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sábado, 27 de setembro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 2ª
Depois da doação do terreno a Portugal, junto à margem do rio grande rio o Chao Prya, as intenções do vice-rei da Índia e do Rei Rama II seria que ali fosse construído um estaleiro para construir embarcações e serem os portugueses a incrementar a saída, do Sião, para o exterior a riquezas do Reino.
Banguecoque erguia-se com morosidade desde que o General Thaksin, deslocou toda a população, a que se salvou da fúria do exército peguano em 1767. Nos anos de 1820, continuava a não (aparte da chinesa,portuguesa e malaia) haver comunidade estrangeira na nova capital.
A portuguesa, calculada em cerca de umas duas mil a três mil almas, vivia conforme podia para sobreviver empregando-se os homens ao serviço da corte, nas construção de novas casas, ao longo dos canais e as mulheres ocupando-se a cuidar dos filhos e em pequenas industrias caseiras confeccionando fios de ovos ou queques cuja receita tinha sido introduzida pelos portugueses em Ayuthaya.
Parte das transacções comerciais entre o Siao, a China e os portuguese era efectuadas pela permuta de mercadorias. O projecto para a cunhagem de moeda no Sião nasce em 1835, no reinado de Rama III, pelo mercador inglês Roberto Hunter que viria a ser contratado pelo monarca, a fixar-se permanentemente, em Banguecoque, onde desempenhou elevados cargos na corte siamesa.
Roberto Hunter, segundo Ana Leonwens, professora de inglês, contratada pelo Rei Mongkut, Rama IV, no seu livro o "The Romance of the Harem", casou com a lusa descendente Rosa, nascida no bairro da Imaculada Conceição, na área de Samsem e a curta distância do palácio real onde se instalava o Rei e sua corte e lhe teria dado dois filhos.
Porém a cunhagem, oficial, de moeda siamesa só viria acontecer em 1860. A moeda a circular no reino do Sião, em 1820, continua a ser a usada por mais mais de seis séculos o "Pod Duang". Entretanto havia outra moeda, as conchas, a circular entre a classe, pobre siamesa, cuja esta, provalvelmente, introduzida pelos mercadores indianos, com o nome Bia, dividida em oito valores: " Bia Palong, Bia Kao, Bia Nang, Bia Moo, Bia Lom,Bia Bua e Bia Tum".
Seis mil e quatrocentas conchas, equivaliam a um bate de peso (15,2 gramas) de um Pod Duang. A moeda Bia, conchas, era classificada pela a puridade, natural da cor branca e como na era moderna, apareciam as falsificações que eram nem mais nem menos com a acentuada, tonalidade, da cor amarela. As conchas como moeda, circulante, extingui-se em 1862, no reinado do Rei Mongkut. Nos dias de hoje a frase Bia ficou entre os tailandeses no termo "Dawk Biaw" (Daúque Biá) que traduzida para a língua portuguesa definine-se: "que juros... sem ter conchas a render?".
Voltando ao início das relações diplomáticas entre o Sião e Portugal, depois de 1820, os monarcas tailandeses, continuavam a viver o trauma da queda de Ayuthaya e sempre receosos de novo ataque dos birmaneses. Banguecoque estar-lhes-ia ao alcançe quer pela entrada da embocadura do rio Chao Praya ou pela fronteira do "Três Pagodes" e, fácil depois da província de Kanchanaburi atingirem Thomburi, onde o General Thaksin instalou os siameses e comunidades estrangeiras junto ao forte que ainda hoje existe, como monumento.
Ao Rei Rama II apenas lhe faltavam armas ligeiras e estas a única fonte que lhas poderia fornecer seriam os portugueses, de grande tradição, na época de Ayuthaya. O reino está sem armas de infantaria e para as pesadas, os canhões, são construídas fundições em Thomburi com mestres de fundição siameses,chineses e portugueses (Ainda há pouco tempo tivemos a prova disso de quando visitamos o museu de artilharia, a céu aberto, nos jardim frontal do Ministério da Defesa). Temos perante, nós, a excelente obra (embora necessite algumas correcções que nos vai servindo de "matriz" para concluirmos este longo trabalho), " Portugal na Tailândia" do Monsenhor Manuel Teixeira, que em boa hora o embaixador Mello-Gouveia o convidou a escrevê-la em 1983.
Dado às facilidades de consulta que o historiador possuia em Macau, vasculhou arquivos antigos e recolheu importante documentação, que bem nos serve, juntando os nossos pontos de vista. Sem esta boa obra e outra documentação antiga, evidentemente que não poderia levar a bom porto o que pretendo e que sirva para novos futuros historiadores, interessados na matéria para que Portugal não seja "riscado" do mapa, histórico, das relações de 500 anos entre Portugal e a Tailândia.
