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terça-feira, 25 de junho de 2013

MISS PORTUGAL EM BANGUECOQUE, HÁ 21 Anos


MEMÓRIAS DE BANGUECOQUE

(Miss Portugal)
As minhas memórias de Banguecoque são muitas e penso que será bom e interessante o serem contadas. Durante vários anos (ainda hoje) estive activo na informação e, principalmente como é óbvio no que se refere à presença e visita na capital tailandesa de pessoas do mundo lusófono. Falei e entrevistei várias personalidades para a “Tribuna de Macau” e “correspondente” da Agência Lusa Ásia Pacífico, sediada em Macau.

Fui elo de ligação de vários jornalistas portugueses , da RTP, de revistas e jornais. Faço jornalismo de reportagem por amor e nunca por dinheiro. O montante dos meus honorários sempre os tenho deixado ao critério daqueles que tenho servido.

No fim do mês de Abril de 1992 chegaram as mais belas do mundo, a Banguecoque, para a realização do concurso da “Miss Universo 1992” que iria ter lugar no espectacular “Queen Sirikit’s Convention Center”. Portugal esteve representado com a Fernanda Silva, de 18 anos, que havia sido eleita “Miss Portugal 91”, no Casino Estoril.
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Tive conhecimento da concorrente portuguesa, no evento, através dos jornais diários “The Nation” e “Bangkok Post”. Oficialmente nada tinha sido comunicado à Missão Diplomática Portuguesa. Tão-pouco a Fernanda tinha alguém com ela, por exemplo, um “public relations”.
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Não sosseguei (até porque era notícia rara uma miss lusa no “País dos Sorrisos” enquanto não tivesse a oportunidade de falar com a mais bela de Portugal em 1991. As concorrentes ficaram hospedadas no “Dusit Thani Hotel” no centro de Banguecoque. 
 

Mas conseguir chegar à concorrente portuguesa?
A recepção do hotel não me fornecia o número do seu quarto e as informações que ia recolhendo era muito parcas. Apenas as transmitidas pelos canais de televisão e jornais.


As “misses” foram bem “agasalhadinhas” para que não fosse por aí, alguma, perder-se de amores por algum “Leonardo di Cáprio” de ocasião  e pôr-se na “alheta” com ele. Com isto o evento desfalcado de concorrentes e o programa, em parte, estragado.
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Na altura que as misses dirigiam-se para o autocarro e o passeio quotidiano e “spots” publicitários, furei a segurança e a uma miss, qualquer, perguntei quem era a miss Portugal. Esta expressou-se em língua espanhola e indicando-me a beleza lusitânia.
A miss, a quem perguntei, sem  o saber era a Natasha Gabriel-Arana, e a mais “hermosita” da Bolívia em 1991. Mais tarde, venho ter conhecimento ser a companheira da Fernanda Silva ocupando, as duas, o mesmo quarto do hotel.
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O número do quarto, o almejado por mim, não o consegui, naquela manhã, e muito menos o ter tido a oportunidade de ter falado, na ocasião (quando  a miss Bolívia me indicou) com a  “linda” de Portugal. Alas! A lâmpada do Aladino acendeu-se!
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Lembrei-me que tinha uma amiga, tailandesa, a Arporn que era a “sales manager” para o “Dusit Thani” na praia de Cha-am”, a 200 quilómetros da capital tailandesa e graças a ela consegui saber que a Fernanda Silva ocupava o quarto número 653.
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No dia 30 de Abril mandei à Fernanda um fax para o hotel com o número do quarto 653, transmitindo-lhe as minhas felicitações; coordenadas dos meus contactos e a intenção de publicitar a sua passagem e integração no concurso para a eleição da “Miss Universo92” em Banguecoque.
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À noite telefonou para minha casa e ficou combinado que todos os dias me daria as informações das actividades das misses e, estas, seriam em conformidade com as que pretendia  enviar para a “Tribuna de Macau”.

