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terça-feira, 2 de julho de 2013

PROFANAÇÃO - OS MORTOS TAMBÉM SE ABATEM

Saturday, April 05, 2008


1988 - Cemitério da Silom road. O centro da cidade de Banguecoque começa a crescer e nunca mais parou.

1989 - Era assim a adoração dos mortos no dia Todos-os-Santos. Padres e freiras misturavam-se na multidão
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Os mortos também se abatem! Eles os mortos são parte da história de um Povo. Mas os vivos, que serão mortos, tarde ou cedo, esquecem-se da lei vida e o que se lhe depara pela frente para alimentar as suas ambições destroiem: "cemitérios, fazem segundos funerais às ossadas (sem pompa ou acompanhamento) encaixotando-os em pequenos "caixõezinhos" de zinco e zarpam para outras paragens". 
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Vou referir-me aos três cemitérios sitiados logo após a cidade de Banguecoque ter nascido (mais ou menos) nos anos de 1782.


1988-Padre benze com água benta os túmulos, enquanto familiares dos mortos lhe prestam homenagem
 Cemitérios para a comunidade estrangeira que compreendia a de sangues caldeados, os ateus, católicos, protestantes e confucinanos (chineses). Parcelas oferecida por Sua Majestade o Rei Rama I. 
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Referirei que os Reis do Sião em Ayuthaya e depois na era de Banguecoque, desde a fundação do Reino usaram o sistema de doação, às comunidades estrangeiras, parcelas de terrenos para residirem, praticarem o culto de seus credos e viveram em paz. Porém tiverem o cuidado de alojar as comunidades em locais distintos. 
1990- Mausoléus de portugueses que representaram Portugal no Reino do Sião
 
Isto o vamos encontrar na velha Ayuthaya, onde cada comunidade era proprietária de uma parcela separada de outras comunidades. Os mapas de Ayuthaya bem conta nos dão que assim era. O Ban Portuguete e o banes chineses (com dois campos em lado opostos e junto às margens do rio Chao Praya) foram as parcelas com maior dimensão dado que era as duas comunidades mais populosas na velha capital. 
Os banes holandês e japonês eram os de menor dimensão. O ban dos franceses (Campo de S. José) embora com alguma dimensão ficavam muito aquém da área do Bangue Portuguete. 
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Os franceses quando se instalaram em Ayuthaya já os portugueses ali estavam fixados havia cerca de 130 anos. As três paróquias do Ban Portuguete (embora só se conheça um cemitério o da paróquia de S.Domingos), acreditamos que a Igreja de S.Paulo (dos jesuítas) e de S.Francisco (dos franciscanos) tiveram os seus cemitérios no adro da igreja, segundo os usos e costumes era ali que os defuntos e os padres eram enterrados.

Cenas "macabras" de fazer arripiar. Um filme real de terror

Com a caída da velha capital em 1767, a comunidade portuguesa, chinesa e malaia (outras comunidades estrangeiras não havia na altura), deslocadas para Banguecoque é lhes doado os próprios terrenos para viverem. 
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A comunidade lusa/tailandesa nos Campos de Santa Cruz e da Senhora do Rosário reservaram um terreno, junto à igreja, para enterrar os seus mortos. 
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O Campo Português da Imaculada Conceição já tinha o seu cemitério há muitos anos dado que antes de Ayuthaya ter caído (1767) o campo já ali se encontrava há mais de cem anos. 
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A cidade de Banguecoque na década de quarenta do século XIX e o aparecimento das navegações a vapor contribuiu para que a cidade começasse a crescer, urbanisticamente e a desenvolver-se comercialmente. 
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O Reino do Sião, assim se pode considerar era um país virgem e muito havia para comprar. Madeiras de Teca, marfim, arroz, cera estanho e muitos outros produtos da terra em abundância.


 
Um automóvel estaciona entre os caixões escaqueirados e túmulos abertos

A cidade começa a crescer a partir da área onde existe há 188 anos a Embaixada de Portugal. A comunidade estrangeira instala nas redondezas os seus escritório de representações, o Governo os Correios Gerais; os serviços de alfândega na margem do Chao Praya, instalam-se os bancos e construídos novos hoteis. 
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A área de negócios situa-se num comprimento de mais ou menos de uns 400 metros que vai desde o cruzamento da Phayathai Road com a Chalerm Krung até ao encontro na bifurcação com a Silom Road. 
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A comunidade estrangeira, constroi ou aluga residências não muito distante da parte comercial: Suriwong Road, Silom e Sathorn. Nessa altura a esperança de vida das pessoas, fossem tailandesas ou estrangeiras, era demasiada curta e felizes eram os que passavam os cinquenta anos. 
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A insalubridade do local onde as pessoas viviam dava-lhes ao estarem sujeitas malària outras moléstias dos climas tropicais e às constantes epidemias.

Os martelos, profanadores, dos túmulos. Parte os últimos que pertenceram aos cônsules Leopoldo Luis Flores e o Dr. Joaquim Campos.

