Translator

domingo, 23 de junho de 2013

RELAÇÕES DE PORTUGAL COM SIÃO E DAS MODERNAS ALIANÇAS DESTE PAÍS COM AS POTÊNCIAS ESTRANGEIRAS

     
Ao acaso e “vasculhando” livros sobre a presença de Portugal no antigo Reino do Sião deparamos com uma monografia, datada em 1887 pela Sociedade de Geografia de Lisboa e vamos encontrar uma brilhante comunicação do Cônsul Frederico António Pereira. Dado que é um documento histórico e, acreditamos que deve ter servido a outros cônsules a matéria inserida, para informações dirigidas à Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa.

O Cônsul Pereira é acreditado como representante de Portugal no Sião em 1886 e termina quatro anos depois. Quando o representante de Portugal permanece em Banguecoque esta cidade está em construção e os estrangeiros residentes eram umas escassas centenas, assim como a capital do reino resumia-se a pouco mais de um milhão de pessoas, estrangeiras e siameses. 
.
A descrição histórica do Sião até ao presente o cônsul Pereira relatou-a em termos fidedignos e aventamos a hipótese que as fontes as deve ter recolhido na biblioteca da Feitoria  ou extraídas, nos arquivos, em Macau. Outros cônsules ou encarregados da Feitoria de Portugal, em Banguecoque, não lhe conhecemos relatórios ou descrição histórica relativa ao Sião e relacionamento com Portugal, arquitectado, a partir de 1509.

.
Casas de cultura ou bibliotecas não haviam em Banguecoque, a documentação que existia, de quando a queda de Aiutaá, em 1767, desapareceu nas chamas e só em 1904 foi fundada a “Siam Society” (hoje a maior instituição cultural e histórica de toda a Ásia) www.siam-sociaty.org   começaram a ser arquivados, uns poucos papeis, salvados depois da queda e a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto que informa como era o Reino do Sião de quando permaneceu nele por cerca de uns escassos 5 anos. 
.
A capital do Reino do Sião, em Aiutaá, como é sabido (relatado pelo autor no web site www.aquimaria.com em várias ocasiões), caiu numa manhã de Abril de 1767 nas mãos dos peguanos (birmaneses) e só passados 15 anos os siameses se encontram reunidos (muita população residente na capital destruída e subúrbios debandaram para outras terras, distantes da capital) e consolidada a paz e a cidade de Banguecoque é fundada pelo Rei Rama II.
.
Os portugueses, os poucos residentes, eram descendentes de famílias que viviam no Ban Portuguete (Aldeia dos Portugueses), junto ao grande rio Chao Praiá, em Aiutaá. A expensas e caridade do General Thaksin ( o conquistador do Sião depois da queda), a gente lusa é trazida e instalada no “Bairro de Santa Cruz”, na margem esquerda do Chao Praiá e oferece-lhes uma razoável parcela de terra e madeira para construir suas casas. Outra gente europeia não havia.
.
Os ingleses ainda não tinham descoberto o Sião; os franceses não estavam sob as boas graças dos siameses e os holandeses igualmente. Os portugueses e desde que se fixaram no Ban Portuguete a sua forma de estar no Reino do Sião tinham granjeado não só as simpatias dos reis como as  do povo. Historicamente não são conhecidas divergências ou conspirações que tenha colocado o reino em risco da perda da independência. O mesmo já não se pode dizer em relação aos franceses, ingleses, holandeses que acima de tudo estavam os interesses dos seus países e, se tivesse sido possível colonizar o Reino do Sião o teriam feito. Tal nunca viria acontecer e tal facto tem sido para tailandeses um orgulho.
José Martins

Vamos transcrever, na integra o que o Cônsul transmite à Sociedade de Geografia na altura:   
                   