                                 TÉCNICOS PORTUGUESES EM BANGUECOQUE E A MISS  PORTUGAL

Havia já dois anos que um grupo de portugueses, ao serviço da empresa francesa “Bouygues” dirigiam a construção de um complexo industria e habitacional para cerca de 700 mil pessoas. 
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Em 29 de Fevereiro, do mesmo ano, era publicado na “Tribuna de Macau” uma  correspondência de minha autoria:
“Técnicos portugueses dirigem construção de um complexo industrial e habitacional, não muito distante do Aeroporto Internacional de Don Muang, em Banguecoque, que no futuro, será o local de trabalho e residência de 700 mil pessoas.
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Estes emigrantes, já não são aqueles, que o Almada Negreiros, com a sua sensibilidade, retratou no fresco da Gare Marítima de Alcântara, ou os de que fala Ferreira de Castro na sua obra “Emigrantes”, mas gente bem instalada na vida, conseguindo a especialização através da persistência, e da prática, que lhes permite serem os “braços direito” de engenheiros-directores de grandes projectos.
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São profissionais altamente qualificados, ao serviço da multinacional francesa “Bouygues”, com empreendimentos nos cinco continentes. Pessoas simples – a sua instrução não foi mais que uma modesta quarta classe de instrução primária – mas especializados em termos técnicos por anos e anos de “saber de experiência feito”.
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São naturais do Minho, Trás-os-Montes, Litoral e Beiras, com tradições e raízes bem vincadas, apesar de terem saído de Portugal, há mais de uma vintena de anos, numa altura em que, como todos sabem, Portugal atravessava fase de grandes dificuldades . Alguns passaram legalmente, outros “a salto”, mas as dezenas de anos em França não os afrancesaram – continuam a ser “prata da casa” genuinamente portuguesa.Hoje estão na Tailândia.
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Não vieram para construir casas “sino-portuguesas” no antigo reino do Sião, como as construiram os portugueses do século XVIII, que as poucas que vão resistindo a destruição, para dar lugar a outras, continuam a ser uma obra prima da arquitectura lusa, mas um complsexo industrial gigante.
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O correspondente da “Tribuna de Macau” almoçou no domingo, com estes emigrantes de Portugal na Tailândia, em franca e animada camaradagem. No almoço não faltou o cozido com todos, que se mostrava bastante genuíno, apesar da cozinheira e esposa de um dos emigrantes se queixar de não ter conseguido a couve galega. 
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Na ementa constava ainda: perna de cabrito assado, caldo verde, e queijo da serra, como sobremesa. Tudo bem regado com vinho verde a maduro de boa qualidade. Desconheciam a história da presença portuguesa na Tailândia, e o facto de terem sido os portugueses os primeiros europeus a fixarem-se em Ayuthaya a partir de 1511. E logo ali se combinou uma visita às ruínas das igrejas do ainda hoje denominado “campo português”, uma viagem que nunca deixou de me orgulhar.”
José Martins

Uns dias antes tinha comunicado ao Embaixador Castello-Branco (trabalhei directamente com o diplomata 7 anos consecutivos na Embaixada de Portugal em Banguecoque) que na cidade havia 14 portugueses a dirigir as obras do futuro parque industrial do área de Don Muang empreitada adjudicada a uma empresa francesa. 
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Traga-me cá esta gente para que os cumprimentos e lhes ofereça uma merenda na Residência (Nobre Casa), foi a sua resposta.
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Visitei o grupo e comuniquei-lhe se estariam livres para vir cumprimentar o Senhor Embaixador no próximo domingo, à Embaixada e, ao mesmo tempo a informação que estava em Banguecoque a Miss Portugal e, que dado a eleição ser no próximo sábado, a jovem portuguesa já me tinha prometido que esse dia estaria à disposição de se encontrar com os portugueses em na sua, a mim prometida, visita à Missão Diplomática Portuguesa..


