-rei.
Mais em Goa do que em Macau a vaidade era de tal ordem que caminhavam pelas ruas os escravos carregando as senhoras, aos ombros, esposas dos nobres, em liteiras para visitas ou ao Domingo assistirem a cerimónias religiosas na catedral. Atrás mais uma legião de escravas, carregando a "escadinha", a almofada para a dama descer da liteira e um tapete onde a nobre caminharia até à entrada da nave do templo religioso.
Os filhos montando cavalos, galopavam em largas correrias, pelas praças de Goa e às janelas as damas, casadoiras, aos "guinchinhos" a admirarem aquela jovem "pacotilhagem". Mas se aparecesse um português que não era dado a fidalgarias e a "calaceirices" onde dentro de seu ser vivia o sentido "pátrio", a honestidade se levantasse a sua voz seria, de imediato, homem a abater. Assim aconteceu ao Ouvidor Miguel de Arriaga e ao Carlos Manuel da Silveira, que seriam totalmente desprezados e morreram na miséria. Quatro anos depois (1824) de Carlos Manuel da Silveira se instalar em Banguecoqueo o aventureiro inglês Robert Hunter (Roberto Caçador), ganha pé e, em verdade, nada se conhece sobre os seus princípios, de vida mas mais um aventureiro, em procura de riqueza no Oriente. A Inglaterra depois de dominar a Índia expande-se para o Sudeste Asiático, em 1803 já dominava o comércio da Birmânia; senhora do porto de Mergui, do controlo do Estreito de Malaca e do continente malaio; retira Batávia (Indonésia) aos holandeses; o Capitão Cook , e 1770 explora as costas da Austrália e apodera-se dela. Fixam-se em Hong Kong, antes um abrigo de piratas do Mar do Sul da China, sem autorização e assenhoram-se do território, em 1842, pelo tratado de Nankin. A inglaterra é o maior império colonial do Mundo que tinha pertencido aos portugueses. Antes de 1820, em Banguecoque, além dos juncos chineses, as navegações de países, raramente apareciam no Chao Prya. Os siameses, depois de meio século da queda de Ayuthaya, retomaram, na nova capital, o seu tradiconal estilo de vida. Rei Rama III é um monarca de paz e protege os seus súbditos, não permite que estrangeiros, praticamente só chineses que possam adquirir terrenos ou construirem casas em solo firme, mas poderiam faze-lo sobre estacas nas duas margens do rio.
Por isso, vamos encontrar em documentos antigos a autorização, de chineses portugueses/protegidos, estabelecerem-se com jangadas na margem do Chao Prya, com o aval do consulado, para venderem vinho de arroz. Os ingleses depois de toarem conta dos portos comerciais da Índia e do Sudeste Asiático na sua agenda está açambarcarem, igualmente o Sião. Porém não lhes era fácil porque sabiam que a entrada única, viável, na altura para a conquista do território seria, pela saída do golfo do Sião e entrada pela embocadura do rio Chao Prya, vencerem os 20 quilómetros e fácil para os siameses, das margens do rio lhes fazer gorar os intentos. Em 1821 os siameses atacam de surpreza Kedah (Malásia) e derrotam as tropas, sob o comando do filho do Sultão; depois de vencido, foge para Penang, província de Wellesley, dominada pelos ingleses e fica sob a protecção deles. Os siameses a todo o custo desejam capturar o fugitivo, dado que Kedah e Penang, eram territórios que pertenciam ao Sião e os sultões tinham, por obrigatoriedade, de prestar vassalagem ao monarca siamês.
Nova armada siamesa larga do rio Chao Prya e segue para Penang, no propósito de prender o rebelde fugitivo. No porto de Penang está ancorada a fragata de guerra, inglesa, "Nautilus" e o comandante do navio dá ordens aos artilheiros para disparar sobre as embarcações siamesas. Entretanto os siameses em desvantagem com a artilharia naval inglesa retiram-se, navegam mais para o sul e entram no porto de Perak, que lhes pertencia a soberania e dali preparem um ataque a Selangor.
Porém aqui são recebidos com uma calorosa recepção e aconselhados de não seguirem para Ligore. Esta incursão, naval, siamesa viria produzir um certo desconforto perante os ingleses que bem lhes poderia vir prejudicar as transações comerciais da região, nas mãos deles e o controlo absoluto do Estreito de Malaca. Vêm nisto que há necessidade imperativa de encetar relações, diplomáticas com o Sião. Os ingleses levam a cabo o primeiro atento para abertura de negociações, com uma abordagem do coronel, Symes mas, na primeira tentativa, foi mal recebido pelas autoridades siamesas. Os ingleses não pretendem usar a força para penetrar no Sião e em vez desta a diplomacia. O relacionamento, preliminar, foi efectuado por John Crawford, um diplomata colaborador de Stamford Raffles, em Singapura, académico, exprimindo-se na língua malaia e um experimentado conhecedor da Ásia. Em 26 de Março de 1822 está em Paknam, na foz do rio Chao Prya com o naturalista, inglês Finlayson, a bordo do navio "John Adam" , aguardando autorização para navegar até Banguecoque. John Crawford, mais seus acompanhantes, ficam hospedados numa residência, junto à margem do Chao Prya e, estão constantemente, sob vigilância de gente, de confiança, ligada à corte.
