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terça-feira, 7 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 5ª
A FEITORIA

Vamos transcrever a Feitoria de Portugal tal como a descreveu o Capitão de Artelharia Jacinto José do Nascimento Moura nos anos (calculamos) de 1929 numa sua passagem por Banguecoque cujos textos foram publicados no "Boletim da Agência Geral da Colónias", nº 70 de Abril de 1931.
A Feitoria está situada num terreno baixo, a 13º 42´30´de latitude N. e 109º 50´30´ de longitude ao Oriente de Lisboa, na margem esquerda do rio Menam e a 25 milhas da barra de Bangkok. O terreno da Feitoria, na posse do consulado, que anteriormente à cedência a Portugal fôra ocupado por um príncipe anamita, confronta a Oeste com o rio "Menam Chao Phya": a Norte com um caminho público estreito que o separa de outros terrenos e habitações particulares: a leste com o caminho público ou rua "Bush Lane": ao Sul com o riacho "Klong Bang Rak", que separa a Feitoria da Central dos Correios e Telégrafo franceses, onde se encontrava outrora instalada a legação legação de Inglaterra.
A Feitoria tem actualmente de comprimento Norte-Sul à margem do rio Menam 113, 61 metros e lo lado oposto interior, 121,61 metros. De largura de Leste a Oeste, 87,78 metros. Norte do terreno, e 106 metros quadrados. Todo o terreno está dividido em quatro lotes.
A contar do riacho. O consulado encontra-se no segundo lote. Em todos os lotes há casas e armazéns, construídos pelos antigos inquilinos, hoje pertencentes ao consulado. Pelas informações prestadas pelo actual cônsul, tanto o consulado, como os armazéns estão em mau estado. Um ponto tem sido objecto de referências desfavoráveis para o cônsul Marcelno Rosa e desejo pôr em evidência. São as dimensões da Feitoria.Diz-se que este cônsul ofereceu uma parte ( a metade, supõe-se), do terreno a uma linda siamesa, a qual, para pagar uma dívida ao jôgo, hipotecou aquele terreno po 99 dólares mexicanos à missão americana dos Baptistas. Como a missão não fôsse reembolsada da importância emprestada ficou com o terreno. Embora não haja documentos que provem este facto, há tradição entre os siameses, que contam isso, e um velho missionário americano de nome L. Schmidt, que conheceu Marcelino Rosa, e que em Bangkok residiu por muitos anos, narrava várias vezes o facto, dizendo que se tinha passado com ele. Parece-me que tal facto se verifica comparando as dimensões do terreno apontadas na carta dirigida pelo primeiro ministro do Sião ao vice-rei da Índia, com a data de 9 de Novembro de 1820, atrás publicada, e as do que hoje está na posse do consulado. Calculando as 72 e 50 braças siamesas ali indicadas a 6,5 pés cada, e sendo cada pé 0,304, temos respectivamente de dimensões 142,272 num sentido e 98,80 metros noutro, o que é evidentemente diferente das que a actual Feitoria tém. Examinando-se o acto de posse do cônsul Carlos Manuel da Silveira, verifica-se que o terreno era dividido em duas partes quási iguais, separadas por uma pequena angra, sôbre a qual havia uma ponte.Esta angra deve ser sinónimo de riacho. como existe nas delimitações da actual Feitoria um riacho que a Sul a separa da Central dos Correios e Telégrafo, onde se achava a legação de Inglaterra, é naturalissimo que o terreno, que foi ocupado por esta legação, tivesse sido o que pertenceu à Feitoria. Aos investigadores e curiosos fica apontado este assunto (1) que se me afigura de algum interesse histórico e ainda que mais não seja, para perpétua condenação de um funcionário menos digno que o caso ou favor levou a tão melindroso posto no estrangeiro, que não soube honrar.
O Cônsul Silveira é substituído por Miguel Rosa
O cônsul Silveira ia-se malquistando no Sião, não apenas pelas irregularidades que, porventura cometesse, mas por intrigas de estrangeiros e má vontade (2) do Praklang. Em 1829 a situação do cônsul era tal que o Senado de Macau houve por bem mandá-lo retirar, enviando no brigue "Esperança" o morador Miguel Araújo Rosa para o substituir. Silveira dirigiu-se a Goa e Miguel Araujo Rosa pouco tempo se demorou no consulado, fasendo-se substituir por seu filho Marcelino de
Araujo Rosa, que o havia acompanhado. Pelo exame que temos vindo a fazendo acêrca da personalidade do primeiro cônsul do Sião, evitámos em classificá-lo, devido à situação de abandono a que vimos foi relegado o consulado quer por Macau, que por Goa, quer ainda pela Metrópole que nada resolviam quanto à parte importante da sua sustentação, entretidos todos mais nas lutas internas do que no prestígio do nome português no estrangeiro. Seria ele de facto, um dêsses indivíduos imorais a quem por incúria na selecção, ou falta de rigor na punição, esteve confiada a representação de Portugal num país distante, ou seria pelo contrário, por ilógico que isso pareça, um patriota devotado ao seu país acolmado de relaxo?
