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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 4ª
Carlos Manuel da Silveira mesmo experimentanto todas as dificuldades e penúrias de vivência não pretende abandonar a Feitoria. Obedecia ao seu Rei D.João VI quem tinha aprovado a Representação de Portugal no Sião e rebelde ao vice-rei da Índia.
A fuga da Família Real Portuguesa para o Brasil, fez criar "reizinhos" em Goa e em Macau.
Brasil estava distante e com vários meses para que a correspondência da Índia ou de Macau chegasse à corte instalada no Rio de Janeiro. Em 8 de Abril de 1824, o vice-rei D. Manuel da Câmara de Goa escrevia ao Senado de Macau e, agora, a favor da Feitoria e dos seus funcionários. Afirmava nessa carta que Carlos Manuel da Silveira teve conhecimento da extensão da Feitoria; lhe tinha dirigido vários ofícios informando-o que ele e o seu Escrivão se encontravam em Banguecoque:

" Que ele e o seu Escrivão se conservarão ali em todo o abandono, e desprezo, e na maior penúria, sem poderem dali sair com decência, e sem comprometer o decoro e a dignidade de Nação, achando-se nas circunstâncias de serem reduzidos a huma dura escravidão, por não terem com que satisfazer as dívidas, que tem contrahido para sua subsistência".
E acrescentava que a Feitoria poderia ter alguma utilidade para Macau, que Miguel de Arriaga delibere com o Senado se convém:

"Que a Feitoria seja abolida, e inteiramente abandonada ou que continue n´outro differente pé"
Outra carta do vice-rei da Índia datada em 18 de Abril de 1824, D.Manuel da Câmara dirigida ao Miguel de Arriaga remetendo-lhe uma cópia de ofício que escrevera ao Senado sobre o Cônsul do Sião, Carlos Manuel da Silveira e a Feitoria portuguesa estabelecida em Banguecoque. Solicitava-lhe que tratasse com o Rei ou o Ministro:
"Para que aquelle Cônsul saia dalli com a decência que convêm ao carácter de que estava revestido........ e se tomarem aquellas medidas que se julgarem ahi mais cabentes para se não abandonarem inteiramente as nossas relações comerciais com aquelle Reino em benefício dessa Cidade".

Porém dois anos antes em 15 de Setembro de 1822, sem ainda o vice-rei da Índia,ter conhecimento, Miguel de Arriaga tinha sido preso em Macau pelo governo liberal; mas conseguiu fugir para Cantão do navio que o levaria como deportado para Lisboa. Em 1823 voltou do exílio na China e desde logo as suas atenções estão voltadas para o Sião.
A 22 de Abril de 1824 o Senado deliberou:

- 1.º - "Que se verificasse o pagamento ao Cônsul das conveniências não recebidas;

- 2-º - Que se conservasse a Feitoria no pé da sua criação, pelas razões então ponderadas e que, sendo a criação do consulado procedente de uma convenção celebrada a recíproco contento de dois governos não se coadunava com o decôro nacional qualquer alteração sem que igualmente procedesse de mútuo consenso.

- 3-º - Que se publicasse a continuação da Feitoria, para ver se algum proprietário destinava para o Sião o seu navio para nele irem os socorros ao Cônsul e, pessoa para o substituir no consulado.

Na sessão seguinte o Leal Senado estipulou 1.000 taéis de paga para o cônsul e 400 taéis de paga para o seu escrivão, e nomeou o morador Miguel Vicente Rosa para cônsul. Nesta mesma sessão o conselheiro Arriaga participou ao Leal Senado que havia escrito ao ministro do Sião para obter do seu rei um adiantamento para as despesas do cônsul, adiantamento este que depois seria pago, conformando-se nisto com as intenções do vice-rei, manifestadas em ofício datado de 8 de Abril de 1821.
Após a morte de Miguel de Arriaga, o Leal Senado, no mesmo ano ano 1824, comunicou ao Governo de Goa que não podia calcular quanto seria preciso remeter para resgatar as dívidas daquela Feitoria, ou de seu cônsul, além de que tinha falecido o conselheiro Arriaga, quem tratava destas dependências, não tendo também tratado do transporte do novo cônsul nomeado, por falta de navios. Requereu ainda ao vice-rei da Índia para enviar um brigue de guerra e uma pessoa capaz de tomar conhecimento das contas entre o rei do Sião e o cônsul, "sem o que nada se poderia obter pois ninguém queria ter comércio com aquele reino, sabendo que o cônsul tinha contraído dívidas com o rei em nome da Nação"
Entendeu por isso o Governo de Goa responder ao Senado, " que era impraticável o envio de um brigue, por não haver vasos disponíveis, tão-pouco pessoa capaz para ir tratar de semelhante negócio, a um país mais vizinho de Macau, não sendo causa principal de assim se não ter executado a falta de numerário, pois que no estabelecimento da Feitoria e nos armamentos do brigue "S.João Baptista" em 182o e 1821, a capital do Estado (Goa) sacrificará o melhor de cem mil xerafins, e agora de bom agrado sacrificaria tudo o que pudesse dispôr para, o nome português não ser marcado com o ferrete de ignominia abandonando-se à sua sorte um seu empregado mandado a tratar de negócios que se apresentaram de muita importância na côrte de um príncipe bárbaro, idolátra e desconfiado"

