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sábado, 11 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL E BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 7ª
Tratados entre o Sião e países estrangeiros


A 31 de Junho de 1826, foi assinado um tratado de amizade ente o Sião e a Inglaterra; porém esse tratado foi redigido e quatro línguas: siamês, inglês, malaio e português.
A 20 de Março de 1830, foi concluído o primeiro tratado entre os Estados Unidos e o Sião. O representante do Presidente Andrew Jackson e chefe da embaixada americana foi Edmundo Roberts que chegava ao Sião poucos dias antes no navio Peacock, que ia acompando da corveta Enterprise.
Um dos originais desse tratado foi escrito e siamês, e o outro em inglês. Ora, no tratado com a Inglaterra isso não chegava; e agora sucedeu o mesmo, pois os siameses ignoravam o inglês, e os americanos, o siamês, foram-lhe, pois, anexadas uma tradução portuguesa e outra malaia para servir de testemunho ao conteúdo. Edmundo Roberts recebeu dos siameses a alcunha de Emin Rabad (Nobre da América).
Em carta de 17 de Abril de 1833, o cônsul Silveira informava Macau de que ele dera e 15 desse mês um jantar ao Agente Diplomático Americano e ao pessoal da corveta e escuna. Lamentava ver os estranhos utilizarem-se do comércio siamês e nós não. Acrescentava que, se os portugueses quisessem pagar os direitos de 1700 ticais por cada vara siamesa pela largura de qualquer embarcação que levasse carga (e da que não levasse, 1500) medindo-se no meio do seu cumprimento, a toda a hora poderia sonseguir assinar um tratado de comércio.
Edmundo Roberts havia passado por Macau na sua ida para o Sião. Concluído o tratado, regressou aqui no mesmo Peacock e em Macau faleceu e sepultado no Cemitério Protestante.
Segundo o Monsenhor Manuel Teixeira foi colocado um epitáfio escrito em inglês que traduziu para o português: "Restos mortais do cavalheiro Edmundo Roberts, especial diplomata e agente dos Estados Unidos junto de algumas Cortes Asiáticas, o qual faleceu em Macau a 12 de Junho de 1836, na idade de 50 anos.Planeou e executou até ao fim sob instruções do seu governo, tratados de amizade e comércio entre os Estados Unidos e as Cortes de Muscate e do Sião.Erecta à memória do cavalheiro Edmundo Roberts, de Portsmouth New Hampshire, pelos cidadãos dos Estados Unidos residentes em Cantão, 1836".
Roberts faleceu quando se dirigia ao Japão com o fim de assinar um tratado entres os E.U. e essa nação. Como se pode verificar os Estados Unidos um país com pouco mais de meio século, independente, estende os tentáculos à Ásia e Extremo-Oriente em procura da concretização de tratados. Seus enviados, diplomatas, eram transportados em navio e com escolta de vaso de guerra.
Ora o cônsul Carlos Manuel da Silveira, econtrava-se em Banguecoque numa total desamparação que não duvidamos a sofrer a humilhação perante a chegada dos ingleses e dos americanos a Banguecoque com todo aquele aparato naval e com outras condições para firmar tratados que Portugal não tinha.
Dois enviados ingleses ao Sião, Dr. John Crawford (1822) e o Capitão Henry Burney, lidando de perto com Carlos Manuel da Silveira elogiaram-no como cavalheiro de fino trato e os ajudou no encetamento das relações com a Corte do Sião.
O Capitão Burney em carta que endereçou ao seu governo informava que o cônsul Carlos Manuel da Silveira e o Dr. John Crawford o tinham auxiliado em Banguecoque. Depois o Dr. Crawford no diário de sua jornada escreveu o seu diário o reconhecimento ao Sr. Silveira.
Conde do Rio Pardo diz que nomeara, cônsul, Carlos Manuel da Silveira por lhe parecer "inteligente e prudente". O historiador Syamananda, faz-lhe boas referências e uma figura popular no Sião. Mas Silveira teve pela frente as invejas, internas, da ainda pouca comunidade estrangeira, residente, em Banguecoque e ainda as que se movimentavam, contra sua figura e a de Miguel Arriaga, em Goa e Macau que os ia minando.