Mapa de Aiutaá, finais do século XVII. A: Campo Português com três paróquias: S.Domingos, S.Francisco e S.Paulo dos Jesuítas. B: Forte Pome Pete, de concepção portuguesa. Operado também por artilheiros lusos. Tudo indica que os canhões montados nas ameias seriam, parte deles, do fundidor Manuel Bocarro das oficinas de Macau ou Goa.
.
“Antigamente nos povos da grande península Indochina eram governados por dezenas de pequenos déspotas que disputavam entre si a posse do seu território. Na província do norte do actual Sião governava em Sangkalok um certo Phia Uthong (fundador da segunda capital Aiutaá) que, tomando uma grande preponderância sobre os reis seus vizinhos, aumentou os seus domínios; e mandando reconhecer os países do sul, os enviados levaram ao seu conhecimento a existência de uma ilha ampla e fertilíssima no meio do rio Chan Phya (Chao Praiá), conhecido por Mé-nam, palavra siamesa que significa, «rio», Phya Uthong resolve mudar a sua capital para esta ilha e vem com efeito, em 1350 da era cristã, lançar ali os fundamentos de uma grande cidade a que chamou Ayuthia (Aiutaá), que no futuro foi dentro de grandes desastres e grandes glórias para o império siamês. 
.
Foi também ali que este pais começou a ter relações com todos os outros povos do oriente. Os seus domínios foram se alargando prodigiosamente, a ponto de em 1500 ter por tributários, além de outros reis do norte e leste, todos os potentados da península malaia, excepto Malaca, que se conservava rebelde à suserania de Xá Thirát, que governava Aiutaá, a este tempo coberta já de templos de oiro.  Em 1508 já os portugueses dominavam uma grande parte da Índia, e conhecedores das riquezas e grandezas de Malaca informam disto el-rei D. Manuel, que faz equipar uma esquadra com o fim determinado de descobrir aquela região. 
.
A esquadra parte de Lisboa em Abril deste ano, e o seu chefe Diogo Lopes de Sequeira, depois de aportar em Sumatra, deixa um padrão na cidade de Pedir e outro em Pecem e chega a Malaca em 11 de Setembro de 1509. foi bem recebido, mas traiçoeiramente, e seria morto se uma moura, que tinha uma hospedaria, o não tivesse avisado. Voltou para Lisboa, deixando ficar alguns prisioneiros, entre os quais Duarte Fernandes, que aprendeu a língua malaia.. Afonso de Albuquerque, que se tinha assenhorado de Goa, resolve partir para Malaca e dá-lhe o primeiro assalto em 1511. 
.
Embora um pouco fictícia a posse deste novo porto, Albuquerque resolve mandar um emissário ao rei do Sião oferecer-lhe asilo. Um junco china chamado Pulata partia para Aiutaá e o emissário escolhido foi Duarte Fernandes, que levou ao rei, de presente, uma espada guarnecida de oiro esmaltado. Foi este o primeiro português que entro no Sião, cujo rei o recebeu muito bem e com grande satisfação por ver que os portugueses tinham abatido o orgulho daqueles que considerava seus vassalos, mas que eram rebeldes.
.
Duarte Fernandes volta de Aiutaá e com ele uma embaixada de el rei, mostrando o seu contentamento por os portugueses terem tomado Malaca, e uma carta para D.Manuel, acompanhado de valiosos presentes. Na volta deste embaixador foram ao Sião António de Miranda de Azevedo e Duarte Coelho, acompanhado de outros, pelos quais mandou el-rei presente de subido preço.
.
Foram estas as primeiras relações que Sião teve com europeus. No que diz respeito à tomada de Malaca, as relações entre Portugal e Sião caminham como de comum interesse. Porém alguns reveses aos primeiros ímpetos de glória, e, entre outros prisioneiros, Simão Rangel e vendido em leilão e comprado por um mouro que o conduziu a Meca. Um fidalgo siamês que estava ao serviço de Malaca ficou cativo dos portugueses, a quem o pai do dito fidalgo resgatou em 1518, dando uma nau carregada de mantimentos.
.
Fernão Peres de Andrade tinha partido para a China em 1517 com nove naus e com eles alguns padres que começaram a pregar o cristianismo nos impérios da China e do Japão. Uns trezentos soldados portugueses tinham ficado ao serviço do rei de Camboja e acabaram por se estabelecer nos países, introduzindo ali religião cristã. Os portugueses, que em grande número se tinham espalhado por todos os portos do oriente, reanimaram de vida e de prestígio com a chegada a Goa do Apostolo S.Francisco Xavier, que pelo seu zelo e virtudes era o exemplo de todos os missionários.
.
