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terça-feira, 2 de julho de 2013

A BÊNÇÃO DAS ÁGUAS


HISTÓRIA DE PORTUGAL NA TAILÂNDIA

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Peça escrita em 2002 e inserida no www.aquimaria.com . Porém resolvi que deverá ser inserida esta e outras, no blogue

http://portugalnatailandia.blogspot.com, relativas à história de Portugal na Tailândia e da Expansão de Portugal na Ásia e Oriente a partir de 1498. Escrevi por amor e humildade.
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Andei pelos locais que calharam. Nunca desejei o meu trabalho de investigação só para mim. Distribui-o e auxiliei os que me procuraram. Agradeceram-me. Porém um que me procurou, que tanto o queria ajudar, traiu-me, miserávelmente, com infâmias. 
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Tal coisa nunca haja recebido, de ninguém, durante 24 anos que servi com toda a lealdade a Embaixada de Portugal em Banguecoque. Por último: "cá se fazem cá se pagam...!!!" Enquanto for vivo esse traidor, chantagista, NÃO PASSARÁ. A razão sempre esteve pelo lado dos homens bons. Eu sou isso.
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Portugal na TailândiA
Na Peugada dos Portugueses
A Bênção das Águas

No passado mês de Setembro choveu torrencialmente por toda a Tailândia. Advinhei que o rio Chao Praiá iria transbordar e as terras baixas de Ayutthaya (Aiútaia) iriam ser alagadas e consequentemente as escavações da Paróquia de São Domingos no “Ban Portuguet”. Em Banguecoque os barcos já navegavam a um metro e meio de altura do solo do jardim da Embaixada de Portugal, este protegido com um forte muro de uns 60 centímetros, de largura, para evitar infiltrações.
 

Ruas nas duas margens da cidade de Banguecoque, durante a maré cheias no Golfo da Tailândia, ficaram completamente inundadas com as entradas das casas, empilhadas, com sacos de areia. Entretanto as bombas,mecânicas e eléctricas de saída de grande caudal, nas margens, frenéticamente projectam gigantescos jorros de água para o Chao Praiá. A vida na cidade segue igual sem mudança do viver quotidiano ou alarmes. A benção das águas que trás fartura à Tailândia.
 

Não escondia a minha preocupação sobre o que se estaria a passar na Paróquia de São Domingos no "Ban Portuguet". Os jornais de Banguecoque, havia uns oito dias, antes, mostravam fotos, nas primeiras páginas, da cheia e os inconvenientes na população nas margens dos três rios de Aiútaia: Chao Praiá, Pasak, vindo das terras do antigo império Khmer e o Lopburi, um pouco mais, ao Norte do nordestino Pasak. Rios, com larga história, por eles navegaram, reis, exércitos, mercadores e piratas sem conta


O nosso Fernão Mendes Pinto nos conta histórias, maravilhosas aventuras nesses três rios, cujas àguas o levaram a conhecer as terras dos Khmers, os Reinos de Chiang Mai, Lampang, Lumpum que nos dão conta de factos históricos, contados com uma simplicidade impressionante . Destes relatos foi extraída o filme, épico, de mais de três horas de exibição, da Rainha Suriyothai, que disfarçada de homem lutou,para salvar a honra da morte de seu marido, contra o Rei de Pegú. 
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Suriyothai é hoje um símbolo da resistência e luta da mulher tailandesa. A sua memória, além da grande metragem do realizador Principe Chatri Chalerm Yukol ficará para sempre, num monumento, dourado, junto ao palácio onde viveu e na margem do Chao Praiá.
 
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Parti de Banguecoque ao fim da tarde de sexta feira, o trafego automóvel começava a empapar as ruas da Cidade dos Anjos e, ziguezaguiando por todos os espaços disponíveis entrei na auto-estrada que me levaria, passado uma hora e vinte minutos, à segunda capital que foi da Tailândia, Ayutthaya. A cidade da minha paixão, dos meus amores e quando nela vivo, por uns dias, sinto-me como se em Portugal estivesse.
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Alguém me disse, um dia, que eu tinha vivido no Campo Português há séculos quando ali existiu uma comunidade portuguesa que chegou atingir uma três mil almas lusas e tailandesas. Bem, quem mo afirmou professa a religião budista e dentro da sua credibilidade que depois da morte existe a reencarnação. Não acreditei tão-pouco desacreditei o pensamento da senhora devota de sua Santidade o Lorde Buda.
 