Todo o grupo fica eurófico ( os portugueses fora do país são assim mesmo) e desejam ver de perto a nossa miss e conversarem com ela. Comuniquei à Fernanda o recado dos nossos emigrantes o desejarem confratenizar com ela durante a sua permanência na Embaixada para cumprimentar o Senhor Embaixador.
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A alegria da Fernanda foi espontânea, brilharam-lhe os olhos e fica decidido que depois de almoçarmos no Hyatt Hotel, um convite da Ana Maria Tavares, portuguesa e a número dois na gerência do luxuouso hotel, seguiríamos para a Embaixada.
Tudo absolutamente programado... 
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Porém mal eu sabia o “raspanete” que dois dias depois iria ouvir do meu embaixador Castello-Branco. Bem, é que eu queria-lhe fazer uma surpresa e, apenas lhe transmitir na sexta feira, que a miss Portugal se ía juntar aos portugueses na Embaixada e, isto seria, quando deixasse as minha funções na Embaixada para o descanso semanal.
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Acontece que o embaixador do México ofereceu uma recepção no “Dusit Thani Hotel” à mais bela do seu país e convidou os embaixadores acreditados no Reino da Tailândia. De facto o Representante de Portugal não sabia que em Banguecoque estava a miss Portugal. Penitencio-me pela minha falta de  não lho  ter transmitido....

Durante a recepção, pelo embaixador do México o meu embaixador teve conhecimento que ali estava a miss Portugal. Surpreso pediu, ao seu colega, para lhe ser apresentada a Fernanda Silva. Depois de a ter cumprimentado ela inocentemente diz-lhe: “ Senhor Embaixador eu estou convidada para no próximo domingo visitar a Embaixada!
Ai está?
Quem a convidou?
Foi o José Martins.
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Na manhã do dia seguinte, como habitualmente, recolhi o expediente, do dia anterior e coloquei-o, impecávelmente, em cima da sua mesa de trabalho. Junto às 9 horas da manhã recebi um telefonema, do embaixador Castello-Branco, do seu gabinete a chamar-me. Pela voz grave e sem a habitual, saudação matinal, a que estava habituado com um bom dia, agradável, apenas o: “venha aqui!”

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Durante os escassos metros que me separava o meu local de funções e o seu gabinete perguntava a mim próprio: “ o que será, o que será...alguma engano meu dentro das minhas funções....”
A porta do seu gabinete de trabalho estava aberta e mal tive tempo de lhe dar os bons dias....
Com um olhar grave para mim: “ oxalá você não pode convidar ninguém para a Embaixada ouviu?” “
Você convidou a miss Portugal para visitar a Embaixada!
Lá consegui, depois daquela turbulência de palavras dirigidas a mim, explicar-lhe que apenas lhe desejaria fazer-lhe uma surpresa e que lho transmitiria na sexta feira.
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O embaixador Castello-Branco tornou-se afável e compreendeu a minha boa intenção e, diz-me: ontem passei a noite com a miss Portugal (claro durante a recepção no Dusi Thani Hotel).
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A minha resposta, maliciosa, na ponta da língua: que sorte teve senhor embaixador!......
Olhou para mim e, com um “brilhozinho nos olhos”, sem dizer uma palavra sorriu-se....
Foi esta a única  vez que se sorriu para mim durante os quatro anos que já o servia!
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Não deixo porém de ainda hoje ter uma grande admiração por ele, na parte profissional, dado que muito aprendi, pelos ensinamentos que me transmitiu.
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Naquela manhã a Fernanda Silva telefonou-me a transmitir-me que a pobre e desamparada miss Bolívia não tinha ninguém em Banguecoque e que não a queria deixar só e se a poderia levar, também, com ela à Embaixada de Portugal.
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Do meu gabinete falo pelo telefone, interno,  ao embaixador Castello-Branco: “senhor embaixador a nossa miss pergunta se pode trazer com ela a miss Bolívia....."
Claro que sim e transmita à miss Portugal que traga as misses que ela quizer à Embaixada!
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A  miss “Bolívia92”, assim como a miss “Portugal92” estavam muito carentes de apoio e carinho na “Cidade dos Anjos”. Como caído do céu aos “trambolhões” apareci-lhes eu que tudo fiz, dentro das minhas possiblidades, dar apoio às lindas meninas.
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Não se pense, porém, por aí que tudo que as “misses” pisam é um tapete de flores de jasmins perfumados!
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Para a miss Bolívia chegaram-lhe às mãos, através de mim, vários faxes de suas e seus admiradores que anexo dois.
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De Portugal ou de outro lado nenhum me chegou para entregar à Fernanda Silva.
Ingratidão Lusa!
José Martins- Agosto de 2003