O Pegú, Sião, Malaca, a Cochinchina, o Tonquim, enfim todos os povos da Indochina, contavam já milhares de cristãos convertidos por uns três ou quatro mil portugueses dispersos, mais ou menos dirigidos por padres jesuítas e dominicanos. Quando os birmanes invadiram o Pegú, a frota era comandada por Cayeiro, um português corajoso que, com perto de dois mil compatriotas, estava ao serviço do rei Mandára. Em 1543 este poderoso monarca, cioso do rei do Sião, que possuía sete elefantes brancos, mandou-lhe pedir um, que foi recusado, e por isso levantou um exercito de trezentos mil homens e setecentos elefantes de guerra.
.
Este formidável exercito, comandado pelo português Diogo Soares, entra em território do Sião; mas o rei deste país também tinha portugueses no seu serviço; o seu exército de quatrocentos mil homens era comandado por quatro marechais de campo, dos quais dois eram portugueses, que o rei queria ter sempre ao seu lado.
.
Os dois exércitos encontram-se e os reis seus chefes travam um combate singular; mas o elefante do rei do Sião fugiu e a rainha Surjô-Thai, que montava outro elefante, combateu corajosamente, mas morreu e o inimigo pôde penetrar até Aiutaá, que foi sitiada. Por falta de víveres Diogo Soares levantou o cerco e evacuou Sião.
.
Mas em 1547 o rei do Pegú, desejosos de possuir elefantes brancos, vem pôr novo cerco a Aiutaá e o rei consente enfim em dar quatro elefantes. Em 1558 Phra-Naret, bem auxiliado pelos portugueses, jura uma guerra morta ao rei do Pegú, e atacando-o nas fronteiras traz dez mil cativos.
.
Na Cochinchina e no Tonquim o cristianismo tinha tomado um grande desenvolvimento, a ponto dos reis desconfiarem do seu poder, e receosos de perderem a confiança do seu povo, expulsam todos os cristãos, que, uns fogem para Macau e outros refugiam-se no Sião.
.
Por essa ocasião, em 1570, Cristóvão Diogo, português, expulso do Japão, vem procurar refugio no Camboja, e é o primeiro europeu que penetra no interior e que vê e anuncia ao mundo as soberbas ruínas de Angkor e do majestoso templo de Nagkon Wat, sustentado por mais de sete mil colunas de magnifico mármore.
.
Depois da tomada a posse definitiva de Malaca, muitos navios de guerra portugueses, perseguindo os piratas, iam ao Sião, onde o rei empregava os tripulantes nas suas guerras. Foi assim que algumas centenas de portugueses se fixaram perto de Aiutaá, donde, juntamente com outros cristãos, pediram a Goa alguns padres jesuítas, dominicanos e franciscanos, os quais estabeleceram três freguesias de quinhentas e cada uma almas, vivendo sós até 1662, época em que chegou a Sião a primeira missão francesa com o bispo de Bérythe.
.
Um padre dominicano dá um plano para uma fortaleza que foi construída em Aiutaá e que ainda hoje é a melhor e mais regular fortaleza de todo o Sião. Os portugueses fundiram canhões e sempre a artilharia foi servida pelos cristãos. Em 1578 Phra Naret fez guerra aos cambojanos; vencendo-os fez milhares de prisioneiros, e mandando matar o rei, teve a barbara coragem de lavar os pés no sangue fervente do inimigo.
.
Aumentando assim em 1589 as forças do rei do Sião, que tinha uma confiança quase absoluta nos portugueses, resolve atacar e vingar-se do Rei de Alva e Pegú. Põe em marcha um formidável exercito, cujos principais comandos foram dados aos portugueses, e atravessando as colinas que dominam o golfo de Bengala descem como rapinas, assolando tudo até à beira-mar e de tudo ficam pacíficos possuidores.
.
Era brilhante o triunfo para ficarem sem premio aqueles que eram a causa dele. O rei de Sião concede novos privilégios aos portugueses, e receando o desforro ou a vingança daqueles que acabava de vencer a título de recompensa, oferece ao rei de Portugal o porto de Marthabam por meio de embaixadores que enviou au vice-rei da Índia.
.
Estes embaixadores voltam carregados de presente e acompanhados de um dominicano, que foi muito bem recebido pelo rei do Sião, com o qual concluiu um tratado muito vantajoso para Portugal. Uma nova em 1621 fez com que o rei de Sião pedisse a Goa religiosos de S. Francisco para pregarem o Evangelho nos seus estados, construindo-lhe igrejas e oferecendo-lhes riquezas que nunca foram aceites. 
.
Em 1656 governava um tio de Phrá Narai, o qual tentando viola-lhe uma irmã, este coadjuvado por mil e quinhentos portugueses que havia em Sião, forçou o palácio, e o tio, querendo escapar-se disfarçado no meio da multidão, foi apunhalado por um português.
 