Mas imaginei que se assim tivesse sido, certamente, teria sido amigo do Fernão Mendes Pinto, colocado à distância o pirata António Faria; abominar o “Galego” ao serviço do Rei do Pegú que por algumas vezes o fizemos dar às “Vila de Diogo” para lá das paliçadas, que fortificavam Ayuthaya, quando eu e o Pinto fomos camaradas de espingardas, arcabuses e artilharia pesada ao serviço de Sua Majestade o Rei do Sião.
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E, quando eu e o Pinto fomos artilheiros de peças de boca larga, no fortim do porto internacional de Pom Phet e, sem a suspeita de piratas e peguanos nas águas, rumavamos de almadia até ao Ban Portuguete onde ali viviam duas siamesas que por elas nós arrastavamos a asa. 


Mas depois da visita aos nossos dois amores, sempre haveria, a
cavaqueira com os colegas, de folga, guardas do palácio real, de sua Majestade o Rei de Ayutthaya e uma caneca, de bambú, cheia vinho português, meio avinagrado, que o missionário dominicano nos oferecia, dentro de uma botelha trazida da dispensa e nos afagava as saudades da pátria lusa.
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Ainda não eram 5 da tarde quando me acomodei no Grande Hotel de Ayuthaya. Não se pense, por aí, que sou um maníaco dos hotels de 5 estrelas, isto porque não dá o magro salário, mensal, para tamanha estravagância. A primeira frase do nome do hotel “grande” mede-se pelo tamanho e não pelo luxo cuja diária estás nos 600 bates (tailandeses) que em euros fica por menos de uns 15.
 

Quando viajo para Aiútaia senti-me pássaro fora da gaiola. Depois de abrir a janela do meu quarto do hotel, vislumbrei os campos de arroz alagados, onde a verde estava submersos, para além da margem do rio Chao Praiá.
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Os templos budistas com os pinos, sagrados, a espelhar na àgua na movimentação do sol na rota do poente. “Bargues” ,mergulhadas na água até ao convés navegam puxadas por um reboque que delizam ora para uma margem depois para outra para vencer a força da corrente da época das chuvas. 
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Um reboque,puxando três negras e enormes embarcações metálicas, o piloto atreveu-se a passar debaixo da ponte e encalhou a primeira no tabuleiro. Há que esperar que a maré desça e siga o norte.
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Antes do pôr do sol, fui dar uma espreitadela à outra banda do rio e no Campo Japonês, Yamada, onde pouco depois de os missionários dominicanos se terem instalados, os cristãos japaneses e convertidos por Francisco Xavier, perseguidos pelos samurais fixaram-se, em frente ao Ban Portuguet, onde poderam praticar livremente o catolicismo e conviver espiritualmente com a comunidade, cristã, portuguesas.
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Ali, embora não haja documentos que nos afirmem a veracidade, se crê ter nascido a lusa/japonesa Maria Guiomar, senhora de uma extrema honorabilidade que bem pode ser, sem favor algum, um símbolo da lusa/descendência em toda a Ásia. Católica ferverosa, esposa do grego Constantino Falcão, personalidade influente na Corte do Rei Narai, em Lopburi e aproveitado pelos enviados de Luis XIV de França, cujos desígnios seria o de colonizar o Reino do Sião.
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Custou ao Falcão o ter servido o Rei do Sião e o França a morte por degolaments. Maria, durante a sua viuvez e com filhos, foi cozinheira da Corte e deixou na Tailândia, várias especialidades de doçaria portuguesa e a mais popular é o fio de ovos.
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Do Campo Yamada olhei o ancoradoiro submerso e apenas via o cimo da armadura com bandeiras do Vaticano e da Tailândia. Mirei e remirei de todos ângulos o pedaço de Portugal em Ayutthaya. Fiquei mais ou menos tranquilo porque atrás daquela forte corrente de água lodosa, havia algo que me indicava que a área estava protegida.
 