Concluia por fim, aquele governo que lhe parecia justo, que como Macau e seus habitantes devessem colher quasi todas as vantagens da mesma Feitoria, sobre esses recaíssem as despesas da sua manutenção.

O Capitão Jacinto Moura esscreve: " A morte de Arriaga fôra fatal para a Feitoria. A aura de prestígio e simpatia que êle tivera em Macau tinha-se perdido para não mais voltar. Se bem que seja costume dizer-se que os mortos mandam, no caso presente, porém, sepultado que foi o corpo iname de Arriaga, como já havia dêle favores a esperar, nem penas a temer, não havia ordens a cumprir, nem desejos a satisfazer.
O entusiasmo, quasi ingénuo, pelo progresso de Macau e pelo engrandecimento do nome português, que dêle irradiara, envolvendo a muitos na sua chama de fé viva, sumira-se na húmida terra do seu coval.
Estava-se no ano de 1827 e o Leal Senado ainda não achara oportunidade de remeter ao Sião 1.200 patacas e cumprir as ordens do vice-rei e deliberações tomadas, fazendo assim consistir tais deliberações em palavras e não em factos, com desdoiro da Nação.
D. Manuel de Portugal e Castro, novo vice-rei da Índia, manifestou a sua estranheza ao Leal Senado por não terem sido cumpridas as ordens anteriores e enviou cartas das seguintes entidades acerca da Feitoria: "uma do governo de Bengala; outra do capitão Burney, enviado inglês regressado do Sião, dirigida ao secretário daquele Governo, George Swinton, que dizia se a situação do cônsul português altamente injuriosa ao carácter europeu; outra do cônsul ao mesmo Burney, pedindo interferência do Governo de Calcutá junto do Govêrno da capital de Goa; e outra do mesmo cônsul para o Governo de Gôa, relatando as misérias acompanhando a conta das despesas da Feitoria até 2 de Julho de 1826, na importância de 27.541 xerafins.
Mostrava-se, ainda aquele vice-rei extremamente impressionado, pelo facto de um govêrno estrangeiro ser reconhecido o pouco caso que se fêz de uma matéria tão grave, que decidia do crédito ou do desprêzo da Nação.
Ordenou por isso, que o Leal Senado tomasse medidas prontas e eficazes, a fim de que o cônsul pudesse sair com decência que cumpria ao decôro nacional, e que o Leal Senado se pusesse em estado de pagar as dívidas, que o cônsul tivesse contraído para a sua subsistência, e pagar também a sua passagem e do seu escrivão. Fazia outra vez ao Leal Senado responsável perante sua majestade, a quem passava a dar parte d~este negócio, da inexecução das ordens do govêrno de Goa e de tudo acêrca dêle tinha decorrido"
A infanta regente, tendo conhecimento da vergonhosa situação em que se encontrava a representação portuguesa na Côrte do Sião, ordenou ao Leal Senado que lhe remetesses todos os esclarecimentos, e informações possíveis acêrca do préstimo e carácter do cônsul, Carlos Manuel da Silveira, e seu escrivão, Cipriano José Baptista, assim como do estado e verdadeiras vantagens a esperar da dita Feitoria, comércio e construção de navios em Sião. Entretanto o govêrno de Goa escreveu ao govêrno de Bengala pedindo-lhe que fizesse chegar
Às mãos do cônsul 2.500 rupias, para o mesmo cônsul poder retirar-se com o seu escrivão da côrte do Sião, avisando ao dito govêrno que podia sacar tal quantia sôbre a Caixa Real de Macau.
Infelizmente o estado das cousas, a respeito da Feitoria Portuguesa em Sião, era o mais desanimador possível. A correspondência, por falta de navios para aquele pôrto, achava-se paralisada.
A dívida ao rei do Sião, feita em nome da Nação, era cada vez maior, por ter de se lhe acrescentar a do falecido conselheiro Arriaga.