Foram as características, próprias, dos portugueses, vindas de séculos, onde os mediocres, procuram destruir, dentro da imbecibilidade, os homens com algum valor. A parcela de terreno doada aos portugueses pelo Rei Rama IV produzia muita inveja aos ingleses, e desta, partia o motivo, para que se acendesse a intriga e maledicência em desfavor do cônsul Silveira na corte siamesa. Mas dentro de toda a fama de mal visto o cônsul Silveira, as vozes discordantes, públicas, e cima de sua conduta partiam de umas poucas pessoas:" do Praklang e do historiador Ljungstedt" que bem eram suficientes para que a sua figura fosse mal vista perante os siameses, comunidade portuguesa, chinesa e malaia. Anders Ljungstedt, de nacionalidade sueca, por anos residente e Macau, mercador e historiador foi contemporârio de Silveira, censura-o asperamente sem razão alguma.Afirma que cônsul, português, em 12 anos de permanência no Sião não fez obra alguma a não ser a construção de uma casa para sua própria conveniência. A casa de conveniência não era mais que uma barraca erguida em cima de toros de árvores, com divisões de canas de bambu, barradas com com lama seca e uma varanda, virada para o poente, para que ao fim da tarde, antes que o espaço não fosse invadido de "mosquitada" tomar algum ar fresco vindo da corrente da águas do rio Chao Prya. Bem prova temos do que escrevemos, isto porque, num desenho elaborado, pelo jornalista inglês Fred A.Neale,em 1848 (gerência de Marcelino Rosa), a casa ainda se encontra como Carlos Manuel da Silveira a tinha mandado construir para nela viver e, certamente, com anexos para o pessoal que o servia.
O sucessor Marcelino Rosa, não fez obra nenhuma, durante os 23 anos de cônsul; mas acomodou-se de forma diferente, com a comunidade estrangeira; fazendo amizade com o inglês Robert Hunter e com outros residentes cujo o orgulho de português e homem de acção não lhe permitiu.
Monsenhor Manuel Teixeira interroga: "Construiu algum navio? Concluiu algum tratado?Aumentou a Feitoria? Ou, pelo menos, restaurou a mesma?" E aponta-lhe o dedo incluindo António Frederico Mor, como representantes de Portugal que nada tenham feito a não ser o de cônsul.
Consulado de Marcelino Rosa

A 31.12.1831, o Senado infomou o vice-rei da Índia que é notória a boa inteligência e proibidade, com que se portou o dito Marcelino todo o tempo, em que teve a seu cargo a feitoria portuguesa de Banguecoque. Depois da gerência interina, regressou a Macau, em 1831. Em 16.5.1832 o vice rei de Goa oficiava o Leal Senado de Macau:
"Atendendo as repetidas instancias dirigidas pelo Rey de Siam a este Governo, e ao Leal Senado de Macao, para ser removido do lugar de Consul, e Feitor da Feitoria Portuguesa sita em Bangkok naquelle Reino Carlos Manuel da Silveira, que tem exercido, Hey por bem dar a este por findo, e acabado o dito Lugar; e tendo respeito ás boas informações prestadas pelo dito Leal Senado a favor de Marcelino d´Araujo Roza, que já fora por algum tepo, encarregado dos negocios da dita Feitoria e dera boa conta delles, servindo sem nota, e conciliando a estima, e consideração do dtiro Rey, e seus Ministros", nomeio-o Cônsul e Feitor.

A 15.10.1832, o Senado comunicou a Marcelino esta nomeação de 16.5.1832.

Ao Rei de Sião escreveu o mesmo Vice Rei da Índia, uma carta datada em 30 de Março de 1832; a 12 do mesmo mês recebera pelo brigue Elisa a carta de 5.7.1831, que em nome do Rei lhe escrevera o Ministro dos Negócios Estrangeiros Praklang Chau Phaia Pra, "participando-lhe a conducta que Carlos Manoel da Silveira nomeado pela segunda vez por este Governo da Índia Portugueza nos Domínios de V.Magestade, tinha tido durante o tempo, que ahi exerceu este cargo da primeira vez atrahindo por ella, o que eu ignorava, o reparo, e dezaprovação de V. Magestade, dos seus Ministros, e perdendo a confiança dos Mercadores Siamezes, Portuguezes, Chinezes, e Mouros des Cidade Ayuthia (sic) V.Magestade por essa occazião na intelligencia, que sua demora nesse Reino certamente diminuira a amizade, que felizmente subsiste entre ambas as Nações, e significando-me os seus Reaes Dezejos que para a conservação da mesma amizade convinha mandar o mais breve possível outra pessoa capaz, que fosse encarregado do dito Lugar de Consul Geral, e Feitor e Lugar do dito Carlos Manoel da Silveira, para assim augmentar a dita amizade, e florescer para sempre. Por cuja razão condescendendo inteiramente com a Real Vontade de V.Magestade mando render ao dito Carlos Manoel da Silveira e en seu lugar tenho nomeado Marcelino de Araujo Roza, que por ahi está encarregado da dita Feitoria, e mereceo a Real Estima de V. Magestade e dos seus Ministros; rogo a V.Magestade se sirva por effeito da sua Regia Magnanimidade conceder-lhe a sua protecção, e favor, para que elle possa administrar os negocios da dita Feitoria em utilidade reciproca de ambas as Nações Portugueza e Siameza".