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Viajei, depois, como em peregrinação e romagem,habitual ao “Ban Portuguet” onde por 250 anos viveu uma comunidade lusa/tailandesa a duas braçadas de barco, do Yamada, mas a uns 12 quilómetros por estrada.
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Encontrei os lados da via,reforçadas com um muro de terra e sacos de areia nas entradas para as casas. Moradias penduradas em estacas, de madeira, mergulhadas até à varanda. Os moradores, permaneciam nas bermas da estrada, pescando e, como as cheias além de trazer incovenientes, também, trazem fartura, de colheitas, muito peixe e pesca abundante.
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Pelo caminho e antes de atingir o Campo Português passei junto ao espaço da comunidade muçulmana de origem malasiana, residente, praticamente, desde a fundação de Ayuthaya em 1350. A tolerância dos Reis da Tailândia permitiu que étnias de credos diferentes vivessem no seu reino dentro da maior harmonia.
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Os seguidores de Muhammed, os homens, em grupos, conversavam na borda da estrada, o gado bovino, rumina a palha seca em cima de pequenos montes, enquanto que os búfalos de água repousam, mergulhados no grande lago,fugindo, assim às picadelas dos insectos.
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A miudagem, de barretes brancos, na cabeça, brincam por ali chutando a água enquanto outros, em cima de uma pequena canoa de plástico lançam fios com anzol pendurados numa vara para pescar algum peixito.  
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As mulheres preparam a ceia. Mais além e junto à margem do Chao Praiá a mesquita, a casa de oração está com água até ao meio das paredes.
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Nesta minha ida, ao Ban Portuguet não observei a tradicional vida campesina das gentes tais; trabalhando dentro do mesmo método do princípo da fundação do Reino de Ayuthaya pelo Rei U-Thong. As mulheres de pele tisnada, na monda do arroz ou na apanha da batata doce,dos amendoins, dos lótos de flor branca para vender no mercado e o ornamento dos altares do Deus Buda aguardavam por ali esperando que o rio desça o nível da água.
 

Todo o mundo campesino, as casas das almas que protegem os frutos dos campos, das almas penadas que vagueam na noite quedam-se por esses altares a comer algo que ali foi colocado por aqueles que acreditam no sobrenatural. Quedavam-se submerso e sob a benção das cheias do Chao Praiá que fará fartas as novas colheitas.
 
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A dois quilómetros da área muçulmana está o Ban Portuguet. Á entrada e onde está uma placa, que perpetuará por várias gerações, a Obra que foi iniciada pelo Embaixador Melo Gouveia, em 1982 e o Doutor José Blanco Administrador Fundação Calouste Gulbenkian, cujo parte de dois financiamentos pertenceram à Gulbenkian que duou um montante muito significativo, em dólares que permitiu que o passado de Portugal no Antigo Reino do Sião esteja vivo.
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Junto a essa placa uns poucos católicos do campo,conversavam, esperando que as águas do Chao Praiá desçam e as suas vidas volte à normalidade.Gente que me é familiar há 20 anos.
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Não pode ficar de forma alguma esquecido o contributo e o entusiasmo nas escavações do Ban Portuguet do Governo da Tailândia que através do Departamento de Belas Artes (Fine Arts Department). 
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Nele estiveram envolvidos dezenas de estudantes, universitários, de arqueologia animados impressionantemente no projecto e o Arquitecto Eduardo Kol de Carvalho (Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Tóquio) que foi um dos grandes animadores na reconstituição da Igreja de São de Domingos.
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Encontrei o Ban Portuguet protegido da bênção das águas. Uma barreira de peças de cimento, longitudinais, em forma de cutelo encaixavam numa fenda aberta a toda a largura do campo que não permitia força imparável da corrente do Chao Praiá penetrar com campo e no cemitério,coberto, onde descansam os ossos de lusos/tailandeses que viveram e morreram em Ayutthaya.
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Dois homens, os guardadores das águas, estavam por ali a tomar conta de duas pequenas bombas e escoando, penetrando da grandeza do caudal, uns pingos que entraram, talvez, pelas rotas das topeiras.Cheguei ao Grande Hotel de Ayutthaya junto às 8 da noite.
 
Procurei a esplanada “bargue”/restaurante para jantar. À minha frente estava o porto internacional de Pom Phet. Via as luzes das almadias navegavam do fortim, portuguessímo, Pom Phet para o templo que ficava no outra margem do Pasak.
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Levei, comigo, de Banguecoque uma garrafa de tinto e um sacarrolhas para abrir a Grão Vasco e acompanhar com o nectar do Dão, meia dúsia de lagostins, do Chao Praiá, grelhados, pela módica quantia de 140 bates, uns 6 euros.
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Ao fim da ceia. em cima do Chao Praiá estava alegre, não só pelos 75 centilitros do tinto ingeridos mas também pela beleza que tinha observado durante o fim da tarde em Ayutthaya.
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Debaixo da minha fantasia imaginei o meu camarada de armas Fernão Mendes Pinto, caminhando em direcção à paliçada Pom Phet onde o luar da noite fazia brilhar, as ameias lusas, espelhando-as na água que cobria a pequena parada.
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Mais tarde o baluarte é modernizado e arquitectado, na década de 1660, pelo missionário,Jesuita, do Padroado Português do Oriente, Tomás de Valguarnera. 
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Hoje conservado e conhecido como uma peça de defesa, de raizes lusas, em Ayutthaya e guardião do porto de Pom Phet contra a infiltração de piratas, o controle das navegações do Chao Praiá e na defesa dos exércitos, invasores, peguanos.
José Martins
Ayutthaya, 13 Outubro de 2002.