Placa em bronze colocada na sala de audiências do Palácio do rei Narrai, em LopBuri que comemora a primeira visita de uma missão diplomática francesa ao Reino do Sião
.
Phrá Narai subiu ao trono com o auxílio dos portugueses, a quem sempre foi grato. Viveu até 1688, época em que uma revolução derrubou os grandes edifícios da liberdade e progresso implantados no país pelo célebre grego Constantino Falcão, para começar perseguição aos cristãos e um período e abatimento que não devia acabar senão um século depois. 
.
O tratado de Munster tinha legitimado as conquistas dos holandeses no oriente, garantindo-lhes a propriedade dos arquipélagos das Molucas e de Java, em prejuízo dos espanhóis e portugueses que primeiro os tinha colonizado. A companhia holandesa das Índias fundada em 1605 tinha adquirido grossos capitães com o rendimento médio de 22 por cento, e com o auxilio de dezasseis mil navios, mais de dois terços da totalidade dos navios do mundo naquela época.
.
Isto não podia deixar de ser olhado com uma certa inveja por Colher, o grande ministro de Luís XIV, que a seu turno fundou a companhia francesa das Índias orientais. Mas a França não tinha tido um tratado de Munster; precisava de conquistar, e as suas conquistas começaram pela fé. Em 1651 tinha-se formado em França a grande a grande sociedade da padres para pregarem o Evangelho e em 1659 são nomeados três bispos.
.
O bispo Bérythe para o Sião, onde chega em 1662. Vai alojar-se no campo dos portugueses, onde em nome do arcebispo de Goa lhe pedem os papéis do papa. Isto deu origem a certas desinteligências, em virtude das quais a missão francesa refugia-se no campo dos holandeses, que a este tempo possuíam o melhor comércio de Sião.
 
