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terça-feira, 9 de julho de 2013

PEDAÇOS DE HISTÓRIA "GAGO COUTINHO E SACADURA CABRAL


Embaixada de Portugal em Banguecoque
Pedaços de história
(Gago Coutinho e Sacadura Cabral)

Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922 alcançaram o Brasil, por via aérea, pilotando o hidrovião Fairey III-D  “Lusitânia” que fica conhecida a “Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul”.
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O feito é realizado numa época em que os portugueses se regozijavam dos factos heroicos e mantinham na memória a expansão lusa cuja esta se vais estendendo depois da Descoberta do Caminho Maritimo para Índia, pela rota do Cabo, por Vasco da Gama, em 1498.
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Portugal festeja efusivamente os herois navegadores e, a boa nova passa célere de distrito para distrito e levadas a cabo manifestações de rua; sessões solenes nos municípios e dado a conhecer aos alunos das escolas primárias a Grande Viagem dos aviadores de Lisboa até às terras de Santa Cruz, iniciada em 30 de Março de 1922, descobertas por Pedro Álvares Cabral em 1500.   
            
 
Lembro-me que um dos meus livros de escola, na década de quarenta, século passado, inseria uma gravura e um trecho da viagem dos herois portugueses. A rapaziada, miúda, orgulhava-se e, depois à lareira, contava a história à família a maravilhosa viagem  que como era óbvio não sabia ler e até muito raramente tinha observado sob o céu em que viviam  uma avionete voar.
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A aviação, estava no princípio e já tinha sido utilizada na Primeira Grande Mundial (1914-1918) e, provada como um meio eficaz no lançamento de bombas; destruir pontos estratégicos do inimigo e liquidar pessoas.
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Depois do conflito mundial que flagelou a Europa as aeronaves são utilizadas ao serviço da paz, ligando de pronto as pessoas e os continentes.
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Carlos Viegas Gago Countinho, Almirante da Marinha Portuguesa, historiador, matemático e geógrafo. Nasceu em Lisboa e 1869 e faleceu em 1959. Inventou um sextante e, dado ao aparelho de navegação o seu nome e é, depois, admirado, nos círculos da aeronáutica mundial. 
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Foi autor de vários trabalhos geográficos e históricos, em cima das navegações portuguesas e se destacam: “O Roteiro da Viagem de Vasco da Gama”; “Versões nos Lusíadas”; Passagem do Cabo Bojador”; “Influência Que as Primitivas Viagens Portuguesas à América do Norte Tiveram sobre os Descobrimento das Terras de Santa de Cruz e ainda outras que o cientista publicou.
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Artur Sacadura Freire Cabral  oficial da Marinha Portuguesa, nasceu em 1880 em Celorico da Beira (Distrito da Guarda), foi um arrojado aviador  e morreu em 1924 quando pilotava um avião no céu do mar do Norte. O seu corpo nunca fora encontrado.
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Devido ao sucesso da travessia do Atlântico Sul de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral (embora não tenhamos dados nos deia a certeza), há em vista outro projecto a realizar e este seria o de uma volta ao Mundo pelo ar. 
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Mas para a grande aventura ainda não efectuada por outros aviadores esta seria para evocar o feito do navegador português Fernão de Magalhães (ao serviço do Rei de Espanha) que planeou e empreendeu a volta, marítima, ao mundo e, embora a não tenha completado, foi graças a ele que o feito foi conseguido ligando o oceano Atlântico (pelo estreito que lhe foi dado o seu nome) ao Pacífico.
 
Durante as minhas férias procurei colocar em ordem e classificar cópias de papeis antigos dos arquivos do Consulado de Portugal em Banguecoque. Muitos até de difícil leitura dado ao fraco estado em que se encontravam os originais. 
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Estiveram sujeitos à humidade, aos afinetes de aço que os prendia se enferrujaram com os anos e  a oxidação lavrou por eles fazendo-os apodrecer em  partes de páginas. 
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No meio dessa papelada, velha, meia apodrecida vou encontrar um processo relativo a uma subscrição para a circunnavegação área que seria levada a cabo por Gago Coutinho e Sacura Cabral. Estou por certo que este projecto pouco conhecido e, se supõe que o mesmo não tenha sido realizado dado que Sacadura Cabral tivera o acidente que lhe custara a vida em 1924 e porisso, pensamos, que Gago Coutinho, com um certo desânimo,  não deve levar em frente o projecto dado que já não poderia contar com Sacadura Cabral.
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Em 15 de Agosto o Encarregado do Consulado de Portugal no Siam, Sr. Gofredo Bovo (de nacionalidade Italiana e Cõnsul Geral de Itália que de 1920 a 1934, alternamente, por várias vezes, tomou conta dos destinos do Consulado de Portugal, em Banguecoque)  recebeu o Ofício Nº559, António Pedro J. Fernandez, Cônsul Geral de Portugal em Bombaim (em língua inglesa) que lhe transmite:
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“Nós temos a honra de  transmitir a V.Exa. para a sua melhor atenção para a “Grande Subscrição Nacional” que está a ser promovida en Lisboa e Colónias, a fim de providenciar meios para que os aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, em vária escalas, efectuarem a viágem aérea da volta ao Mundo. 
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Eu creio que V.Exa fará a devida divulgação entre a Colónia Portuguesa, residente,  no propósito de esta contribuir para o empreendimento assim como os nomes dos dadores seja designado  numa lista  e o montante das dávidas respectivas. Tenho a honra de ter contactado com V.Exa. O seu mais obediente servidor.
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Assinada pelo seu punho: Cônsul Geral de Portugal no Activo: António Pedro J. Fernandez.”.
Anexado  à carta um folheto emitido em Macau cujo texto é assinado e que copiamos na íntegra:
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“ O semanário ´A Patria´ toma a iniciativa de abrir uma subscrição entre todos os portugueses de Macau e as comunidades macaenses dispersas pelos Portos da China e do Japão, a fim de auxiliar a viagem aérea em volta do mundo, projectada, pelos nossos distintos aviadores, Sacadura e Coutinho.

