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sábado, 29 de junho de 2013

A Minha Sexta-Feira Santa em Banguecoque


Sexta-feira Santa o dia da paixão, morte e crucificação de Jesus Cristo. Dia da meditação, principalmente,  para todos os que professam a religião católica. Vivo num país, há duas dezenas de anos, de raizes budistas e onde a percentagem de católicos, na Tailândia está em meio por cento dentro de uma população de 64 milhões de pessoas. O catolicismo, no antigo Reino do Sião é introduzido pelos missionários portugueses e de quando se  fixaram na antiga capital Ayuthaya e  na proximidade dos cinco séculos. Não tarda, porém, a  importante celebração de 500 anos de um excelente relacionamento. 
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De momento, há ideias e projectos  para que a importante data tenha o realce que merece e sabemos que já foi nomeado um representante português, pelo Ministério Português da Cultura, para a organização dos eventos com a  cooperação da Missão Diplomática Portuguesa, em Banguecoque e com o departamento das Belas Artes da Tailândia. A chegada dos portugueses, oficialmente, data de 1511 e bem-vindos pelo Rei do Sião Rama Tibodi II e, constitui, sem dúvida, um marco histórico, importante, para o Reino do Sião que consiste na ligação entre este reino e a Europa. No Sião o arcaico sistema de defesa, onde, ainda, não são conhecidas as armas de fogo, foi  transformado pelos portugueses com a introdução de armas e canhões.
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Soldados lusos ministram aos siameses a arte de as manejar as armas, a construção de baluartes e outros sistemas de defesa para se protegerem dos constantes ataques do vizinho Reino do Pegú (Birmânia). A capital do Reino do Sião, na altura da chegada dos portugueses é Ayuthaya e situada a uns cem quilómetros do Golfo da Tailândia; o único caminho que existe é a navegalidade ao longo do rio Chão Praiá.
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Foi por este rio acima que em 1512, António Miranda de Azevedo, enviado especial de Afonso de Alquerque, ido de Malaca, chegou a Ayuthaya e inicia as primeiras conversações com Rama Tibodi II e a chave para a concretização do primeiro tratado de aliança e comércio entre Portugal e o Sião que viria a ser assinado pelo português (com credenciais de Embaixador) Duarte Coelho em 1516.

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Junto às duas margens deste rio, dividindo a cidade de  Banguecoque em duas partes, existem, ainda, nos dias actuais, três igrejas,  cujos nomes são bem portugueses: Imaculada Conceição, Santa Cruz e Senhora do Rosário. Nestes bairros já não são pronunciados nomes portugueses (além de José e Maria nos actos litúrgicos nas naves das igrejas) entre os residentes. O sangue luso já se encontra diluído pelas uniões inter-raciais.
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Entretanto os nomes dos lugares perduram e a memória de que foram locais de fixação da comunidade lusa/tailandesa de quando da queda de Ayuthaya sob a força das tropas, birmanesas, invasoras, em 1767. Todos os anos  nos eventos do Natal, Quaresma e Páscoa visitamos uma ou outra igreja. Por hábito  há vários anos,  durante Sexta-feira Santa, assistimos ao Auto do Calvário no Bairro de Santa Cruz. Comunidade já nossa conhecida há mais de uma vintena de anos.  
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Por ali muita coisa se transformou: a profanação do cemitério e exumadas as ossadas dos que ali foram sepultados desde a fixação da comunidade lusa/tailandesa a partir de 1767. Seguiram para outro campo de repouso, a cerca de 30 quilómetros de distância do Bairro de Santa Cruz. 
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O terreno da memória e da história do bairro era um espaço largo e nele depois de profanado foi construído um grande edifício que pensamos servir para alojamento do clero e freiras que exercem actividades no complexo religioso com igreja;  escolas de ensino primário e secundário. Um parque para carros; um outro espaço para a prática de modalidades desportivas dos alunos. Os residentes, pouco ou mesmo nada têm a ver com a descendência lusitana. Nem todos professam a religião católica, porém, vivem em perfeita harmonia dentro do aglomerado de vielas, estreitas e casas de madeira. Por ali, sem receio, a qualquer hora do dia ou noite  se pode caminhar por essas ruelas sem quem quer seja ser molestado. 
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Crianças bem nutridas, despreocupadamente, correm brincam, umas com as outras,  de  viela em viela e à nossa entrada, numa labiríntia dessas passagens, somos saudados, com inocente  cortesia, por uma  dessas crianças que não deveria teria mais de uns dois anos. Calculamos que devem viver no bairro umas mil pessoas. Os residentes são gente modesta, exercem actividades em Banguecoque que fica no outro lado do rio ou empregam-se em pequenas indústrias caseiras instaladas em suas casas . 
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Uma dessas mini-indústrias temos a confecção de queques, genuinamente portugueses, cuja produção tem passado de geração em geração desde que a comunidade lusa/tailandesa  se instalou em Santa Cruz.  A especialidade doceira ganhou fama na capital tailandesa!  
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Tem sido objecto de capas de revista; programas de televisão e quando alguma personalidade, pública ou mesmo da familia real tailandesa, visita o bairro de Santa Cruz a “fabriqueta” dos queques, é ponto obrigatório de paragem; provam a especialidade e apreciam-na. Os herdeiros para preservar a tradição dos seus antepassados não abdicam do forno redondo em tijolos, calcinados pelo correr dos anos, das cavacas de lenha e da amassadeira/alguidar cujo o eixo que vai dar o movimento de vai-e-vém a duas pás é accionado pela força braçal.
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Dentro do bairro há também umas poucas pessoas gradas e respeitadas pela comunidade há boa maneira e tradição portuguesa e entre elas destacamos o neto (já entrado na idade) do capitão Filipe que foi oficial da Marinha Real Siamesa e com alto cargo no Porto de Banguecoque no princípio do século XX.
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Não fugiram à objectiva da minha máquina fotográfica os rostos repletos de piedade e  concentração, na Via-Sacra. Fé de pureza incontestável e, esta a forma do bem estar e do viver entre a comunidade onde estão inseridos.
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No adro da igreja, ao fim da tarde operários dão os últimos retoques ao cenário de fundo que expressa o Monte das Oliveiras;  estendem um tapete vermelho desde a nave da igreja ao Cristo pregado na cruz; enquando mãos carinhosas preparam o andor onde a imagem de Jesus será deitado depois de solenemente, descrucificada  pelo José de Arimateia.
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Dentro do aglomerado de casas do bairro de Santa Cruz, afanosamente, vestem-se, maquilham-se os actores que vão participar no auto do calvário. Um grupo de jovens, dos dois sexos, durante o evento, vão estar na pele de guardas pretorianos, do bom e do mau ladrão; os samaritanos José de Arimateia e Nicodemo que irão fazer descer  Cristo da Cruz e amortalhá-lo. José a Virgem Maria, a judia piedosa Verónica, a pecadora Maria Madalena, convertida por Jesus Cristo, são figuras,marcantes, na cerimónia
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Junto às 7 da noite um rapaz de matraca na mão percorre o emaranhado das vias do bairro anunciando aos fieis que a cerimónia vai ter início. Outros, chegados da vizinhança, ocupam lugares no adro da igreja de Santa Cruz. O silêncio por ali é abismal, apenas, chega a eles o som da reza dos padres nossos e avé marias, da ladaínha, do interior da igreja.
José Martins/2005