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segunda-feira, 1 de julho de 2013

BAÚ DE MINHAS MEMÓRIAS (1996)


Memórias tantas são. Durante três décadas a viver na Tailândia muita coisa há para contar. Dentro de mim houve um Portugal enorme e o quis repartir com o país que me acolheu.

Servi Portugal e a Tailândia e procurei, conforme pude divulgar os dois países.

Primeiro e pouco depois de 1991 o Dr. José Rocha Dinis, director da “Tribuna de Macau”, deu-me a oportunidade de mandar notícias, de Banguecoque, para o simpático e de maior expansão, semanário, em Macau.  Algumas notícias em profundidade e seriam “caixas” jornalísticas.

Na redacção da Tribuna tinha o meu amigo jornalista, ainda hoje nos contactamos, Helder Fernandes, a generosidade de me revisar a prosa e reparar as calinadas.

Internet onde está ainda... Ainda não tinha chegado à Tailândia.

O envio seria através do faxe e as fotografias pelo correio rápido para as incluir nas peças. Entranhou-se em mim o gosto das notícias e estas divulgarem tudo de bom sobre Portugal e a Tailândia.

Nunca fui pelo caminho da conspiraria ou da irreverência, as cópias (que guardo religiosamente) das peças enviadas, o provam.

Hoje já assim não penso, porque me trataram muito mal; fui humilhado e entrei pelo caminho da prosa irreverente e na acusatória.

Há ofensas na vida do ser humano que não podem ser esquecidas, perdoadas ou toleradas.

Não se sente quem não é filho de boa gente...

Eu sou-o e nunca me desviei daquilo que aprendi, nas noites frias de inverno, junto à lareira de minha casa, erguida de granito, numa aldeia, encravada, num vale da Serra da Estrela. Hoje (como o tempo passa depressa...), com 74 anos, chega-me à memória coisa boas, outras menos boas e algumas muito más!

Reles mesmo!

É o correr da vida e cada qual escJustify Fullolhe o caminho que melhor lhe parecer com ou sem abrolhos e espinhos para caminhá-lo.

Mas vamos a descrever uma memória do passado. Em Junho de 1996, o editor da revista Macau, Beltrão Coelho convidou-me para escrever um artigo sobre o Cavalo Português Lusitano, na Tailândia, cuja notícia, antes, enviada por mim para a Agência Lusa dava conta que o famoso cavalo já residia na Tailândia.

Beltrão Coelho pretendia editar, e dedicar a edição de Agosto, na revista “Macau” às corridas de cavalos, cuja capa (foto aqui inserida) com a fotografia de uma corrida e com o genérico: Histórias “A Trote e a Galope”.
A história que enviei:

“ Chaikiri Srifuengfung, de 51 anos de idade, é um tailandês de etnia chinesa. Os seus antepassados emigraram da China para a Tailândia, no principio deste século.

Aqui fundaram complexos industriais cujo enorme sucesso está na origem de uma fortuna fabulosa.

Entre várias empresas de que Chaikiri é director-geral, a maior produz vidro para exportação.

Nascido num berço de ouro, Chaikiri poderia ter optado pela vida mundana: conduzir carros desportivos a alta velocidade, frequentar a alta roda, vestir-se nos melhores costureiros e correr mundo.

No entanto, prefere aproveitar o tempo livre que o seu império empresarial lhe permite, na sua herdade de 30 hectares, junto dos seus cavalos.

Os ventos macios que sopram do lado do Golfo do Sião trazem frescura agradável e saudável que permite o gado cavalgar ou simplesmente pastar serenamente, a transpirar força pelos poros, num cenário que nos transporta à lezíria ribatejana, bordejando o Tejo.

No “Horse Ranch” vivem 41 cavalos importados por via aérea de diversos países e entregues aos cuidados de um veterinário de nacionalidade filipina. As cavalariças, construídas de acordo com um projecto exigente, primam pelo asseio.

Nelas foram instaladas ventoinhas de tecto para conforto dos animais. Há três anos, Chakiri foi informado pela sua amiga Mitus Sison, outra “doente” por cavalos, de nacionalidade filipina, sobre as qualidades e a inteligência do cavalo lusitano que ela, há trinta anos, tinha levado de Portugal para o seu país. De imediato, após a descrição da senhora Mitus, firmou-se em Chakiri o propósito de conhecer e importar para a sua herdade o cavalo lusitano.

Pouco tempo depois, na companhia de Mitus Sison, viajou até Portugal.

Apresentado à família Valença, proprietária do Centro Equestre da Lezíria Grande, de Vila Franca de Xira, não tardou que o cavalo lusitano viesse a fazer parte do “Horse Ranch”, com a importação dos três primeiros exemplares.
Chaikiri e Lusitano: amor à primeira vista

O fino trato e a calorosa hospitalidade fizeram-nos esquecer o bilionário que talvez não saiba ao certo o montante da fortuna iniciada com honradez e sabedoria por seu pai.

Chaikiri, o primogénito da família Srifuengfun, segundo a tradição chinesa, beneficiou do privilégio dos morgados, competindo-lhe continuar a administração dos bens da família.

Calça botas de cano alto e veste à cowboy americano. No seu rosto, porém, não há vestígios da irreverência natural dos “vaqueiros” do Texas. Também não se advinha que o anfitrião é um homem de negócios que durante a semana, no seu gabinete de trabalho, situado no tiõpo de uma “torre de vidro”, na baixa da enorme e moderna capital da Tailândia, trabalha rodeado de secretárias e quadros superiores no comando do colosso industrial da família Srifuengfun: Thai-Asahi Glass Co., Ltd.

Dentro da herdade tudo está organizado. Uma grande casa de habituação foi construída no declive suave, de onde se avistam os cavalos a pastar em absoluta liberdade. Brincam uns com os outros, correm, trotam, guincham, sacodem a crina, olham o que se passa para lá do cercado da pastagem e, quando alguém se aproxima, vêm todos, como se quisessem cumprimentar.

A residência – de rés-do-chão e primeiro andar – acolhe a família e também os seus convidados no “Rancho dos Cavalos” em meia dúzia de quartos amplos, onde nada foi esquecido, para seu conforto.

Um restaurante-bar destaca-se de um edifício lateral à casa .

Ao lado uma bancada coberta, para os visitantes olharem o picadeiro destinado ao adestramento do lusitano e à demonstração da “arte de bem cavalgar toda a sela”, de grande tradição em Portugal.

Para perpetuar a memória do patriarca da família, nas proximidades da mansão encontra-se em fase de acabamento uma necrópole, construída segundo o modelo arquitectónico chinês e cuja altura é a de um prédio de 10 andares.
O picadeiro
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O picadeiro é amplo e dispões de uma cobertura apoiada em estrutura metálica.

O custo da obra pode avaliar-se acima de uma dezena de milhares contos. Um espelho rectangular grande, de cerca de seis metros de comprimento, foi colocado num dos lados, junto à base da armadura. Destina-se ao treino do lusitano e do controlo dos pés do cavalo e sua correcção.

A convite do anfitrião, assistimos a uma demonstração executada por Chaikiri, montando o cavalo “Dragão”. O lusitano galopa, faz círculos e faz gestos com o pescoço, iguais aos apresentados a multidões nas arenas portuguesas do toureio equestre.

A arte de “bem cavalgar toda a sela” é, assim, executada na Ásia, pelo único cavaleiro entusiasta da arte do Marquês de Marialva, estribeiro-mor do rei D.José I e autor da obra Método de Equitação".