As conversações com a corte do Sião são efectuadas em inglês, traduzidas para o português e depois para a língua siamesa por luso descendentes. O cônsul português Carlos Manuel da Silveira, embora não tenha acompanhado John Crawford à corte, ofereceu-lhe seus préstimos com tradudores, convidou-o para visitar o consulado foi dado como uma pessoa diligente, acolhedora e que se expressava na língua inglesa e razoávelmente na francesa. A missão de John Crawford não teve o sucesso esperado, pelo facto de ainda haver o ressentimente das incursões dos siameses a Kedah e a Penang de não estarem esquecidas pelo Rei do Sião. Passado quatro anos a 20 de Junho de 1826 o Capitão Burney, com algum sucesso, consegue o primeiro tratado de comércio e que os cidadãos ingleses poderiam viver no Sião, mas com algumas restrições e teriam de se sujeitar à imposição da lei e costumes do Sião. As sólidas relações diplomáticas entre o Sião e a Inglaterra só viria a ser concretizadas em 1855 com a vinda do Governador de Hong Kong John Bowring, com o Rei Mongkut, Rama IV. Principia uma nova era de progresso para o Sião; a cunhagem de moeda a invasão de súbditos ingleses; Rei Mongkut contrata, estrangeiros de várias nacionalidades e especialistas nas diversas áreas de administração e o Sião avança, sem estagnar para a modernidade. Com os ingleses, como já se disse, chegaram os missionários baptistas americanos que antes de construir as suas próprias instalações, ocupam o terreno do consulado/feitoria de Portugal, cedido pelo cônsul Marcelino Rosa, cujos documentos de autorização da ocupação não existem. Com isto tudo leva a crer que o Rosa ofereceu à sua "bonita" siamesa um pedaço de terreno, junto à margem do rio Chao Prya para construir uma casa. Não conseguiu pagar uma dívida contraída, aos missionários, de 90 dólares que perdeu no jogo e a congregação religiosa não esteve com outras medidas a de lhe tomar o terreno, mesmo sem qualquer documento, porque de facto não existia da parte do Rosa. Os ingleses com o acordo assinado com o Sião necessitavam de construir um consulado e aquele lugar seria o ideal para a chancelaria, junto ao rio Chao Prya e ao porto marítimo da capital. O cônsul Rosa já tinha morrido, embora sepultado a um canto do terreno da Feitoria (mais tarde exumadas as ossadas) já estava silenciada a sua voz e também para dar contas a quem de direito pela sua má gestão do consulado. Nem todas as culpas lhe podem ser atribuídas, mas, o maior quinhão, aos que governavam em Goa e em Macau que não tinham algum interesse em manter o consulado em Banguecoque ou incentivar o comércio entre o Sião e Portugal. Foi o real drama que se instalou entre certa sociedade portuguesa e como o ditado:"Nem lá vou nem faço nada". O drama, depois do cônsul Marcelino Rosa continua.... É que já lá vão 188 anos (1820-2008) e, sem pontinha de dúvida que seja o podemos afirmar, com conhecimento de causa que os progressos da representação diplomática na Tailândia se foram quedando no correr de quase 200 anos sem significado diplomático, cultural ou comercial. Se despertou por poucas vezes outros que se seguiram desprezaram o que foi feito. Uma missão diplomática não pode ser espaço para "calaceirice", vaidades balofas, floreira de rosas mal-cheirosas, mas sim para promover o comércio do pouco ou muito que haja para vender no país da pessoa que o representa. Foi pena que assim tenha sido depois de Portugal ter sido o primeiro país, do Ocidente, a conhecer o Reino do Sião e com o relacionamento, frutuoso, durante 256 anos na velha capital Ayuthaya.
José Martins
Fim da parte 8ª
CONTINUA

sábado, 11 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL E BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 7ª
Tratados entre o Sião e países estrangeiros


A 31 de Junho de 1826, foi assinado um tratado de amizade ente o Sião e a Inglaterra; porém esse tratado foi redigido e quatro línguas: siamês, inglês, malaio e português.
A 20 de Março de 1830, foi concluído o primeiro tratado entre os Estados Unidos e o Sião. O representante do Presidente Andrew Jackson e chefe da embaixada americana foi Edmundo Roberts que chegava ao Sião poucos dias antes no navio Peacock, que ia acompando da corveta Enterprise.
Um dos originais desse tratado foi escrito e siamês, e o outro em inglês. Ora, no tratado com a Inglaterra isso não chegava; e agora sucedeu o mesmo, pois os siameses ignoravam o inglês, e os americanos, o siamês, foram-lhe, pois, anexadas uma tradução portuguesa e outra malaia para servir de testemunho ao conteúdo. Edmundo Roberts recebeu dos siameses a alcunha de Emin Rabad (Nobre da América).
Em carta de 17 de Abril de 1833, o cônsul Silveira informava Macau de que ele dera e 15 desse mês um jantar ao Agente Diplomático Americano e ao pessoal da corveta e escuna. Lamentava ver os estranhos utilizarem-se do comércio siamês e nós não. Acrescentava que, se os portugueses quisessem pagar os direitos de 1700 ticais por cada vara siamesa pela largura de qualquer embarcação que levasse carga (e da que não levasse, 1500) medindo-se no meio do seu cumprimento, a toda a hora poderia sonseguir assinar um tratado de comércio.
Edmundo Roberts havia passado por Macau na sua ida para o Sião. Concluído o tratado, regressou aqui no mesmo Peacock e em Macau faleceu e sepultado no Cemitério Protestante.
Segundo o Monsenhor Manuel Teixeira foi colocado um epitáfio escrito em inglês que traduziu para o português: "Restos mortais do cavalheiro Edmundo Roberts, especial diplomata e agente dos Estados Unidos junto de algumas Cortes Asiáticas, o qual faleceu em Macau a 12 de Junho de 1836, na idade de 50 anos.Planeou e executou até ao fim sob instruções do seu governo, tratados de amizade e comércio entre os Estados Unidos e as Cortes de Muscate e do Sião.Erecta à memória do cavalheiro Edmundo Roberts, de Portsmouth New Hampshire, pelos cidadãos dos Estados Unidos residentes em Cantão, 1836".
Roberts faleceu quando se dirigia ao Japão com o fim de assinar um tratado entres os E.U. e essa nação. Como se pode verificar os Estados Unidos um país com pouco mais de meio século, independente, estende os tentáculos à Ásia e Extremo-Oriente em procura da concretização de tratados. Seus enviados, diplomatas, eram transportados em navio e com escolta de vaso de guerra.
Ora o cônsul Carlos Manuel da Silveira, econtrava-se em Banguecoque numa total desamparação que não duvidamos a sofrer a humilhação perante a chegada dos ingleses e dos americanos a Banguecoque com todo aquele aparato naval e com outras condições para firmar tratados que Portugal não tinha.
Dois enviados ingleses ao Sião, Dr. John Crawford (1822) e o Capitão Henry Burney, lidando de perto com Carlos Manuel da Silveira elogiaram-no como cavalheiro de fino trato e os ajudou no encetamento das relações com a Corte do Sião.
O Capitão Burney em carta que endereçou ao seu governo informava que o cônsul Carlos Manuel da Silveira e o Dr. John Crawford o tinham auxiliado em Banguecoque. Depois o Dr. Crawford no diário de sua jornada escreveu o seu diário o reconhecimento ao Sr. Silveira.