Não têm sido raros os exemplos que a História nos regista de factos dessa natureza. Os mais dignos filhos de Portugal têm sofrido da injustiça dos seus concidadãos.
Não foi Camões, o cantor imortal das nossas glórias, de Macau a Goa a dar conta dos espólios; e Albuquerque o aguerrido conquistador e o criador do Império Oriental Português, acusado por dever ao tesouro e por fim de morto pela inveja e pela ingratidão de quem o devia admirar e galardoar?
Se o Oriente foi a nossa ruína como o disse Oliveira Martins, aliás exagerado no seu conceito, devemos confessar que ela se deve mais aos nossos dissídios caseiros, do que à insuficiência dos meios para arcarmos com a obra que inicialmente nos propusemos ali realizar.
Haverá, pois, também que filiar a má reputação de Silveira no campo vasto da ingratidão e injustiças humanas. mas quem poderia invejar um cargo de cônsul sem receitas, com fracos honorários e tardiamente ou nunca pagos?
(1) Creio não seria agora difícil averiguar este facto nos arquivos da Missão Americana dos Baptistas ou mesmo na Legação de Inglaterra. Apesar de não nos termos poupado a longos trabalhos para fazer esta resumida notícia, não pudemos ir mais além.
(2) Pelos conselhos prestados por Silveira ao seu sucessor Rosa se vê que alguma coisa deve ter haviso de má vontade do Praklang que tivesse concorrido para o mau conceito em que as autoridades siamesas tinham o cônsul Silveira.
Assim dizia este seu sucessor Rosa.
"Se os negociantes de Macau tomassem peito a convencer este Rei de que a dificuldade de virem navios era tão sómente por não haver um tratado, que estipule com estabilidade a redução de direitos e franqueza de comércio, deveriam associar-se os mais poderosos entre eles e mandarem um navio de 200 a 300 toneladas tão sómente destinado a comerciar em Bangkok, e então veriam o que resolveria o mesmo Rei e o seu Praklang fazendo o cônsul a êsse tempo persuadi-los (ao Rei e Praklang) que com efeito os negociantes de Macau mandaram este navio estando animados a fazer frequentar o pôrto de Bangkok, visto que Sua Majestade prometeu redução de direitos e liberdade de comércio como convém; então não sei que desculpa poderá produzir o Rei e o seu orgáo, o Praklang; ainda que o resultado não fosse o deejado, a perda não seria demasiada aos interêsses do navio porque, carregado com géneros dêste país à custa deles, não deixarão de salvar as despesas". (1) referindo-se a Silveira disse um seu contemporâneo Miguel Rosa, que ele possuia "génio altivo e governativo, e ao mesmo tempo que possuía qualidades de trabalhador e de tal modo que pôde fazer chegar os seus clamores aos pés do trono".
Nota nossa: O cônsul Carlos Manuel da Silveira, pelo que já temos lido e escrito em cima da sua obra e personalidade era a pessoa certa para ocupar, a posição de o primeiro cônsul de Portugal no Reino do Sião. O Conselheiro Miguel de Arriaga, tinha o Carlos Manuel da Silveira como um homem de sua confiança e, até, pertencia a sua família, encarregou-o para representar a coroa portuguesa junto à coroa do Sião.
Miguel de Arriaga nasceu em Macau, filho de José de Arriaga Brum da Silveira, natural do Faial, Horta, Açores que teria vindo para Macau em comissão de serviço do Estado. O nome de Miguel de Arriaga ficou imortalizado em Macau depois de sua morte e a justiça foi-lhe feita! Uma avenida que não há residente de Macau não conheça: "Avenida do Ouvidor Arriaga"...
Pertencia a uma família ilustre açoriana e, mais tarde, Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue viria a ser o primeiro presidente da República Portuguesa.
Porém na Ásia e Oriente português (que assim se pode considerar), a intriga, a inveja, o oportunismo foram factos da vida dos portugueses que nunca se conseguiram livrar.
Merece um estudo profundo dos entendidos nesta matéria porque teria sido que tal coisa sucedia (principalmente na Índia portuguesa) que em vez dos portugueses enaltecerem Portugal (como sempre o fizeram os ingleses nas possessões que colonizaram) ocupavam-se, os mediocres, a fabricarem, habilidosamente, a intriga cuja a finalidade era destruir o português que vivia a seu lado e ocupar o seu lugar.
Nós com 24 anos anos na Embaixada de Portugal, em Banguecoque, tivemos por algumas vezes de nos enfrentarmos com a fabricação da intrigas, com a difamação; com a incompetência; com a indolência e até, infelizmente, com acções (ver e calá-las) pouco honestas praticadas pelo "poder" ou os acólitos, funcionários, que até servem, o poder, como "pontas de lança" e deles se servirem se porventura forem chamados à responsabilidade e faze-los "bodes expiatórios", para sacudirem a água da "casaca" .
Tudo contribuiu para ruir a presença de Portugal na Ásia e Oriente, que voltou num velho trópego a finar-se e não tarda.
José Martins
Fim da quinta parte
CONTINUA

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