 
Trata-se de duma empresa, em cuja efectivação estão empenhados o nome e prestígio do País.Foi um Português o primeiro que circunnavegou o Globo; portugueses devem ser os primeiros a circum-aéronavegá-lo. 
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Poderá, pois, algum compatriota nosso desinteressar-se da arrojada tentativa, cujo exito está de antemão assegurado pelos nomes gloriosos que nela figuram? Alguem que a não acompanhe com imenso carinho e simpatia e não lhe preste todo o seu apoio e concurso?
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Certamente que não! Conhecemos bem os sentimentos patrioticos dos portugueses do Extremo-Oriente, para afirmarmos que nenhum deixará de acorrer ao apêlo, que lhe dirigimos. 
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Os portugueses residentes no estrangeiro, em especial os nossos compatriotas do Brasil e dos Estados-Unidos, vibram de entusiasmo ao pensamento de que sejam portugueses os primeiros a fazer a viagem aérea em volta do Planeta. 
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Por toda a parte, onde palpite um coração de português, se olha com enternecido orgulho para o feito grandioso, que ha-de cobrir de gloria o nome de Portugal. E só nós ficaremos indiferentes? Só nós cruzaremos os braços? Seremos nós a nota discordante no meio desta harmonia de pensar e sentir? Não pode ser! Não há-de ser!
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Macau, esta joia portuguesa lapidada pelos nossos maiores e conservada através das gerações pela fé e patriotismo de seus filhos, esta terra coberta de tantas tradições, que estão a apregoar o vigor daquela Raça de herois e de santos tão conhecidos do mundo inteiro, tem a obrigação moral de secundar os esforços, que neste momento todo o País emprega, para que Gago Coutinho e Sacadura Cabral – dois nomes que a história já registou numa página de ouro – consigam realizar o seu plano arrojado, já tentado em vão por outros povos.
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Macau – e dizer Macau é abranger todas as comunidades portuguesas do Extremo-Oriente, que são um prolongamento desta linda terra – Macau deve, pois, associar-se a este movimento geral de entusiasmo, que lavra por toda a terra portuguesa. Trata-se duma obra nacional e, portanto, duma obra que tambem é nossa. 
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E’ nossa pelos liames estreitos que nos prendem à Mãe-pátria, pela identidade de interesses entre todos os portugueses, pela gloria que dela ha-de vir para o nome honrado de Portugal. Gago Coutinho e Sacadura Cabral são o simbolo do valor da Raça. 
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O prestígio dos seus nomes é o nosso prestígio; da gloria do seu feito compartilharemos nós. Não são dois indivíduos que vão empreender a viagem aérea. É todo o Portugal. É toda a alma da Patria. É todo o sentir dum povo.

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Que nenhum compatriota nosso se esqueça, pois, do dever que o País lhe impõe nesta ocasião, em que o mundo inteiro tem os olhos sobre nós. Sois pobres?  Dai pouco, mas dai. Sois ricos? Contribuí para esta obra. Fazei uma afirmação do amor, que consagrais ao vosso País. Mostrai que o patriotismo não é uma palavra vã, mas qualquer cousa que vibra dentro de nós e se exemplifica em actos, todas as vezes que é posto à prova.
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Para vós, pois, apelamos! Temos a certeza antecipada de que todas as listas, que vamos enviar para os pontos onde residem portugueses, se cobrirão de assinaturas. Está aberta a subscrição. Houveram por bem patrociná-la distintas individualidades da Colonia, a quem apresentamos os nossos devotados agradecimentos, por se terem dignado apoiar a iniciativa de “ A Patria”.
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São elas que constituem a seguinte
COMISSÃO:
Dr. Rodrigo José Rodrigues – Governador de Macau – D. José da Costa Nunes – Bispo de Macau – General Manuel de Oliveira Gomes da Costa – Almirante Hugo de Lacerda Castelo Branco – Capitão de Fragata Luis António de Magalhães Corrêa – Dr. Alvaro Cesar Corrêa Mendes, Juiz de Direito – Dr. Alfredo Rodrigues dos Santos, Secretário Geral – Dr. Carlos Borges Delgado, Presidente do Leal Senado – Manuel Monteiro Lopes, Gerente do Banco Nacional Ultramarino e Tesoureiro da Comissão.
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O Cônsul Geoffredo Bovo, acusa a recepção (em língua inglesa) do Ofício do Cônsul Geral de Portugal em Bombaim, pelo Ofício Nº.124.Post.XVI de 21 de Agosto de 1923:
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Exmo Senhor,
Em resposta ao Ofício de V.Exa Nº 559 de 27 de Julho, último, tenho a honra de informar V.Exa que recebi de Macau a comunicação da “Grande Subscrição Nacional” para o suporte do projecto dos portugueses aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral que já fiz circular entre os membros da Colónia Portuguesa em Banguecoque.
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Aproveito a oportunidade para  assegurar a V.Exa a minha alta consideração.
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Assinada  pelo punho: Geofredo Bovo

