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quarta-feira, 19 de junho de 2013

PAULA CRUZ - ILUSTRE LUSA-TAILANDESA NO REINO DO SIÃO



PAULA CRUZ
Os avós de Paula Cruz, nasceram, no “Ban Portuguete” (Aldeia dos Portugueses), em Aiutaá. Seus pais e ela viram a luz do dia no portuguesíssimo, Bairro de Santa Cruz, em Thomburi; do lado oposto de Banguecoque e junto à margem esquerda do grande rio Chao Praiá.


A antiga capital do Reino do Sião, dos templos, budistas, forrados a folha de ouro,  numa noite, no princípio do mês de Abril, do ano de 1767, foi incendiada e pilhada pelas tropas invasadoras do Reino do Pegú.
Junto à margem do rio Chao Prya ( Chao Praiá), havia cerca de 250 anos uma comunidade luso-tailandesa tinha sido formada, num terreno de 2 quilómetros de comprimento e de trezentos  metros de largura. 

Em absoluta paz, serena,  mais de duas mil almas, de mistura de sangue português e siamês foram assistidas, espiritualmente, pelos missionários do Padroado Português do Oriente, em três paróquias: S. Franscisco (dos Franciscanos) S. Domingos (dos Dominicanos) e a de S. Paulo (dos Jesuitas). 


Naquela terrível noite de Abril, entre gritos de dor os residentes siameses fogem, apavorados, entre os arrozais e florestas, em várias direcções, para assim, se livrarem da soldadesca peguana.

São vagas as informações em cima do número de pessoas que integravam a comunidade lusa-tailandesas no “Ban Portuguete” mas pela existência, e dimensão da área, de três igreja, seriam mais de duas mil almas.

Segundo relatos, ainda hoje, de residentes, católicos, tailandeses (que vivem e morrem no Ban Portuguete) de geração-em-geração ficou, na memória, o facto de que a comunidade luso-tailandesa e a chinesa foram as últimas a renderem-se ao exército do Pegú.

E para que tal tivesse acontecido uma meia dúzia de soldados, birmaneses, entraram no “Ban Portuguete” hasteando uma bandeira branca, para negociarem a rendiçao e, com eles a mensagem do comandante de que nada de mal seria feito aos residentes.


Comunidades do ocidente, além da portuguesa, chinesa, japonesa e malaia eram diminutas. Havia uma, pouco numerosa, de origem holandesa cuja dimensão da área (actualmente em escavações) a descoberto,  seriam de pouco mais de umas cinquenta pessoas que se empregavam nos armazéns da Companhia das Indías Orientais, na administração e na carga e descarga da mercancia chegada da Batávia (Indonésia) ou a comprada no Reino do Sião, principalmente a prata  do Japão e vendida pela comunidade japonesa para despachar e mercanciar nos portos da Europa.

Outro reduzido número de europeus, residentes, eram mercadores  e com as suas residências e armazéns na orla dos rios: Chao Praiá, Pasak e Lopburi é de prever que tenham fugido, em embarcações, para Banguecoque, na altura do pandemónio e do clamor das gentes que viam membros de suas famílias a serem assassinadas e os haveres extinguidos pelo fogo ou roubados,  no meio daquela orgia incendiária.


As comunidades portuguesa, chinesa, japonesa e a Malaia são núcleos populacionais, étnicos, já por séculos, estabelecidas em Aiutaá, nutrem a simpatia dos Reis do Sião. Os monarcas de Aiutaá são tolerantes à propagação de religiões, mesmo que estas não se encaixassem nos designíos da budista  e podem os membros das comunidades praticá-las livremente ou  mesmo os siameses optaram por outra em vez do budismo. 
A comunidade japonesa, os seus descendentes foram os cristãos perseguidos pelos samurais do Imperador, japonês e os seguidores de Francisco Xavier de quando o Apóstulo da Índia, introduziu, a partir de 1549 o catolicismo no Japão. Instalaram-se do lado oposto, do Ban Portuguete, na outra margem do Chao Praiá cerca de uns 400 cristãos.

Anos mais tarde o lugar toma o nome de Yamada, um General, que fugido, também do japão, por motivos políticos, exilado em Aiutaá, que grangeia as simpatias do monarca siamês e torna-se um mercador importante.
Não muito distante da comunidade lusa-tailandesa e em direcção ao norte, quedava-se a comunidade malaia que professava a religião muçulmana. As tropas, invasoras, peguanas depois dos templos budistas ficaram só com as paredes os telhados no chão, profanadas as imagens;  pilhadas outras, fundidas em ouro puro e acrescentado toneladas, deste metal precioso, que os templos, sagrados, possuia e ainda  outro, na posse dos siameses, abandonaram Aiutaá para o seu país com o produto do saque.