Conde do Rio Pardo diz que nomeara, cônsul, Carlos Manuel da Silveira por lhe parecer "inteligente e prudente". O historiador Syamananda, faz-lhe boas referências e uma figura popular no Sião. Mas Silveira teve pela frente as invejas, internas, da ainda pouca comunidade estrangeira, residente, em Banguecoque e ainda as que se movimentavam, contra sua figura e a de Miguel Arriaga, em Goa e Macau que os ia minando.
Foram as características, próprias, dos portugueses, vindas de séculos, onde os mediocres, procuram destruir, dentro da imbecibilidade, os homens com algum valor. A parcela de terreno doada aos portugueses pelo Rei Rama IV produzia muita inveja aos ingleses, e desta, partia o motivo, para que se acendesse a intriga e maledicência em desfavor do cônsul Silveira na corte siamesa. Mas dentro de toda a fama de mal visto o cônsul Silveira, as vozes discordantes, públicas, e cima de sua conduta partiam de umas poucas pessoas:" do Praklang e do historiador Ljungstedt" que bem eram suficientes para que a sua figura fosse mal vista perante os siameses, comunidade portuguesa, chinesa e malaia. Anders Ljungstedt, de nacionalidade sueca, por anos residente e Macau, mercador e historiador foi contemporârio de Silveira, censura-o asperamente sem razão alguma.Afirma que cônsul, português, em 12 anos de permanência no Sião não fez obra alguma a não ser a construção de uma casa para sua própria conveniência. A casa de conveniência não era mais que uma barraca erguida em cima de toros de árvores, com divisões de canas de bambu, barradas com com lama seca e uma varanda, virada para o poente, para que ao fim da tarde, antes que o espaço não fosse invadido de "mosquitada" tomar algum ar fresco vindo da corrente da águas do rio Chao Prya. Bem prova temos do que escrevemos, isto porque, num desenho elaborado, pelo jornalista inglês Fred A.Neale,em 1848 (gerência de Marcelino Rosa), a casa ainda se encontra como Carlos Manuel da Silveira a tinha mandado construir para nela viver e, certamente, com anexos para o pessoal que o servia.
O sucessor Marcelino Rosa, não fez obra nenhuma, durante os 23 anos de cônsul; mas acomodou-se de forma diferente, com a comunidade estrangeira; fazendo amizade com o inglês Robert Hunter e com outros residentes cujo o orgulho de português e homem de acção não lhe permitiu.
Monsenhor Manuel Teixeira interroga: "Construiu algum navio? Concluiu algum tratado?Aumentou a Feitoria? Ou, pelo menos, restaurou a mesma?" E aponta-lhe o dedo incluindo António Frederico Mor, como representantes de Portugal que nada tenham feito a não ser o de cônsul.
Consulado de Marcelino Rosa

A 31.12.1831, o Senado infomou o vice-rei da Índia que é notória a boa inteligência e proibidade, com que se portou o dito Marcelino todo o tempo, em que teve a seu cargo a feitoria portuguesa de Banguecoque. Depois da gerência interina, regressou a Macau, em 1831. Em 16.5.1832 o vice rei de Goa oficiava o Leal Senado de Macau:
"Atendendo as repetidas instancias dirigidas pelo Rey de Siam a este Governo, e ao Leal Senado de Macao, para ser removido do lugar de Consul, e Feitor da Feitoria Portuguesa sita em Bangkok naquelle Reino Carlos Manuel da Silveira, que tem exercido, Hey por bem dar a este por findo, e acabado o dito Lugar; e tendo respeito ás boas informações prestadas pelo dito Leal Senado a favor de Marcelino d´Araujo Roza, que já fora por algum tepo, encarregado dos negocios da dita Feitoria e dera boa conta delles, servindo sem nota, e conciliando a estima, e consideração do dtiro Rey, e seus Ministros", nomeio-o Cônsul e Feitor.

A 15.10.1832, o Senado comunicou a Marcelino esta nomeação de 16.5.1832.

Ao Rei de Sião escreveu o mesmo Vice Rei da Índia, uma carta datada em 30 de Março de 1832; a 12 do mesmo mês recebera pelo brigue Elisa a carta de 5.7.1831, que em nome do Rei lhe escrevera o Ministro dos Negócios Estrangeiros Praklang Chau Phaia Pra, "participando-lhe a conducta que Carlos Manoel da Silveira nomeado pela segunda vez por este Governo da Índia Portugueza nos Domínios de V.Magestade, tinha tido durante o tempo, que ahi exerceu este cargo da primeira vez atrahindo por ella, o que eu ignorava, o reparo, e dezaprovação de V. Magestade, dos seus Ministros, e perdendo a confiança dos Mercadores Siamezes, Portuguezes, Chinezes, e Mouros des Cidade Ayuthia (sic) V.Magestade por essa occazião na intelligencia, que sua demora nesse Reino certamente diminuira a amizade, que felizmente subsiste entre ambas as Nações, e significando-me os seus Reaes Dezejos que para a conservação da mesma amizade convinha mandar o mais breve possível outra pessoa capaz, que fosse encarregado do dito Lugar de Consul Geral, e Feitor e Lugar do dito Carlos Manoel da Silveira, para assim augmentar a dita amizade, e florescer para sempre. Por cuja razão condescendendo inteiramente com a Real Vontade de V.Magestade mando render ao dito Carlos Manoel da Silveira e en seu lugar tenho nomeado Marcelino de Araujo Roza, que por ahi está encarregado da dita Feitoria, e mereceo a Real Estima de V. Magestade e dos seus Ministros; rogo a V.Magestade se sirva por effeito da sua Regia Magnanimidade conceder-lhe a sua protecção, e favor, para que elle possa administrar os negocios da dita Feitoria em utilidade reciproca de ambas as Nações Portugueza e Siameza".
Acrescentada o V.Rei da Índia que o Rei do Sião continuasse a considerar Portugal como a nação mais favorecida.
A 6 de Maio de 1833, D.Manuel de Portugal e Castro, Governador da Índia acusava a recepção do ofício n.º 11, de Dezembro de 1832, em que o Senado lhe participava que Marcelino de Araújo Rosa, nomeado em 16.5.1832 cônsul da Feitoria Portuguesa do Sião, ficava de partir para o seu destino no brigue S.Francisco Xavier, e que com ele iria a guarda militar para render a outra, que ali estava, bem como os presentes para os magnates; este brigue só partiu a 15.2.1833, aportando em Bangkok a 4 de Maio. (Demorou a viagem de Macau a Banguecoque 71 dias).