Por isso, as duas mil e quinhentas rupias pedidas a Bengala não foram bastantes para fazer retirar o cônsul e saldar a conta com o rei. Segundo um documento, "tudo oferecia incentivos ao comércio e ganâncias dos especuladores, se os preliminares de amizade entre os dois reinos fôssem ratificados e se mandasse um homem que soubesse agradar ao novo rei e ao 1.º ministro e de quem os comerciantes pudessem confiar, homem com desejos de a todos ser útil, capaz de proibidade, e que olhasse para o bem do público, como devia".
Parece em tal documento atribuir-se aos cônsul todo o o insucesso da Feitoria, quando é certo que se maior fôra o cuidado de alguns, maior teria sido o proveito de todos"
O cônsul Carlos Manuel da Silveira justifica a falta de comércio entre Portugal e o Sião:" os siameses estavam antes animados a terem muito trato com os portugueses e particularmente com Macau, mas acontecimentos passados fizeram irritar o seu carácter desconfiado e presunção, e hoje parece que perdemos aquela confiança que tinha sôbre êles. Porém, eu julgo que, havendo qualquer tráfico, ao menos só com Macau, e de que êles tirem algum interêsse, e haja boa fé e exacto cumprimento nas promessas será fácil recuperar o nosso crédito, particularmente quando se lhes mostre tôda a independência e não continuemos a vir aqui mendigar carga".
Referindo-se à Feitoria dizia: "se os ingleses tivessem este cómodo lugar já tinham aqui ao menos duas grandes casas que certamente seria capazes de produzir um grôsso rendimento ao Estado já pelo frequente aluguel dos gudes (estaleiros) que seriam feitos de outro modo, já pelo rendimento das habitações e godões e os por cento que se concede ao cônsul. Isto é fácil que nós também o façamos e em Macau há quantas casas ricas e bem acreditadas que fariam melhor abraçar êste plano que arriscarem em ópio posto em Linting. Não é permito a outro estrangeiro ter aqui terreno e as casas que alugam são apenas cubículos só para malabares e de pouca segurança com respeito a fogo. O cônsul nunca deve ser mercador, para ser totalmente independente e melhor atendido nas suas requisições, a bem da sua Nação e comércio, e nas causas judiciais, que fôrem suscitadas entre os nossos com outros em que êle deve sempre ser ouvido. É preciso que na monção seguinte venha ao menos um navio, e será conveniente e digno da protecção de v.s. (o Leal Senado) de favorecer quanto puder para vir algum, e que venha estabelecer aqui uma casa de comércio, como acima fiz presente a v.ex.ª, algum d~esses ricos e poderosos mercadores de Macau, que os há, e com assaz inteligência para a fazer manejar com a energia necessária, e mostremos a êste rei, ao seu Prakalang e até aos estrangeiros que também temos com que dar uso a esta Feitoria e suas importantes circunstâncias. Eu tenho falado com alguns amigos meus, particularmente, com os dois mais respeitados cristãos, que há neste país, e os mais estimados dos dois reis: êles são próprios descendentes de portugueses e chamam-se Bendito Ribeiro de Alvergaria e Pascoal Ribeiro de Alvergaria. Êstes homens e o capitão do pôrto, José da Piedade, são do mesmo acôrdo e me certificam que o rei cederá que paguemos os mais moderados direitos possíveis, e que gozaremos de muita consideração a seu respeito, e isto,junto com os grandes lucros que se podem tirar, não deve ser indeferente a todo o bom português. O segundo rei, que é muito inclinado aos cristãos, tem dito em pública audiência, porque não aparecem as nossas mercadorias, que elas terão sempre mais entrada, e mais franqueza que nenhuma das outras nações. Depois de estabelecida a concorrência de comércio, e juntamente, uma ou duas casas neste lugar, o Estado pouco ou nada terá depois que dispender com a Feitoria, porque ela renderá assaz com que se possa manter sem assistência de outro lugar."
José Martins
Fim da 4ª parte
CONTINUA

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