No meio daquela saga destruidora, nada escapa aos incendiários, inclusivamente, o fogo consome  toda a literatura; os arquivos históricos siameses que apenas ficaram uns poucos documentos, expostos, presentemente, no  Museu Nacional de Banguecoque e nos Arquivos Nacionais algumas estantes, lacadas, que foram, pequenas bibliotecas e guardadoras de livros.

No Ban Portuguete a comunidade lusa-descendente, que sempre ali tenha vivido em plena harmonia, os homens ocupavam-se nas diversas artes, no comércio,  servindo o Rei no palácio como guardas reais ou noutros serviços. 


As mulheres, a maior parte, das mesmas, de sangue de raízes de lusas ocupavam-se na criação dos seus filhos; no cultivo dos campos e hortas na proximidade do Ban Portuguete  onde crescia o arroz e os vegetais para alimentação dos seus. Durante a invasão, peguana, Aiutaá está despida de gente e de bens. Membros da família real mortos e outros que fugiram da hecatombe. 
As comunidades: chinesa, malaia, portuguesa e japonesas estão nos seus territórios, sem terem sido molestados, fazem contas à vida como seria  o próximo futuro. 



A ex-capital do Reino do Sião com familias dizimadas, outras em debandada para as terras das províncias de Lopburi, Saraburi e mais para o nordeste e, distanciando-se, assim, da fronteira, que demarca, o Sião com o Pegú. Com isto para se protegerem de novos ataques dos peguanos.
A cidade, que um cronista, francês informou Luis XIV que Aiutaá possuia mais ouro que a França. As cinzas dos escombros ainda fumegam, quando se levanta o General Thaksin filho de pai chinês e mãe siamesa e, promete a si próprio, que irá, reunificar os siameses; dar caça aos peguanos e expulsá-los do Reino do Sião.
Thaksin, reorganiza os poucos soldados siameses, que restaram da invasão (possivelmente com residentes estrangeiros)  e começa a luta sem tréguas puxando os birmaneses para o seu território.


As lutas de Thaksin contra os peguanos ainda não chegaram ao fim. Gentes fugidas, residentes em Aiutaá e destruída durante a invasão, estão de regresso O grande General além de um excelente e arrojado comandante das forças militares, tem um poder, extraordinário, de organização das massas cujas estas são o seu Povo e as quatro comunidades estrangeiras que sofreram as sevícias da soldadesca do exército peguano. 
Aiutaá é para Thaksin “capital queimada” que não pretente, por ora, reconstrui-la. Não sua mente, existe: reconstrução e Aiutaá e a sua glória, depois da derrota, ficará para mais tarde.  As invasões e derrota de batalhas também, um dia, serão vitória e não menos glórias! Thaksin escolheu Thomburi, como o melhor ponto estratégico para  se defender de previsíveis invasões dos peguanos por terra e pelo lado da foz do rio Chao Praiá que dista a cerca de uns 15 quilómetros.
Por lado terreste, Thaksin está defendido, por uma faixa estreita do território, dos contra-ataques, dos peguanos entrarem no Sião pela fronteira dos Quatro Pagodes (ao oeste na província da Kanchanaburi) e o controlo absoluto de se defender-se dos juncos, armados, na passagem estreita do rio e a poucos metros das bocas de fogo, instaladas, entre ameias portugueses, no fortim de Thomburi. 


As tropas do General Thaksin continuam a empurrar os peguanos, das terras do Siamesas. Thaksin pela sua frente tem a espinhosa missão de instalar as populações desalojadas e despojadas dos bens possuídos, em Aiutaá. A comunidade lusa-tailandesa encontra-se em absoluta extrema pobreza. 
Deslocam-se do “Ban Portuguete” em barcos siameses, com a protecção  de Thaksin. Oferece-lhes uma parcela de terreno, para que ali começassem vida nova. Além, da generosa e valiosa dávida oferece-lhe, também, a madeira para que construissem as suas casas para habitarem e igreja para a continuação, da prática da religião católica, a que por tradição já professavam no Ban Portuguete por mais de dois séculos. Ao bairro é lhe dado o nome de Santa Cruz.
A designação é o símbolo da Cruz e o lenho que carregaram de Aiutaá e o recomeçar, da estaca zero, nova vida em Thomburi. Os nomes  comunidade são integralmente portugueses. Católicos de pureza extrema e regem-se pela lei, sagrada, dos 10 Mandamentes da Santa Madre Igreja.
Ajudam-se mutuamente e vivem numa comunidade onde a palavra de ordem é a união  (ainda hoje assim é): “um por todos e todos por um”. Os homens constroiem o bairro para a vivência da comunidade; as mulheres dedicam-se à confecção do “Foi Tong” (os fios de ovos de orígem portuguesas e o doce mais popular em toda a Tailândia), e os queques, também portugueses (já fabricados em Aiutaá) e que nos dias hoje, continuam a ser produzidos no sistema tradicional introduzido há quase 500 anos no “Ban Portuguete”. 