Marcelino Rosa escreveu três cartas ao Senado a dar conta do que se passou após a sua chegada: uma de 15 de Maio e duas de 1 de Junho de 1833; remeteu outra do 1.º ministro do Rei do Sião com a lista dos presentes; e ainda a conta da venda dos presentes do Rei e do Praklang; e, finalmente 2 caixotes com cartas do Rei do Sião para o Vice Rei da Índia; tudo isto chegou a Macau no brigue S.Francisco Xavier que o levara a Bangkok. O Senado todas as cartas ao Vice Rei da Índia pelo navio Feliz Viana. A 18.4.1834, o Governador da Índia escrevia ao Leal Senado:
"Vi o que esse Leal Senado e escreveo em o seu officio documentado N.º 9 relativamente aos negocios de Siam, e correspondencia do novo Consul Geral Marcelino de Araujo Rosa, na qual se por huma parte observo os vivos desejos que o Rei, e Ministro daquelle reino mostrão de renovar as antigas relações commerciais com os portuguezes no mesmo pé das mais favorecidas Nações, por outra parte noto também o justo reparo do mesmo Soberano sobre a total falta de Navios da nossa Nação nos seus Portos, para gozarem das vantagens já concedidas, e de outras prometidas. Confio que esse Leal Senado prestará toda a atenção que pede a importancia deste assumpto, e as vivas recomendações da nossa Corte para se restabelecerem as ditas relações,persuadindo os Negociantes proprietários dos Navios dessa Praça a que dirijão as suas especulações para os mencionados Portos a fim de que não venham a perder o estabelecimento de huma Feitoria, que com tanto custo, o incommodo se tem conseguido, havendo por muito recommendado a esse Leal Senado que faça todo o esforço para que alguma embarcação dessa Praça vá commerciar a Bangkok coo muito deseja o referido Rei e seu inistro, tomando-se na devida consideração tudo quanto a este respeito te escrpto a este superior Governo, e a esse Leal Senado a actual consul Marcellino de Araujo Rosa"
A 24 de Abril de 1834, o Vice Rei da Índia deu autorização ao Senado para, juntamente com o Governador e o Ouvidor poder declarar livres de direitos no porto de Macau os navios portugueses vindos da Conchinchina,Cambodja e Sião. No mesmo ano e a 23 de Dezembro, o Senado solicitava ao Vice Rei da Índia permissão para que fosse adiada a execução da isenção de direitos. Não se tem conhecimento de resposta do Vice Rei.
Porém a 5 de Fevereiro de 1836, o Senado escrevia um ofício ao Governo de Goa sobre a inutilidade da feitoria de Banguecoque, as despesas que tinha de fazer com ela e ainda os subsídios anuais de Timor e Solor, declarando que ia prevenir esses dois estabelecimentos que de futuro não os ajudaria mais.
Em 9 de Maio de 1836, o Governador da Índia respondeu que não poderia fazer alteração algumas sem o consentimento régio. Entretanto o jornal de Macau "O Macaísta Imparcial" publicava: "Por cartas particulares do Consul Portuguez em Siam, datadas de 28 de Fevereiro e 16 de Março deste ano (1836) sabemos que a Feitoria Portugueza continuava frequentada de Estrangeiros; rende alguma couza, e a casa de rezidencia do Consul nunca esteve em melhor estado. Hum junco por nome "Emprehendedor" partio de Bangkok para Singapura com uma nova especulação, levando a bandeira Portugueza; o Consul accrescenta que esta embarcação he a primeira que sahio de lá com a bandeira Consituicional da Rainha".
Pela morte de Marcelino de Araújo Rosa, ficou encarregado do consulado, o secretário do mesmo, Joaquim Maximiano da Silva, que o geriu de 22 de Julho de 1852 a 22 de Março a 1855. Pouco antes da saída de Marcelino Rosa, vítima de um acidente em que morre afogado no rio Chao Prya, não muito distante da embaixada, faleceu o Rei Rama III do Sião e o princípio de uma nova era para o Reino com entronização do Rei Mongkut, Rama IV .
Nossas considerações relacionadas com a gerência do Consulado por Marcelino de Araújo Rosa: Foi absolutamente desastrosa para o relacionamento de Portugal e o Sião.
Consultamos a obra "Relações entre Macau e Sião" e apenas fomos encontrar um expediente de 18 ofícios recebidos e expedidos, em 22 anos, da gerência do Marcelino Rosa e poucas comunicações falam de incrementar o comércio entre Macau e o Sião, mas assuntos, relativos ao funcionamento e, falta de verba para o pagamento de ordenados.
Uma Portaria de 7 de Abril de 1845, do Ministério da Marinha e do Ultramar, dirigida ao Governador de Macau, a pedir-lhe informações acerca da Feitoria de Portugal no Sião, devido a uma Nota recebida do Leal Senado, em que era considerada desnecessária a conservação, da mesma, devido à supressão absoluta das relações comerciais com o dito reino.
Os esforços de Miguel de Arriaga e Carlos Manuel da Silveira, para enaltecer Portugal no Sião, mesmo lutando contra a intriga e a inveja dos estrangeiros que começavam a descobrir o Sião como uma "mina de ouro". Enquanto o cônsul Silveira nunca grangeou ou se acomodou com as simpatias de Roberts Hunter (o homem que dominava todo o comércio internacional) e com outros, muitos dos quais aventureiros em procurado "el dourado" na Ásia, o Rosa criou amigos, de outras nações e deixou-se corromper por eles.
Porém quem vem colocar tudo a limpo e a descobrir os actos ilícitos e corruptivos do Rosa, foi o jornalista/escritor inglês Fred A. Neale, que produziu um desenho do terreno do consulado de Portugal em Banguecoque, com uma enorme construção que é mais nem menos que a Missão Americana dos Baptistas.
A casa do cônsul, do pessoal que o servia é precisamente uma pequena, no lado direito da imagem e nas proximidades de uma árvore tamarindeira, que hoje, se encontra no mesmo local.
Com tudo isto nos leva a uma conclusão que parte parcela do terreno foi oferecida, pelo Rosa, à sua "bonita" namorada siamesa, onde lhe foi construída casa e, com isto, a rapariga se quedasse mais à mão do seu amor "platónico".
Não há documentos em arquivos, conhecidos, se refiram a essa construção ou autorização, de Goa ou de Macau, para o arrendamento do terreno onde lhe foi levantada.