Mgr Pallu, Bispo de Heliopolis, além de clérigo era um diplomata nato e o arquitecto das relações entre a França e o Reino do Sião que viriam a interromper-se e um autêntico fracasso
.
Os franceses começaram a pregar em português, o que foi causa de maiores desagravos. De Goa vai um encarregado missionário a Sião pedir expulsão das missões francesas e depois vai outro de Macau com o mesmo fim. Os franceses expedem um dos seus para ir a Roma, passando por Inglaterra e França. Este emissário obtém de Luís XIV protecção perante o papa Clemente VII, que em 1669 expede uma bula permitindo as funções episcopais a M. de Heliopolis, que então estava em Sião, podendo exercer as ditas funções em todos os países que não fossem do domínio dos portugueses ou espanhóis.
.
Falta entramos com um elemento importante para a história desta época. Constantino Falcão, um grego feito protestante, tinha conseguido ser o primeiro ministro do rei de Sião  depois de se fazer católico, o que jurou na igreja dos jesuítas portugueses, convertido por António Tomás, que, passando por Aiutaá, ia para as missões portuguesas do Japão.Primeiro-ministro e manejando todos os negócios de Sião, casou em 1682 com uma portuguesa vinda do Japão, por nome Guiomar de Pina.
.
Se Portugal não tivesse apenas acabado de recuperar a sua independência ou se tivesse podido também recuperar o prestígio no oriente, Falcão, que precisava de um apoio estrangeiro, não procuraria outro senão o dos portugueses. Este lhe conviria mais porque, alem de ter as simpatias do pais, tinha uma cidade a 2 léguas da corte, com três igrejas, um seminário e uma população de mais de dois mil habitantes, e gozava de um grande prestígio para a guerra.
Constantino Falcão, aventureiro grego que chegou a ocupar altos cargos no reinado do Rei Narrai. Iniciou as relações entre o Reino do Sião e a França que terminaram em tragédia e sua morte por degolamento. Foi casado com Maria de Guiomar, luso/japonesa.
.
Porém Falcão sabia que não podia contar com recursos de Lisboa e precisava de evitar a conquista de Sião pelos holandeses, que se tinham assenhorado de Malaca. A guerra entre a França e a Holanda tinha feito de Luís XIV o grande rei da Europa, e Falcão decide-se pedir a amizade de França, para onde partiu uma embaixada siamesa que naufragou no Cabo. Sabendo disto Luís XIV, manda a embaixada a Sião. 
.
O Chevalier de Chaumont é recebido com a maior deferência, e partindo para França leva de presente a Luís XIV a cidade de Zingora, em posição própria para defender Sião das forças holandesas. Falcão pede ainda a Luís XIV algumas tropas e em 1867 chegam doze companhias com oitocentos homens, que vão alojar-se nas fortalezas de Banguecoque; o rei de Sião e o seu ministro grego estavam bem seguros dos holandeses e julgaram-se ao abrigo também do que pudessem fazer os descontentamentos do país.
.
Porém o numero destes últimos aumentava, na corte por verem que um estrangeiro os domina, nos pagodes por verem que a religião cristã é protegida e progride em detrimento da sua. Os holandeses, que começam a ver a concorrência ao seu comércio, fazem parte comum com os nobres e os padres do país, intrigando os franceses. Daí a revolução de 1688.
.
Pitraxa, chefe da conspiração, apodera-se do palácio e do rei em Louvô, e manda matar Falcão. Os franceses começam a sofrer uma guerra cruel, à qual têm que ceder, indo muitos refugiar-se nas cristandades portuguesas, que conservam o seu prestigio por meio da sua inactividade natural por falta de padres instruídos, no meio  de gente hábil na intriga e na politica do pais.
.
Este período vantajoso aos interesses da França terminou com o poder do novo monarca, que, tendo vivido nos pagodes e afecto à sua religião, expulsou todos os franceses, respeitando todavia os cristãos portugueses, que davam asilo aos outros estrangeiros, a quem curaram e socorriam, levando-lhes o alimento ás prisões. Esta caridade não foi bem vista pelos siameses, que condenaram alguns a servirem os elegantes, o que ainda assim não era degradante.
.
Durante dezenas de anos Sião  viveu na anarquia interior, sem que outras potencias estrangeiras viessem intrometer-se, o que é de certo devido ao abatimento da Holanda, ao começo do desenvolvimento da Inglaterra e enfim ás devoluções politicas por que passou toda a Europa no século XVIII. Em 1758 recomeçou a guerra dos birmanes por causa dos elefantes brancos. O rei de Ava vai cercar Aiutaá, e depois de dois anos de resistência apodera-se desta capital, reduzindo a cinzas.
.
O rei de Sião escapa-se para os bosques e morre de miséria. Os franceses que, em decadência, conservavam as suas missões, foram novamente expulsos e cativos para o Pegú, juntamente com os padres portugueses, armados de coragem, derrotam os seus condutores birmanes e fogem para o Camboja. Só o bispo seguiu o seu destino.
.
Em 1767, enquanto Aiutaá se via a braços com estes males e na dependência de um conquistador cruel, um governador de uma província do norte, por nome Phya-Thak, homem corajoso, prevendo a ruína da capital, reúne uns mil homens decididos e retira-se para as montanhas de Nakhon-Najok, onde se defendeu sempre dos inimigos. Phya-Tak parte para Bang-plasoi, onde é aclamado rei, e daí para Rayong, reunindo sempre homens de boa vontade.
.
Depois de atacar a Cochinchina e o Camboja, que submete á sua autoridade, volta ás ruínas fumegantes de Aiutaá e extermina os inimigos sem piedade. Dai parte para Banguecoque, que toma para sua residência em 1769. Os cristãos, dispersos por uma tal catástrofe, começam a reunir-se em Banguecoque e os portugueses conseguem erigir a igreja de Santa Cruz.
.
Phya Thak, o libertador da pátria, mostra-se cruel e os seus mandarins eram batidos de rotina. Daí uma conspiração que obrigou o rei a fazer-se talapão. O primeiro-ministro apodera-se do trono e, transportando o palácio para a margem oriental do Mé-nam, fundou o Banguecoque moderno em 1782. Este usurpador, que é o primeiro rei da dinastia actual, tomou o nome de Phra-Phute-Cáo-Luang e reinou até 1811.
.
Depois das novas residências dos cristãos em Banguecoque, eram estas outras tantas ovelhas sem pastores. A França manda padres e o seu bispo. Os portugueses, depois de muitos pedidos para Goa, obtêm que de lá lhes mandem alguns padres, que se retiram cobertos de miséria. Enfim, em 16 de Abril de 1782, frei Francisco das Chagas, da ordem dos pregadores, é nomeado em Goa para ir a Siam e vai.
.
 