Os queques são cozidos em fornos de cavacas e moldados e formas, onduladas, de lata. A “fabriqueta” dos queques, situa-se numa viela estreitinha do bairro, no chão de uma casa construida de madeira de teca  tem passado de geração em geração, desde o final do século XVIII e até hoje, o fabrico  continua manter-se nas mãos da mesma família. 

No Bairro de Santa Cruz nasceu a Paula Cruz com descendência, portuguesa, cujo os seus antepassados, a família Cruz, residente no Bang Portuguete, fora, também, vitíma da caida da capital.

Entretanto, depois de analisar, as fotos de Paula Cruz, o seu rosto não me restam dúvidas que a bela senhora é lusa-descendente e dá-me uma certa convicção que é de orígem, étnica, macaense. Na Bairro de Santa Cruz, nos anos de 1868, nasceu uma verdadeira história de amor entre Paula Cruz  Albert Jucker de nacionalidade suiça.
Idílio, absolutamente, desconhecida dos portugueses que vale a pena de ser contada e, meditarmos, sobre a “Alma Lusa” e os impulsos do coração, enorme, que os portugueses possuiem e quando assimilados a pessoas de outras etnias cujo o sangue português lhes  corre nas veias. Albert Jucker um jovem Suiço, nascido de uma família de média classe, com um pequeno estabelecimento na povoação de Winthur, depois de ter concluido a instrução primária e a secundária, partiu para Paris com 19 anos.

Empregou-se numa empresa especializada com negócios na Indochina e com uma filial em Saigão.

Com 22 anos e em 1866, a empresa francesa envia-o para Banguecoque como assistente do director-geral da filial que acabara de inaugurar na capital siamesa.

Seis anos depois, em 1872, Albert Jucker de sociedade com um primo que mandou  vir de Winthur fundam a Jucker & Sigg & Cª . Juntam-se mais dois jovens, que Albert manda vir, da Suiça e a empresa em poucos anos volta na maior dentro do Reino do Sião.

A empresa Jucker & Sigg & Cª está sitiada junto ao Bairro de Santa Cruz e nas redondezas os grandes armazens onde as mercadorias era guardadas as importadas ou as para exportar.

O jovem Albert Jucker viva a paredes meias do Bairro de Santa Cruz e no seu quotidiano de ida para o escritória e regresso para casa, pelo seu pé (os automóveis ainda não tinham, sido inventados e chegados ao Reino do Sião) uma jovem luso-tailandesa, por quem se cruzava nesse vai-e-vém, a sua beleza começou a impressionar o jovem Albert e, amá-la em silêncio.


Paula Cruz, lapidava o seu ser, na Escola do Bairro Português de Santa Cruz, cujos mestres eram padres missionários do Padroado Português do Oriente.

Albert Jucker na flor da sua idade e um homem de negócios de retumbante sucesso, como todos os jovens, aspiram formar uma família e ter filhos. Em Maio de 1868 e o Alberto com a idade de 24 anos casa com a bela, lusa-tailandesa, Paula Cruz, na Igreja de Santa Cruz.


Da união matrimonial Paula Cruz brinda seu marido com três filhos e duas filhas. A cidade de Banguecoque no século XIX era o cemitério dos europeus. A cólera a malária e outras doenças tropicais eram moléstias comuns que dizimavam muita população quer fosse esta siamesa ou europeia. Os banguecoquianos viviam sob o terror das pestes. Gente, ainda com sopro de vida, os familiares aterrorizados, é lançada ao Chao Praiá. Outra,  apavorada, deixáva-a, agonizante, nas casas construídas de canas de bambú à espera do último suspiro.
Acodem a esssa pobre gente os missionários adventistas, americanos oferecendo-lhe palavras de conforto. Morrem assim milhares de siameses na época pestosa e com eles alguns dos poucos estrangeiros que viviam na nova capital do Sião, erguida no pântano e ao nível da água do mar. Albert Jucker, que tinha formado um grupo empresarial, gigante, na capital do Sião morre, vitimado, pela cólera em 1886, com 42 anos!
Deixa Paula Cruz com cinco filhos e uma enorme fortuna. Paula Cruz corajosamente e sem desânimo coloca-se à frente e administra todas as empresas herdadas do seu marido. Partiu para a Suiça, e para Winterthur, a terra onde nasceu o seu marido Albert Jucker,  talvez ali fique e educar os seus cinco filhos!
Paula Cruz não se adapta aos hábitos e o modo de vida da Suiça.