Fred Neale salvou a história com o desenho!
Não conhecemos nenhum historiador, português, se tenha referido ao livro de Fred Neale "Residence in Siam at the Capital of the Kingdom of the Siam", editado em 1850, que adquirimos, há 30 anos, na livraria "Ásia Books", na "Sukhumvit Road", quando ainda para além das bermas, da larga e mais comprida avenida da Tailândia (ligando à estância balnear de Pathaya, cerca de 16o quilómetros) havia quintais com verdura e coqueiros.
O livro de Fred Neale, foi o primeiro que comprei, relativo à história da era de Banguecoque e que entre os milhares de livros que a minha biblioteca particular, comporta, tem aposto o número um.
Foi esta Obra a nossa inspiração e o prazer que nos dá em escrever sobre a história do relacionamento de Portugal com a Tailândia.
José Martins
Fim da parte 7.ª
CONTINUA

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 6ª
Silveira novamente nomeado cônsul
Vamos continuar a ter como guião, na narração do texto dos factos, os escritos de Capitão de Artelharia Jacinto do Nascimento Moura. Foi de estranhar que Carlos Manuel da Silveira pretendesse voltar novamente ao Sião. Pensamos e não deveremos estar equivocados que o teria feito para dignificar a sua imagem que tão arruinada ficou em Banguecoque, onde passou muito mal e vergonhas de estar por ali abandonado, juntamente com o pessoal que tinha chegado de Goa. Deveria, depois de saído de Banguecoque, ter colocado as coisas em "pratos limpos" perante o vice-rei da Ìndia. O diploma da sua nomeação reza: " Faço saber a vossa majestade que Carlos Manuel da Silveira, que, no ano de 1820, foi mandado a essa corte, regressou próximamente a esta capital Goa, e, tanto por êle, como pelo Leal Senado da cidade de Nome de Deus de Macau, fui sabedor de que vossa majestade acolhera benignamente ao comissário Miguel de Araújo Rosa que fõra mandado a essa côrte pelo Leal Senado, para congratular a vossa majestade pela sua feliz exaltação ao trono so Sião, para acabar quaisquer contas do conselheiro Miguel de Arriaga Brum Silveira, do dito cônsul e do seu escrivão Cipriano José Baptista, e para continuar a mesma amizade entre as duas nações, portuguesa e siâmica. E como estou informado dos seus reais desejos de que se renovem as antigas relações de amizade e comércio entre ambas as nações e sabendo por outra parte que a pessoa do dito Carlos Manuel da Silveira é grata a vossa majestade, tomo a deliberação de o enviar outra vez aos reais pés de vossa majestade com o mesmo carácter de cônsul e feitor que já teve nessa corte. Permita-me vossa majestade lembrar-lhe que o magnífico rei do Sião seu predecessor foi servido declarar que todos os vassalos portugueses, que fôssem negociar nesse reino seriam melhor tratados, que os das outras nações. Conviria muito quando fosse da soberana vontade de vossa majestade se concluisse o tratado prliminar que aí foi apresentado a vossa majetade em 1820. O mesmo Silveira porá aos pés de vossa majestade um pequeno presente de alguns artigos que tomo a liberdade de lhe oferecer".
A Silveira foram-lhe entregues instruções reservadas que se passam a transcrever resumidas:

"Para se levarem a seu devido efeito e cumprimento as reais ordens de el-rei nosso senhor de 30 de Abril de 1829, foi determinado ao Leal Senado de Macau, e a êste governo que se conservasse, e se não abandonasse a Feitoria do reino do Sião, pelo que nomeei a V.Exa., por portaria de 14 do corrente, geral e feitor da nação portuguesa. Recomenda-se por isso que se não deverá envolver em assuntos políticos naquele reino, devendo considerar a sua comissão restrita unicamente a promover as relações de comércio e navegação que nos forem possíveis na Ásia, pois a que por ora mais nos importa e não perder os pontos que possuímos e que hoje conservados podem segurar para futuro, talvez não muito distante, um amplo à nossa actividade e indústria, e sobretudo aos nossos sucessos livres oscilações que nos têm perturbado, sendo certo que uma das causas da nossa decadência na Ásia vem da incúria e culpável abandono em que temos deixado os nossos gloriosos frutos do esfôrço, e espírito empreendedor dos nossos Maiores. Solicitava toda as vantagens e aproveitará da inclinação que o presente rei mostra aos portugueses, favorável impressão que há-de ter deixado no seu ânimo e pagamento que êste govêrno lhe mandou fazer das cinco mil e tantas patacas que há anos lhe ficara devendo o defunto conselheiro Miguel Arriaga pagamento com que parece ele já não contava. Tornará seguros e estáveis os direitos das pessoas, propriedades e neutralidade dos vassalos portugueses que fôssem comerciar e navegar ao Sião. Aproveitará a indicação que o príncipe Cromachel manda a participar de que os portugueses pagariam somente 6% de direitos de importação ao contrário do que pagavam as mais nações. Que os soldados e inferior que deve ser pagos pela Real Caixa daquela cidade recebendo ali um ano de adiantamento". Ao Leal Senado escreveu o vice-rei da Índia para que adiantasse ao cônsul e ao seu escrivão mil taeis, pagamento dos seus respectivos ordenados e das despesas da Feitoria e sôldo do inferior e soldados que o cônsul devia levar de Macau para o que também na mesma ocasião dava ordem ao governador de Macau e Leal Senado para que cada um pela sua parte lhe proporcionasse, ao cônsul, escrivão e guarda, os meios de se transportarem para Bangkok permitindo ainda que o mesmo Leal Senado lhes pudesse aumentar os ordenados se assim o julgasse conveniente. Carlos Manuel da Silveira foi a Macau. Ali talvez de propósito demoraram-no e contrariaram-no por várias formas especialmente não lhe aumentando os vencimentos, como havido sido indicado anteriormente nas citadas instruções do govêrno de Goa. Por fim o Leal Senado adiantou o pagamento de um ano, tanto para o cônsul como a sua comitiva na importância de 1.400 taeis, e deu-lhe em adiantamento umas instruções referentes aos interesses de Macau. Carlos Manuel da Silveira seguiu, por fim, no brigue Feliz com a sua comitiva e guarda, sendo-lhe entregue a gerência da Feitoria, pelo cônsul interino, Marcelino de Araújo Rosa, em 19 de Abril de 1831.