O Rei do Sião oferece os terrenos à comunidade estrangeira para enterrar os seus mortos. À de religião protestante, oferece-lhes um largo terreno a uns quatro centos metros ao sul do centro comercial (ainda existente e junto ao Hotel Menam); à católica do Vaticano, ortodoxa e chinesa oferece-lhe ao nordeste e a uns 400 metros do centro comercial , antigo, uma larga parcela. Área, na altura, que eram campos devolutos ou de cultivo. Actualmente o Banguecoque moderno de altas torres de cimento.

Túmulos de luso-descendentes que tiveram a mesma sorte de profanação de outros.

No conhecido Cemitério da Silom Road, ainda sou do tempo que alí se enterrava gente, a celebração das cerimónias do Dia de Todos os Santos, com a família dos defuntos a colocarem flores nos mausoléus e túmulos dos familiares que partiram para o outro mundo. 
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Abri o portão de ferro muitas vezes e o visitei. Lá dormiam pessoas cujas lápides designavam nomes genuinamente portugueses. 
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Eu entrava ali como forma de prestar homenagem póstuma a gente que nunca tinha conhecido e só mais tarde, nos arquivos da embaixada de Portugal vim a saber a que famílias tinham pertencido.

 
Uma cruz que já não é cruz nenhuma e não mais orquídias orvalhadas no cemitério da Silom road

Essas minhas visitas é uma componente do portuguesismo que segue dentro de mim... Isto porque, o patriota, quem não se sente não é filho de boa Pátria. 
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E eu sou-o sem andar em busca de "mordomias" ou de festinhas hipócritas, de sorrisos exteriores e amarelos interiormente.  
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Morei por um ano, num sétimo andar de um prédio de 23 andares e pegado ao Cemitério da Silom. Recolhi imagens de funerais e de gente a ocupar-se nos arranjos dos túmulos e a colocarem-lhe flores de orquídias frescas. 
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Logo à entrada havia várias campas de luso/tailandeses e três mausoléus: um da família Xavier e dois dos cônsules de Portugal, Luis Leopoldo Flores e do Dr. Joaquim Campos
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No mausolém da família Xavier, dentro dormia uma família inteira e o Celestino que tinha sido uma individualidade grada no no Governo do reinado do Rei Chulalongkorn. 
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O do cônsul Flores absolutamente abandonado e o epitáfio no interior as letras apagadas. Comprei uma "mark pen" e avivei as letras. 
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O do Joaquim Campos, um mausoléu, que alguém, o mandou construir de cimento misturado com granito miúdo e muito bem conservado, apenas as letras do epitáfio apagadas e avivei-as.

Levei o embaixador Lima Pimentel para ver o "massacre" dos mortos. Só restavam dois mausoléus para destruir. Graças ao meu alarido os restos mortais dos cônsules de Portugal, tiveram um destino com alguma dignidade . mas que duvido até quando... Foto do lado direito junto às urnas de zinco com as ossadas dos dois cõnsules depois e ter assistido à exumação no dia 26 de Dezembro de 2004.
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Aquelas duas pessoas, portuguesas, falecidas tinham sido representantes de Portugal no Reino do Sião e mereciam-me respeito. 
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Mudei-me da torre onde vivia e a portas do Cemitério da Silom. Mas um dia, passei à beira, abri o portão e dei com um espectáculo macabro e bem digno daqueles filmes de terror do "Frankstain". 
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Urnas partidas e fora da caixa do cimento que tinham sido túmulos e um cheiro, nauseabundo, a cadáveres. A cal ainda não tinha dessecado os restos corporais daqueles (que julguei) os desgraçados dos mortos e que os vivos como abutres entraram nas catacumbas do seu descanso e as violaram. 
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Os mortos como os vivos têm o direito, mesmo defuntos, de viver na paz dos mortos. Porém eu tinha que salvar dois mortos e alertei o embaixador Lima Pimentel do "massacre". Enviou uma nota verbal à embaixada da Santa Sé em Banguecoque. 
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Um funcionário (creio diplomata) de batina entendeu-se com o embaixador e acertaram que as ossadas seriam exumadas e levadas para o cemitério novo (propriedade da igreja católica para a província de Nakon Pathon) e lá seriam construídos os túmulos igualzinhos como estavam no cemitério da Silom. 
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De facto estão lá mas não estão no lugar que deveriam estar... Mas escondidos e difícil (para quem não saber como eu sei) os encontrar. O terreno dos "mortos" ainda se encontra sem qualquer construção... Não sei aquilo que se passa... 
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Me parece que os mortos se vingaram, da profanação levada acabo pela "poderosa" Igreja Católica e embargaram o projecto de uma catedral ou de uma escola, porque desde há quatro anos a "terra dos mortos" tomada pelos vivos ainda se encontra devoluta.
José Martins
P.S. Voltarei ao assunto em outra altura

3 comments:

  1. amigo JOSÉ MARTINS,que bela reportagem que o senhor colocou ao dispor dos leitores fiquei muito impressionado com a sua atitude de salvagurdar os restos que sobravam dos consulos portugueses. Você é mesmo um beirão com muita força obrigado,LUIS NA COSTA DA CAPARICA
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  2. Amigo Luis,
    Continuo agradecer-lhe por ler a minha prosa
    Abraço