As saudades do Bairro de Santa de Cruz mortifica a alma da jovem viúva. Regressa ao Reino do Sião e deixa os seus filhos em Winterthur, entregues a tutores, para seguirem os estudos nos moldes da europeus.
Paula Cruz, uma visionária, bem sabia que as suas numerosas empresas estabelecidas, no Reino do Sião, já virados para os grandes negócios com o ocidente necessitam, no futuro, que os seus cinco filhos as venham administrar. Paula Cruz, além de admistrar o grupo  Jucker & Sigg & Cª é personalidade feminina, grada, na Corte do Rei Chulalongkorn, onde a lusa-tailandesa é a principal fornecedora de peças finas de joalharia para a rainha e as princesas reais.
Foi agraciada pelo Rei Chulalongkorn com o título, real “Mae Phan” assim como já tinha, o monarca siamês, galardoado o seu marido Alberto Jucker com título  honorífico: “Cavallier” e acreditá-lo como Cônsul Honorário de Itália O Rei Chulalongkorn na sua visita à Europa  à 1907,  numa altura que Paula Cruz se encontrava na Suiça, o monarca, visitou este país e deseja avistar-se e cumprimentar “Mae Phan”. O Encontro realizou-se em Zurich.
Paula Cruz é a primeira lusa-tailandesa, católica a ser recebida por um Papa e teve uma audiência com Pio X no Vaticano. Paula Cruz, já em idade avançada, reparte o seu tempo: uns meses em Banguecoque e outros na Suiça. 

Os seus filhos tomam conta da administração do Grupo Jucker & Sigg & Cª , em Banguecoque e das filiais espalhadas pelo mundo.

Paula Cruz de idade avançada e de uma vida feliz de  tragédia e glória decide passar o resto da vida que tem pela  frente, na seu confortável palacete, na Rua Surawongse, a menos de meia légua do Consulado de Portugal.

Na altura sob a gerència do Comendador Goffred Bovo, e  cônsul de Itália de que  por várias vezes, de 1920 a 1934 é lhe entregue a administração da representação portuguesa no Reio do Sião!

A Casa de Portugal em Banguecoque está nas mãos de um estrangeiro, os interesse portugueses abandonados e os luso-tailandeses igualmente... Paula Cruz, uma grande mulher, luso-tailandesa, morre na paz serena ao 84 anos em 1934.
Não sei onde repousam os seus restos mortais. Penso que foram transladados para o novo Cemiterio de Nakhon Phaton, a uns 30 quilómetros de Banguecoque, propriedade da Santa Sé, que deu lugar aos cemitérios, católicos dos bairros portugueses; o da Silom Road, onde eram sepultados os católicos, de várias nacionalidades e residentes na capitão do Sião.

Terrenos, sagrados, propriedades dos mortos que neles foram dormir a ternidade foram sujeitos à profanação e à pilhagem, desses espaços para construir residências de padres e freiras, campos para a prática de desportos, cuja obra é:

Da Divina Graça do Espirito Santo dos Apóstulos de Sua Santidade o Papa Sentado num Cadeirão de Oiro no Vaticano!Amen


À margen. Graças a uma brochura editada pela Berli Jucker (nome que substitui a Jucker & Siggs & Cª) em 1982 e, durante as festividades dos 200 anos da existência de Banguecoqu, que mão amiga me fez chegar.

Durante mais de 20 anos dediquei parte da minha vida a investigar a história  do passado de Portugal no Reino do Sião. A história de Paula Cruz, assim como a da lusa-japonesa Maria Guiomar de Pina , apaixonam-me e merecem todo o meu cuidado em continuar a investigar as suas obras, dá-las a conhecer para que não se perca a história no correr do  tempo.
Porém na “papelada” velha, dos arquivos da Embaixada de Portugal (infelizmente muito mal cuidada e preservada no século XIX e no XX)  nunca encontrei, referênncia que fosse, no livro de Assentos de nascimentos, casamento e óbitos que me dessem conta de Paula Cruz.

Penso que todos os registos de nascimento, baptismo e casamento e até do óbito, foram efectuados na Paróquia do Bairro de Santa Cruz e já seguiram (não me restando dúvidas) para os arquivos do Vaticano, onde neles é missão impossível penetrar nesse santuário político e eclesiástico.

José Martins/Banguecoque 2006