Carlos Manuel da Silveira é mal recebido no Sião e substituído por Marcelino Rosa
Não existe barco português que lance a âncora no porto de Banguecoque e isto não agrada ao governo Siamês. O Praklang (primeiro-ministro) a pessoa ligada ao Rei considera que é inútel levar-se a efeito o tratado preliminar e "que o rei poderia considerá-lo como brincadeira". Silveira, de certo modo ofendido apresentou, ao Praklang, as razões da falta de navegação e que a ele, de forma alguma, se lhe poderia atribuir a culpabilização. O Praklang respondeu a Silveira e informa-o que o rei já havia escrito uma carta ao vice-rei da Índia, dizendo que não consentia tal cônsul no seu país mais que um ano (1). Houve uma natural indignação do cônsul português Silveira e levou-o a pedir ao Praklang uma justificação pública de tal procedimento indicando-se " o distúrbio ou mal que havia causado áquele reino ou a seguir uma pessoa". Comunicado o facto ao Leal Senado de Macau, pediu a Silveira que quando escrevesse ao rei do Sião se lhe "não solicitasse desculpas para o cônsul ou relevasse alguma falta, mas que o Senado exigisse uma miúda declaração das suas faltas, para que êle respondesse por elas". Isto parece provar que o cônsul não receava que lhe imputassem faltas. Vejamos, porém, quais os motivos que provavelmente originaram tal má-vontade para com Carlos Manuel da Silveira. No modo de ver dêste, pretendia-se que êle fosse substituído por um outro cônsul, "facto de todos os conhecimentos e que não soubesse fazer a sua obrigação, para o Sião judiar dêle", e ainda atribuia tal atitude aos presentes que havia levado, "que não eram próprios do decoro do rei daquele país". Nas costas do cônsul Silveira a intriga e as manobras do inglês Robert Hunter estava a produzir efeito, isto porque tornara-se um comerciante famoso no Sudeste Asiático, onde todos os barcos de países ou ainda colónias de expressão de língua inglesa tinha por obrigatoridade de contactar o Hunter. Homem de poucos escrúpulos e ambicioso em tudo que fossem negócios e daí lhe viesse dinheiro, assim tinha acontecido quando na província de Samut Songkran encontrou, dois irmãos siameses, a nadar num rio e desde logo ali lhe veio à mente uma forma de fazer lucros, negociando-os, para que fossem mostrados ao público da Europa e América. O Hunter estava, demasiadaente introduzido na corte com uma influência mais vantajosa que de qualquer outro representante português no Sião. Ali imperavam os negócios e o Hunter realizava-os e o Sião pretendia exportar o muito que produzia. Com isto o inglês/escocês, com outros seus compatriotas promoveram a desconfiança para com o cônsul Silveira e o amesquinhamento dos portugueses, indo oferecer ao rei e ao ministro, no mesmo dia que Silveira, lindos presentes que valiam 4.000 taeis, "de modo a deixarem quási impercetíveis os nossos". Segundo o Capitão Jacinto Moura: "Esboçava-se então o predomínio inglês no Extermo-Oriente. As tentativas do marquês de Wellesley e a do almirante Drury de tomar Macau, sob o habilidoso pretexto de defenderem aquela nossa colónia de um ataque dos franceses, haviam falhado. Cantão oferecia um constante perigo, além de ameaçar a saúde dos europeus que ali habitava, forçando-os a deixar as suas famílias em Macau. Originaram-se então, ali, neste primeiro quartel do século passado, atritos e más vontades entre os ingleses e portugueses, os quais nem pelo facto da secular aliança política entre Portugal e a Inglaterra, se conseguiu dissipar. Macau ainda representava um valor económico importante no comércio asiático (2) que só se perdeu alguns anos após a fundação de Hong Kong. A Inglaterra disputava-nos a influência comercial nos portos onde o nosso nome ainda tinha algum prestígio e valia. Numa pertinácia própria dos anglo.saxónicos, numa força de vontade que lhes é própria, aliadas estas qualidades a uma previsão que nós não possuímos, os ingleses foram nos arrebatando, muito ociosamente, por toda a parte, o prestígio e o lucro do negócio. O Sião era um país que, ao passo que possuia riquezas grandes, não oferecia grande segurança ao comércio estrangeiro e defendia-se dos que pudessem absorvê-lo politicamente, conseguindo assim viver até nossos dias sem ser tutelado ou parcelado por potência alguma europeia, bem se podendo disso orgulhar e constituir, com Japão os únicos exemplo de países completamente independentes no Extremo-Oriente. Só Portugal tinha um território seu consulado o que era objecto de invejas e servia de incitamento a pressões sôbre o govêrno siamês, às quais êle ia resistindo, as que mais fácilmente seriam contidas com a supressão da feitoria concedida a Portugal.Dêste modo se advinha, claramente, a vontade do Praklang em promover uma ofensa a Portugal, na pessoa do cônsul, que por infelicidade nossa não tinha uma renumeração condigna nem tão pouco o prestígio para poder influir junto dos portugueses, que nesse tempo dirigiam a actividade política e comercial do abandonado Oriente, mal se podendo manter ali com a dignidade para o seu cargo e lucro para o seu país. Fossem, porém, quais fôssem os motivos o certo é que Silveira, que havia retomado o seu cargo em 19 de Abril de 1831, foi forçado a abandoná-lo em 1 de Abril de 1833, sendo substituido por Marcelino de Araújo Rosa, que se achava como escrivão e que a seu pedido tomou posse do cargo de cônsul em 18 de aio de 1833. Não tinha, porém, decorrido um ano para que êste último sentisse a falta de continuidade de pensamento político dos que investiram em tal cargo, vendo-se forçado a informar o Leal Senado de que se encontrava "exausto do necessário e até de alguns trastes e moedas de ouro que tinha para sua sustentação e a dos soldados, por falta de vencimentos que lhes não haviam sido enviados", e a recordar "que estava servindo em lugar remoto e num país onde não há remessas e a pobreza é odiosa, o que não podia deixar de ser de tristes consequências para o cônsul e ais empregados do estabelecimento"
(1) ÊSte facto tem sido comentado por alguns escritores estrangeiros com desfavor para Portugal, razão essa porque entendeu-se dever apreciá-lo com certo desenvolviento. Em carta para o Leal Senado, descrevia o vergonhoso estado dos objectos enviados, de presente, os quais estiveram para ser devolvidos. (2) Anos depois, e 1866, ainda o pôrto de Macau foi frequentado por 238 navios com uma tonelagem de 58.543, não incluindo os da carreira entre Macau e hong Kong.