Mapa do quarteirão francês, onde se instalaram, em Aiutaá, os missionários jesuítas franceses, junto à margem do rio Chão Praia. A igreja da gravura é a de S.José que ainda, nos dias actuais se mantém no mesmo estilo arquitectónico, mesmo já tendo sofrido várias obras desde a sua construção em final do século XVII
.
Ciosos do prestigio que tinham os portugueses, os padres franceses, mais instruídos e fortes, começaram a intriga-los com o fim de se verem livres do padre Chagas, concebendo para isso um plano muito original. Fizeram crer aos siameses que a cidade de Goa regurgitava de pedras preciosas e que o padre Chagas, que dispunha de muita influência, poderia lá obter milhões delas para ornamento dos seus pagodes e do palácio real. 
.
Enfim, em 12 de Dezembro de 1784, conseguem que o rei de Sião ordene ao padre frei Francisco das Chagas que vá a Goa comprar: seis cateis de esmalte fino de diferentes qualidades; rubis finos de primeira sorte, um milhão; ditos de segunda sorte, dois milhões; esmeraldas finas de cor verdes, um milhão destas duas grandezas: O. – (Esta lista foi encontrada nos doc. Ant. do consulado.) Mas dinheiro nem um real!
.
Era manifesta cilada. O padre Chagas partiu e com ele o último facho da luz do cristianismo de Portugal, luz que não devia voltar senão com o brilho de tantos milhões de pedras preciosas, impossíveis de obter! E com ele se foi também para sempre o prestigio de Portugal, o que aliás é devido ás evoluções do século.
.
Os desgraçados portugueses, que ficavam em Banguecoque, não cessavam de escrever e representar para Goa, pedindo padres até 1790, ano em que receberam, com data de 4 de Maio, uma carta do arcebispo primaz do Oriente, dizendo-lhes que o secretário da propaganda lhe tinha feito constar por dois breves que a missão de Sião não pertencia aos portugueses, mas sim aos vigários apostólicos; que bem sabia que os portugueses tinham uma colónia com seu capitão, mas em Roma havia informações em contrário, e era necessário tratar da questão por Lisboa na cúria romana; e que no entretanto deviam os cristãos aproveitar-se dos padres franceses, pois que alem disso os padres dominicanos não tinham com que sustentar-se.
.
Abril   de 1995. Foi inaugurado o edifício/museu no Bangue Portuguete pela Princesa Real Galyani (irmã de S. Majestade o Rei da Tailândia). Deve-se esta obra ao Embaixador Melo Gouveia e ao Dr. José Blanco, administrador da Fundação Gulbenkian. A inauguração foi no tempo do consulado do Embaixador Castello-Branco, acreditado em Junho de 1988 e terminou em Abril de 1995.
.
Os portugueses insistiam em pedir padres, até que em 1806 o arcebispo de Goa, frei Manuel, lhes dá um desengano formal, ordenando-lhes «que entreguem aos missionários apostólicos da propaganda as suas igrejas, capelas e tudo o mais que tivessem em seu poder e que se fizessem humildes ovelhas da propaganda, pois teriam o inferno por certo se continuassem a ser rebeldes». 
.
Calaram-se os portugueses com medo do tremendo papão, e assim passaram as vigários apostólicos as missões portuguesas de Sião que de direito nos pertenciam. Desde que não houve padres portugueses e que o novo rei concedeu a liberdade de consciência, as missões francesas progrediram e começaram a construir igrejas nos lugares que tinham sido concedidos para as igrejas nos lugares que tinham sido concedidos para as igrejas dos padres portugueses.
.
Em 28 de Dezembro de 1786 ainda rei de Sião escreve para Portugal, concedendo o estabelecimento de uma feitoria em Banguecoque, a qual ainda hoje possuímos e é onde se acha o edifício do consulado, em roda do qual se tem formado modernamente uma grande cidade estrangeira que liga com o palácio fundado em 1782 em uma extensão de 7 quilómetros, e  contando uma população superior a um milhão de habitantes.