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Aqui o Cõnsul Geral em Bombaim, que prevemos ser, natural de Goa, pretende dar nas vistas ou talvez Macau o tenha incumbido de transmitir a Geofred Bovo que lhe respondeu diplomaticamente..
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Aconteceu que por algumas vezes o Consulado de Portugal em Banguecoque esteve sob a jurisdição de Goa e de Macau. Porém, o consulado, por dezenas de anos tem como Encarregados de Negócios ou Cônsules naturais de Goa e desde 1900 a 1916, é gerido por Luis Leopoldo Flores que em termos de nepotismo, insere como funcionários do consulado filho, sobrinho, e  estão, assim, todos os negócios de Portugal no Siam sob os desígnios da “clã” Flores. 
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Leopoldo Flores faleceu vitima de febre tifoide às 23 horas do dia 16 de Abril de 1917, no Hospital de S. Luis e, sepultado em mausoléu  cemitério da rua da Silom no centro da cidade de Banguecoque. 
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Seu filho Luis de Melo Flores, assume as funções de seu pai e auto-intitula-se: Cônsul-geral de 2ª classe e Encarregados de Negócios. 
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Entretanto e porque havia reclamações, dos “protegidos pelo consulado” (chineses que obtiveram este estatuto pela passagem de um passaporte emitido em Macau que em muitos casos eram fruto da “corrupção”) chegou a Banguecoque o Cônsul Alfredo CasaNova que encontrou irregularidades e queixas dos protegidos e nenhuma documentação, que poderia comprometer, encontra arquivada. 
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Segundo o conteúdo de uma carta dirigida ao Cônsul Atilio Viana em 23 de Setembro de 1918, por um protegido a queixar-se dos Flores, numa passagem a missiva informa:  “ O Senhor Silva , interprete, disse-me que todos os papeis assinados pelo Senhor Flores foram queimados no dia seguinte ao seu falecimento”.
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Os Flores desapareceram de Banguecoque. O Casanova ausenta-se depois da casa, mais ou menos arrumada; entrega a gerência ao Cônsul Atílio Diana que o assume por curto espaço de tempo. 
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Toma as funções, como encarregado do consulado o Cônsul de Itália Bovo, em 1920 e, alternamente, como acima se descreve, anda nisto até 1934 e deixa de o ser quando o Dr. Joaquim Campos (médico, investigador e historiador) que além de Cõnsul, que desempenhou impecávelmente e faz retomar  o prestigio de Portugal, perdido,  no Reino do Siam, exercendo ainda a medicina com consultório nas proximidades do Consulado. 
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O Cônsul Campos morre, com 52 anos, em Banguecoque e está sepultado, como o Flores, no Cemitério da rua da Silom.
            
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Nos documentos existentes, em cima da subscrição, de facto não é encontrada qualquer carta vinda de Macau a recomendar ao Encarregado Bovo a subscrição. Apenas este a dar conta, por ofício de 26 de Janeiro de 1924, escrito em língua italiana, do envio do envio de um cheque no valor de $66,72 dólares. 
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Nos parece que o Bovo não quer ser humilhado, com uma ordem emanada pelo Cônsul Geral de Portugal em Bombaim. Anexo uma lista onde estão designados os doadores e as importâncias contribuidas. A redacção do Semanário “A Pátria” instalada no Seminário de S.José em Macau em 12 de Fevereiro de 1924, numa carta escrita à mão diz o seguinte:
 
Exmo Senhor
Encarregado dos Negócios do Consulado de Portugal em Siam
Tenho a honra de acusar a recepção da estimada carta de V. Exa. de 26 de Janeiro, que muito agradeço e bem assim o cheque incluso de $66,72 destinado à subscrição para a viagem de circunnavegação aerea empreendida por Gago Coutinho Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Aquela quantia deu entrada no Banco Nacional Ultramarino na conta aberta para o mesmo fim e da entrega envio a V.Exa o respectivo recibo.
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Com os mais profundos sentimentos de alta consideração e apresentando os meus respeitosos cumprimentos assino-me.
                                                                      De V.Exa At.tº Ven. e Obrigado
                                                                       Padre João Machado de Lima – Director de “A Patria” (Depositado no BNU estavam $1.727.49 mais os $66.72 somam $1.794.21 (dólares)
José Martins/2004