Inquéritos em Macau a Arriaga e a Silveira
Como vimos, o Leal Senado de Macau não cumpria com o encargo de sustentar a Feitoria. Goa, que por vezes a amparava atribuia a Macau essa principal função. A Metrópole esquecida ou entretida com os problemas internos e com os caprichos da sua aristocrática côrte, deixava perder-se na memória dos tempos, já longinquos, o renome e poderio que outrora no Sião disfrutaram os portugueses. Albuquerque e Miguel de Arriaga já se haviam sumido no estreito coval onde com êle se afundaram os seus sonhos de patriotas e visionários. De resto a ideia da Feitoria fizera aparecer muitos "Restelos" em Macau os quais não só não lhes compreendiam a existência como atacava o seu criador. Daí resultou o negar-se ao cônsul o pagamento dos seus honorários, e por modos se procurar destrui-la. Por carta de Arriaga para Silveira se pode ser como tinha sido compreendida tal iniciativa. em tal carta censurava Arriaga os "míseres rivais", que todo criticam, dizendo: "Abrir o comércio, estabelecer Feitoria, alcançar terreno próprio para casas, permissão de construir navios e algum favor aos direitos, que mais pode querer-se?" "A seu tempo verão os incrédulos..." E a seguir: " As perturbações pela expedição a Timor e Sião era dirigidas mesmo de Malaca por Fr. Paulo que as iniciara em Macau". E lamentando-se por não poder dar a Silveira a "devida recompensa e apresentar-lhe o seu apreço", terminava exortando a "cuidar sobretudo em anter o decóro nacional, dê por onde der..." e dizendo: "continui com o mesmo zêlo que é a Sua Majestade que servimos". Tendo silveira requerido em Macau o pagamento dos seus vencimentos, não efectuados durante a sua estada da última vez no Sião, foram mandados realizar inquéritos, que terminavam por reconhecer que o "desvio do retorno" enegrecia a memória do conselheiro Arriaga e de algum modo também a do cônsul como instrumento. É longa e emaranhada a questão da responsabilidade de Silveira pela quantia de 3.000 taeis em que o Leal Senado ficou prejudicado. A verdade é que Arriaga morreu pobre, concedendo o govêrno uma pensão à família, e que Silveira chegou à mais desesperada situação e ao último apuro por falta de meios de subsistência, achando-se em Macau a morrer de fome, como declarava, depois de ter envelhecido prestando honrada e zelosamente serviço ao govêrno durante 15 anos, e não só não tendo sido renumerado como abandonado indignamente aos desvarios da sorte.
José Martins
Fim da 6ª parte
CONTINUA

terça-feira, 7 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 5ª
A FEITORIA

Vamos transcrever a Feitoria de Portugal tal como a descreveu o Capitão de Artelharia Jacinto José do Nascimento Moura nos anos (calculamos) de 1929 numa sua passagem por Banguecoque cujos textos foram publicados no "Boletim da Agência Geral da Colónias", nº 70 de Abril de 1931.
A Feitoria está situada num terreno baixo, a 13º 42´30´de latitude N. e 109º 50´30´ de longitude ao Oriente de Lisboa, na margem esquerda do rio Menam e a 25 milhas da barra de Bangkok. O terreno da Feitoria, na posse do consulado, que anteriormente à cedência a Portugal fôra ocupado por um príncipe anamita, confronta a Oeste com o rio "Menam Chao Phya": a Norte com um caminho público estreito que o separa de outros terrenos e habitações particulares: a leste com o caminho público ou rua "Bush Lane": ao Sul com o riacho "Klong Bang Rak", que separa a Feitoria da Central dos Correios e Telégrafo franceses, onde se encontrava outrora instalada a legação legação de Inglaterra.
A Feitoria tem actualmente de comprimento Norte-Sul à margem do rio Menam 113, 61 metros e lo lado oposto interior, 121,61 metros. De largura de Leste a Oeste, 87,78 metros. Norte do terreno, e 106 metros quadrados. Todo o terreno está dividido em quatro lotes.
A contar do riacho. O consulado encontra-se no segundo lote. Em todos os lotes há casas e armazéns, construídos pelos antigos inquilinos, hoje pertencentes ao consulado. Pelas informações prestadas pelo actual cônsul, tanto o consulado, como os armazéns estão em mau estado. Um ponto tem sido objecto de referências desfavoráveis para o cônsul Marcelno Rosa e desejo pôr em evidência. São as dimensões da Feitoria.Diz-se que este cônsul ofereceu uma parte ( a metade, supõe-se), do terreno a uma linda siamesa, a qual, para pagar uma dívida ao jôgo, hipotecou aquele terreno po 99 dólares mexicanos à missão americana dos Baptistas. Como a missão não fôsse reembolsada da importância emprestada ficou com o terreno. Embora não haja documentos que provem este facto, há tradição entre os siameses, que contam isso, e um velho missionário americano de nome L. Schmidt, que conheceu Marcelino Rosa, e que em Bangkok residiu por muitos anos, narrava várias vezes o facto, dizendo que se tinha passado com ele. Parece-me que tal facto se verifica comparando as dimensões do terreno apontadas na carta dirigida pelo primeiro ministro do Sião ao vice-rei da Índia, com a data de 9 de Novembro de 1820, atrás publicada, e as do que hoje está na posse do consulado. Calculando as 72 e 50 braças siamesas ali indicadas a 6,5 pés cada, e sendo cada pé 0,304, temos respectivamente de dimensões 142,272 num sentido e 98,80 metros noutro, o que é evidentemente diferente das que a actual Feitoria tém. Examinando-se o acto de posse do cônsul Carlos Manuel da Silveira, verifica-se que o terreno era dividido em duas partes quási iguais, separadas por uma pequena angra, sôbre a qual havia uma ponte.Esta angra deve ser sinónimo de riacho. como existe nas delimitações da actual Feitoria um riacho que a Sul a separa da Central dos Correios e Telégrafo, onde se achava a legação de Inglaterra, é naturalissimo que o terreno, que foi ocupado por esta legação, tivesse sido o que pertenceu à Feitoria. Aos investigadores e curiosos fica apontado este assunto (1) que se me afigura de algum interesse histórico e ainda que mais não seja, para perpétua condenação de um funcionário menos digno que o caso ou favor levou a tão melindroso posto no estrangeiro, que não soube honrar.