.
O século XIX apresenta-se com um carácter diferente. A propaganda da fé e o espírito guerreiro dos séculos anteriores cede o campo ao comércio internacional e à influência inglesa. Senhora da Índia e de todo o golfo de Bengala e de todas as posições importantes da consta ocidental malaia até Singapura, era natural que a Inglaterra começasse a olhar para Sião com certa cobiça.
.
Em 1816 o embaixador Canning estabeleceu as bases de um comercio regular, sem contudo obter dos siameses outras vantagens. Adam, Crawford, Dangerfield, em 1812, faliam do comercio e dos interesses que podiam vir ao Sião, mas este país olha desconfiado para a Inglaterra, porque esta tem contribuído para a desanexação dos potentados do sul da península malaia. Parker e depois Neale, em 1852, querem mais comercio e mais garantias para ele, mas Sião recusa formalmente o estabelecimento de um consulado inglês.
.
Em 1833 Sião concluía com a América um tratado, no qual foi concordado que, se para o futuro Sião permitisse o estabelecimento de consulados de que qualquer nação com excepção do de Portugal, a América podel-o-ía estabelecer também. O que este tratado tem de mais curioso é que foi exigido pelos siameses que deles se fizesse uma tradução em português. 
.
Porém não devemos admirar-nos disto, porque o português foi a língua diplomática de Sião até aquela data. Constantino Falcão, o ministro grego de Phranarai, falava o português, e todos os documentos oficiais nas relações de Sião com a França eram traduzidos em português. O padre Tachard escrevia o português, e nesta língua pregavam os missionários franceses. O tratado com a América o último documento desta ordem traduzido em português, e prova que até aquela época o inglês não era conhecido em Sião.
.
Nesta mesma data os siameses dirigem uma expedição á Cochinchina, de onde trazem milhares de cativos, entre os quais mil e quinhentos cristãos, sendo muitos portugueses que foram servir nas fortalezas. Em 1815 o príncipe Cháo-fá foi entronizado com o nome de Somdet-Phra-Paramander-Maha-Monkut, etc., que deu o primeiro passo, concluindo tratados de amizade e comercio com as nações estrangeiras. É o pai do actual rei.
.
Só Portugal tinha tido a regalia de um consulado desde 1820, preferindo assim todas as outras nações pelo espaço de trinta e seis  anos. Mas infelizmente, durante todo este período, Portugal sofria todos os males da guerra civil, tendo como resultado natural o esquecimento das colónias e de todos os negócios do estrangeiro.
.
Embaixada de Portugal em Banguecoque “A Nobre Casa”. Peça única no seu estilo arquitectónico, colonial , em todo espaço português. A sua construção data depois de meados do século XIX.
.
A nossa reabilitação de 1820, nos negócios de Sião, foi pois uma cimeira, e as vantagens incontestáveis da nossa situação poderiam dar-nos uma preponderância, se tivessem sido aproveitadas. Mas não o foram, e a Inglaterra, sempre vigilante e com a sua politica absorvente, herdou-nos este direito, que tem sabido cultivar, obtendo resultados fabulosos.
Darei aqui uma lista dos representantes de Portugal em Sião desde 1820.
.
Primeiro cônsul
Carlos Manuel da Silveira, cônsul desde fins de 1820 até 5 de Maio de 1833. Veio acompanhado de um secretário e de um destacamento de um cabo e quatro soldados. Segundo as instruções que trouxe, conseguiu que fosse aprovado um tratado, que foi o preliminar dos tratados de 1856;
.
Segundo cônsul
Marcelino de Araújo Rosa. Tomou posse em 5 de Maio de 1833 e exerceu o cargo até 22 de Julho de 1852. Trouxe os presentes do estilo, sem esquecer os presentes ao capitão do porto, que era o português José da Piedade;