Acrescentada o V.Rei da Índia que o Rei do Sião continuasse a considerar Portugal como a nação mais favorecida.
A 6 de Maio de 1833, D.Manuel de Portugal e Castro, Governador da Índia acusava a recepção do ofício n.º 11, de Dezembro de 1832, em que o Senado lhe participava que Marcelino de Araújo Rosa, nomeado em 16.5.1832 cônsul da Feitoria Portuguesa do Sião, ficava de partir para o seu destino no brigue S.Francisco Xavier, e que com ele iria a guarda militar para render a outra, que ali estava, bem como os presentes para os magnates; este brigue só partiu a 15.2.1833, aportando em Bangkok a 4 de Maio. (Demorou a viagem de Macau a Banguecoque 71 dias).
Marcelino Rosa escreveu três cartas ao Senado a dar conta do que se passou após a sua chegada: uma de 15 de Maio e duas de 1 de Junho de 1833; remeteu outra do 1.º ministro do Rei do Sião com a lista dos presentes; e ainda a conta da venda dos presentes do Rei e do Praklang; e, finalmente 2 caixotes com cartas do Rei do Sião para o Vice Rei da Índia; tudo isto chegou a Macau no brigue S.Francisco Xavier que o levara a Bangkok. O Senado todas as cartas ao Vice Rei da Índia pelo navio Feliz Viana. A 18.4.1834, o Governador da Índia escrevia ao Leal Senado:
"Vi o que esse Leal Senado e escreveo em o seu officio documentado N.º 9 relativamente aos negocios de Siam, e correspondencia do novo Consul Geral Marcelino de Araujo Rosa, na qual se por huma parte observo os vivos desejos que o Rei, e Ministro daquelle reino mostrão de renovar as antigas relações commerciais com os portuguezes no mesmo pé das mais favorecidas Nações, por outra parte noto também o justo reparo do mesmo Soberano sobre a total falta de Navios da nossa Nação nos seus Portos, para gozarem das vantagens já concedidas, e de outras prometidas. Confio que esse Leal Senado prestará toda a atenção que pede a importancia deste assumpto, e as vivas recomendações da nossa Corte para se restabelecerem as ditas relações,persuadindo os Negociantes proprietários dos Navios dessa Praça a que dirijão as suas especulações para os mencionados Portos a fim de que não venham a perder o estabelecimento de huma Feitoria, que com tanto custo, o incommodo se tem conseguido, havendo por muito recommendado a esse Leal Senado que faça todo o esforço para que alguma embarcação dessa Praça vá commerciar a Bangkok coo muito deseja o referido Rei e seu inistro, tomando-se na devida consideração tudo quanto a este respeito te escrpto a este superior Governo, e a esse Leal Senado a actual consul Marcellino de Araujo Rosa"
A 24 de Abril de 1834, o Vice Rei da Índia deu autorização ao Senado para, juntamente com o Governador e o Ouvidor poder declarar livres de direitos no porto de Macau os navios portugueses vindos da Conchinchina,Cambodja e Sião. No mesmo ano e a 23 de Dezembro, o Senado solicitava ao Vice Rei da Índia permissão para que fosse adiada a execução da isenção de direitos. Não se tem conhecimento de resposta do Vice Rei.
Porém a 5 de Fevereiro de 1836, o Senado escrevia um ofício ao Governo de Goa sobre a inutilidade da feitoria de Banguecoque, as despesas que tinha de fazer com ela e ainda os subsídios anuais de Timor e Solor, declarando que ia prevenir esses dois estabelecimentos que de futuro não os ajudaria mais.