O Cônsul Silveira é substituído por Miguel Rosa
O cônsul Silveira ia-se malquistando no Sião, não apenas pelas irregularidades que, porventura cometesse, mas por intrigas de estrangeiros e má vontade (2) do Praklang. Em 1829 a situação do cônsul era tal que o Senado de Macau houve por bem mandá-lo retirar, enviando no brigue "Esperança" o morador Miguel Araújo Rosa para o substituir. Silveira dirigiu-se a Goa e Miguel Araujo Rosa pouco tempo se demorou no consulado, fasendo-se substituir por seu filho Marcelino de
Araujo Rosa, que o havia acompanhado. Pelo exame que temos vindo a fazendo acêrca da personalidade do primeiro cônsul do Sião, evitámos em classificá-lo, devido à situação de abandono a que vimos foi relegado o consulado quer por Macau, que por Goa, quer ainda pela Metrópole que nada resolviam quanto à parte importante da sua sustentação, entretidos todos mais nas lutas internas do que no prestígio do nome português no estrangeiro. Seria ele de facto, um dêsses indivíduos imorais a quem por incúria na selecção, ou falta de rigor na punição, esteve confiada a representação de Portugal num país distante, ou seria pelo contrário, por ilógico que isso pareça, um patriota devotado ao seu país acolmado de relaxo?
Não têm sido raros os exemplos que a História nos regista de factos dessa natureza. Os mais dignos filhos de Portugal têm sofrido da injustiça dos seus concidadãos.
Não foi Camões, o cantor imortal das nossas glórias, de Macau a Goa a dar conta dos espólios; e Albuquerque o aguerrido conquistador e o criador do Império Oriental Português, acusado por dever ao tesouro e por fim de morto pela inveja e pela ingratidão de quem o devia admirar e galardoar?
Se o Oriente foi a nossa ruína como o disse Oliveira Martins, aliás exagerado no seu conceito, devemos confessar que ela se deve mais aos nossos dissídios caseiros, do que à insuficiência dos meios para arcarmos com a obra que inicialmente nos propusemos ali realizar.
Haverá, pois, também que filiar a má reputação de Silveira no campo vasto da ingratidão e injustiças humanas. mas quem poderia invejar um cargo de cônsul sem receitas, com fracos honorários e tardiamente ou nunca pagos?
(1) Creio não seria agora difícil averiguar este facto nos arquivos da Missão Americana dos Baptistas ou mesmo na Legação de Inglaterra. Apesar de não nos termos poupado a longos trabalhos para fazer esta resumida notícia, não pudemos ir mais além.
(2) Pelos conselhos prestados por Silveira ao seu sucessor Rosa se vê que alguma coisa deve ter haviso de má vontade do Praklang que tivesse concorrido para o mau conceito em que as autoridades siamesas tinham o cônsul Silveira.
Assim dizia este seu sucessor Rosa.
"Se os negociantes de Macau tomassem peito a convencer este Rei de que a dificuldade de virem navios era tão sómente por não haver um tratado, que estipule com estabilidade a redução de direitos e franqueza de comércio, deveriam associar-se os mais poderosos entre eles e mandarem um navio de 200 a 300 toneladas tão sómente destinado a comerciar em Bangkok, e então veriam o que resolveria o mesmo Rei e o seu Praklang fazendo o cônsul a êsse tempo persuadi-los (ao Rei e Praklang) que com efeito os negociantes de Macau mandaram este navio estando animados a fazer frequentar o pôrto de Bangkok, visto que Sua Majestade prometeu redução de direitos e liberdade de comércio como convém; então não sei que desculpa poderá produzir o Rei e o seu orgáo, o Praklang; ainda que o resultado não fosse o deejado, a perda não seria demasiada aos interêsses do navio porque, carregado com géneros dêste país à custa deles, não deixarão de salvar as despesas". (1) referindo-se a Silveira disse um seu contemporâneo Miguel Rosa, que ele possuia "génio altivo e governativo, e ao mesmo tempo que possuía qualidades de trabalhador e de tal modo que pôde fazer chegar os seus clamores aos pés do trono".
Nota nossa: O cônsul Carlos Manuel da Silveira, pelo que já temos lido e escrito em cima da sua obra e personalidade era a pessoa certa para ocupar, a posição de o primeiro cônsul de Portugal no Reino do Sião. O Conselheiro Miguel de Arriaga, tinha o Carlos Manuel da Silveira como um homem de sua confiança e, até, pertencia a sua família, encarregou-o para representar a coroa portuguesa junto à coroa do Sião.
Miguel de Arriaga nasceu em Macau, filho de José de Arriaga Brum da Silveira, natural do Faial, Horta, Açores que teria vindo para Macau em comissão de serviço do Estado. O nome de Miguel de Arriaga ficou imortalizado em Macau depois de sua morte e a justiça foi-lhe feita! Uma avenida que não há residente de Macau não conheça: "Avenida do Ouvidor Arriaga"...
Pertencia a uma família ilustre açoriana e, mais tarde, Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue viria a ser o primeiro presidente da República Portuguesa.
Porém na Ásia e Oriente português (que assim se pode considerar), a intriga, a inveja, o oportunismo foram factos da vida dos portugueses que nunca se conseguiram livrar.
Merece um estudo profundo dos entendidos nesta matéria porque teria sido que tal coisa sucedia (principalmente na Índia portuguesa) que em vez dos portugueses enaltecerem Portugal (como sempre o fizeram os ingleses nas possessões que colonizaram) ocupavam-se, os mediocres, a fabricarem, habilidosamente, a intriga cuja a finalidade era destruir o português que vivia a seu lado e ocupar o seu lugar.
Nós com 24 anos anos na Embaixada de Portugal, em Banguecoque, tivemos por algumas vezes de nos enfrentarmos com a fabricação da intrigas, com a difamação; com a incompetência; com a indolência e até, infelizmente, com acções (ver e calá-las) pouco honestas praticadas pelo "poder" ou os acólitos, funcionários, que até servem, o poder, como "pontas de lança" e deles se servirem se porventura forem chamados à responsabilidade e faze-los "bodes expiatórios", para sacudirem a água da "casaca" .
Tudo contribuiu para ruir a presença de Portugal na Ásia e Oriente, que voltou num velho trópego a finar-se e não tarda.
José Martins
Fim da quinta parte
CONTINUA