.
Primeiro encarregado
Joaquim Maxiamo da Silva, secretario. Ficou encarregado desde a saída do cônsul Rosa até 22 de Março de 1855;

.
Terceiro cônsul
Frederico Moor. Tomou posse em 22 de Março de 1855 e exerceu o cargo até 28 de Abril de 1868;

.
Segundo encarregado;
José Maria Fidelis da Costa. Esteve encarregado desde 28 de Abril de 1868 até 16 de Setembro do mesmo ano. É hoje director da alfândega de Banguecoque.

.
Quarto cônsul
Guilherme Ferreira Viana, o primeiro cônsul vindo de Lisboa, tomou posse em 16 de Setembro de 1868 e exerceu o cargo até 25 de Setembro de 1869. Morreu afogado, mas há dados incontestáveis de que suicidou.

.
Terceiro encarregado
Joaquim Vicente de Almeida, secretario, foi encarregado desde 25 de Setembro de 1869 até Maio de 1873.

.
Quinto cônsul
Eduardo Pereira Leite, comissionado de Macau, exerceu o cargo desde 11 de Maio de 1873 até 2 de Outubro do mesmo ano. 

.
Quarto encarregado
Joaquim Vicente de Almeida, encarregado desde 2 de Outubro de 1873 até 15 de Janeiro de 1875.

.
Sexto cônsul
António Feliciano Marques Pereira. Foi cônsul desde 15 de Janeiro de 1875 até 1 de Abril de 1881.

.
Quinto encarregado
Francisco Badorel Xavier, secretario, foi encarregado desde 1 de Abril de 1881 até 6 de Junho do mesmo ano. 

.
Sétimo cônsul
Henrique Jerónimo Prostres, foi cônsul desde 6 Junho de 1881 até 22 de Novembro de 1882.

.
Sexto encarregado
Francisco Badorell Xavier, foi encarregado de 22 de Novembro de 1882 até 4 de Novembro de 1883

.
Oitavo cônsul
Câncio Jorge, comissionado de Macau, foi cônsul desde 4 de Novembro de 1883 até 16 de Maio de 1884.

.
Sétimo encarregado
Ernest Satoir, ministro de Inglaterra, foi encarregado desde 16 de Maio de 1884 até 15 de Setembro do mesmo ano.

.
Oitavo encarregado
Daniel Goularte, foi encarregado desde 15 de Setembro de 1884 até 22 de Julho de 1886

.
Nono cônsul
O actual. (Nota minha: Frederico António Pereira e o autor deste relatório).
Dar-lhe-hei mais duas tabelas curiosas. 

Estrangeiros em Sião:
Homens estrangeiros  283
Empregados do governo siamês 63
Portugueses ao serviço de Siam   9
Portugueses diversos 30
Mulheres estrangeiras  48
Mulheres portuguesas   11
Menores estrangeiros  120
Menores portugueses  28
Assim viviam no Siam:  
Homens estrangeiros 384
Mulheres 59
Menores 148
População aproximada de Banguecoque  Mouros, índios, malaios, chinas, etc., sob a protecção inglesa   50.000
Chinas sujeitos à jurisdição siamesa   500.000
Estrangeiros 591
Diversos estrangeiros orientais  409
Siameses ao serviço do palácio  2.500
Mulheres no palácio  500
Príncipes e mandarins
Escravos  20.000
Padres budistas (talapões)  25.000
Siameses 450:000
Total 1,050.000
Banguecoque, Dezembro de 1887.= Frederico António Pereira, S.S.G.L. cônsul de Portugal.
P.S: Passamos a ortografia arcaica para a actual
José Martins/2006

À MARGEM: Será de notar 50.000 protegidos ingleses, em 1887 em Banguecoque o que na realidade é verídico... Os ingleses além de traficarem ópio na China foram traficantes de pessoas humanas.