Em 9 de Maio de 1836, o Governador da Índia respondeu que não poderia fazer alteração algumas sem o consentimento régio. Entretanto o jornal de Macau "O Macaísta Imparcial" publicava: "Por cartas particulares do Consul Portuguez em Siam, datadas de 28 de Fevereiro e 16 de Março deste ano (1836) sabemos que a Feitoria Portugueza continuava frequentada de Estrangeiros; rende alguma couza, e a casa de rezidencia do Consul nunca esteve em melhor estado. Hum junco por nome "Emprehendedor" partio de Bangkok para Singapura com uma nova especulação, levando a bandeira Portugueza; o Consul accrescenta que esta embarcação he a primeira que sahio de lá com a bandeira Consituicional da Rainha".
Pela morte de Marcelino de Araújo Rosa, ficou encarregado do consulado, o secretário do mesmo, Joaquim Maximiano da Silva, que o geriu de 22 de Julho de 1852 a 22 de Março a 1855. Pouco antes da saída de Marcelino Rosa, vítima de um acidente em que morre afogado no rio Chao Prya, não muito distante da embaixada, faleceu o Rei Rama III do Sião e o princípio de uma nova era para o Reino com entronização do Rei Mongkut, Rama IV .
Nossas considerações relacionadas com a gerência do Consulado por Marcelino de Araújo Rosa: Foi absolutamente desastrosa para o relacionamento de Portugal e o Sião.
Consultamos a obra "Relações entre Macau e Sião" e apenas fomos encontrar um expediente de 18 ofícios recebidos e expedidos, em 22 anos, da gerência do Marcelino Rosa e poucas comunicações falam de incrementar o comércio entre Macau e o Sião, mas assuntos, relativos ao funcionamento e, falta de verba para o pagamento de ordenados.
Uma Portaria de 7 de Abril de 1845, do Ministério da Marinha e do Ultramar, dirigida ao Governador de Macau, a pedir-lhe informações acerca da Feitoria de Portugal no Sião, devido a uma Nota recebida do Leal Senado, em que era considerada desnecessária a conservação, da mesma, devido à supressão absoluta das relações comerciais com o dito reino.
Os esforços de Miguel de Arriaga e Carlos Manuel da Silveira, para enaltecer Portugal no Sião, mesmo lutando contra a intriga e a inveja dos estrangeiros que começavam a descobrir o Sião como uma "mina de ouro". Enquanto o cônsul Silveira nunca grangeou ou se acomodou com as simpatias de Roberts Hunter (o homem que dominava todo o comércio internacional) e com outros, muitos dos quais aventureiros em procurado "el dourado" na Ásia, o Rosa criou amigos, de outras nações e deixou-se corromper por eles.
Porém quem vem colocar tudo a limpo e a descobrir os actos ilícitos e corruptivos do Rosa, foi o jornalista/escritor inglês Fred A. Neale, que produziu um desenho do terreno do consulado de Portugal em Banguecoque, com uma enorme construção que é mais nem menos que a Missão Americana dos Baptistas.
A casa do cônsul, do pessoal que o servia é precisamente uma pequena, no lado direito da imagem e nas proximidades de uma árvore tamarindeira, que hoje, se encontra no mesmo local.
Com tudo isto nos leva a uma conclusão que parte parcela do terreno foi oferecida, pelo Rosa, à sua "bonita" namorada siamesa, onde lhe foi construída casa e, com isto, a rapariga se quedasse mais à mão do seu amor "platónico".
Não há documentos em arquivos, conhecidos, se refiram a essa construção ou autorização, de Goa ou de Macau, para o arrendamento do terreno onde lhe foi levantada.
Fred Neale salvou a história com o desenho!
Não conhecemos nenhum historiador, português, se tenha referido ao livro de Fred Neale "Residence in Siam at the Capital of the Kingdom of the Siam", editado em 1850, que adquirimos, há 30 anos, na livraria "Ásia Books", na "Sukhumvit Road", quando ainda para além das bermas, da larga e mais comprida avenida da Tailândia (ligando à estância balnear de Pathaya, cerca de 16o quilómetros) havia quintais com verdura e coqueiros.
O livro de Fred Neale, foi o primeiro que comprei, relativo à história da era de Banguecoque e que entre os milhares de livros que a minha biblioteca particular, comporta, tem aposto o número um.
Foi esta Obra a nossa inspiração e o prazer que nos dá em escrever sobre a história do relacionamento de Portugal com a Tailândia.
José Martins
Fim da parte 7.ª
CONTINUA

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