O Rei Rama II do Sião, depois do Cônsul Carlos Manuel da Silveira lhe ter feito a entrega das Cartas que o daria como o primeiro representante de Portugal junto à Corte ao Carlos Manuel da Silveira é lhe conferido o título honorífico, siamês, de "Luang Apaiwanit". De regresso a Goa o brigue S.João Baptista, carrega valiosos presente para o vice-rei da Índia, Conde do Rio Pardo e com a recomendação do Rei Rama II, que os distribuisse a pessoas que bem melhor entendesse. Junto uma carta onde enaltecia os bons ofícios do cônsul Silveira e de toda a tripulação do brigue S.João Baptista.
Em 1819, o Governo de Macau enviou Carlos Manuel da Silveira ao Sião, cuja missão seria procurar facilidades para construir navios e comercializar na nova capital. No Sião havia abundantes, boas e a baixo custo, madeiras. Dado ao meio de transporte facilitado, aos toros, centenários de madeira de Teca, pelo caudal do rio Chao Prya, desde o norte do Sião, até Banguecoque, seria assim o lugar ideal para construir navios, que seriam do tipo dos juncos chineses.
O Silveira não se apresentou como enviado do Governo de Macau mas um comerciante estrangeiro. Rei Rama II acedeu à sua pretensão e desde logo lhe ofereceu um terreno na margem oriental do rio Chao Prya e uma casa. Essa parcela de terreno, veio depois a ser a que foi doada a Portugal em 1820.
Antes de Carlos Manuel da Silveira de ser nomeado cônsul de Portugal, já era uma figura popular e bem acolhida na corte do Rei Rama II. O Carlos Silveira, como agente disfarçado do Governo de Macau, antes de 1820, tinha vendido canhões e armas ao Sião. É de crer que José da Piedade, luso descendente, capitão-mor do porto de Banguecoque tenha sido uma peça, importante, nas relações entre o Silveira e corte.
Carlos Manuel da Silveira, pelo que se analisa tinha perfil diplomático e bem soube explorar, com mestria, a carência de armas que o Sião tinha.
Sem haver a certeza se assim foi, parece que numa venda de 3 mil espingardas, negociadas pelo Carlos Silveira o monarca siamês teria sido informado que o Governo de Macau possuia, no território, uma fábrica de espingardas, quando de facto nunca ali tinha existido nenhuma e só a fundição de canhões de Manuel Tavares Bocarro desactivada havia mais de século e meio.
Em 1819, um ano antes da doação do terreno e assinado o Tratado de Amizade e Comércio, o Rei do Sião pagou adiantadamente 5000 patacas para uma ordem de espingardas ao preço de cada unidade de 4.320, patacas, que tiveram depois de ser compradas na Europa ao preço de 4 patacas cada.
Porém, em 2 de Março de 1824, o Rei do Sião, ainda não tinha recebido as espingardas. Miguel de Arriaga escreveu ao Rajah do Sião, cujo intermediário foi o luso descendente (vassalo do Rei do Sião ), José da Piedade, a dar-lhe conta do pedido da encomenda de espingardas e o recebimento de 4.320 patacas para o pagamento. Mas a falta de cumprimento da encomenda de armas ao Sião não pertence a Miguel de Arriaga, isto porque recebida a encomenda desde logo escrevera para o Brasil a encomendá-las.
Aconteceu que da encomenda apenas foram entregues de uma vez 400 e de outra 248 espingardas. Entretanto o Rei do Sião efectuou mais uma entrega de dinheiro e fica um montante, para comprar mais espingardas, de 5.378 patacas, cujas estas nunca viria a receber e o retorno do montante, ao Sião, só viria acontecer, em 1829.
Quem saldou a conta foi o Leal Senado de Macau e com Miguel de Arriaga, já falecido, quem viria a arcar com a dívida foram os herdeiros, descontada, através de pagamentos que lhe pertenciam do Leal Senado.
O pobre do cõnsul Carlos Manuel da Silveira está metido numa camisa de sete varas, pela falta de cumprimento da entrega de armas, passa vergonhas de "caloteiro" e misérias de viver com o pessoal que o servia.
Está para ali um representante num largo terreno, sem estaleiro para construir barcos, casa decente para viver e certamente a passar fome, juntamente, com o seu pessoal, ao sabor da caridade de amigos e empréstimos da corte do Sião.
O vice-rei da Índia envia ao Leal Senado de Macau uma carta, datada em 30 de Março de 1829, com o teor seguinte:
"Fico sciente das medidas, que V.S.ª tomou, para mandar render a Carlos Manuel da Silveira, encarregado desta comissão ao morador Miguel de Araújo Roza pela maneira e. com as instruções, que extensamente me refere no seu ofício nº 14 da presente monção, remettendo sete mil patacas, para esse fim e para pagamento da dívida, que o Conselheiro Ouvidor Miguel da Arriaga Brum da Silveira contrahira com o Rei de Sião, para fornecer de certo numero de Armas que ficou de lhe enviar, e não enviou; o que approvo, e bem assim a deliberação que V.S.ª tomou de lançar mão de terça parte de hum tael por cada caixa de Anfião, que o dito ex-Ouvidor Conselheiro e seus herdeiros tem por mercê Régia, o qual disconto ficará sem effeito tão depressa, que acabe de se solver a referida dívida".
O Carlos Manuel da Silveira, assim como o ouvidor Miguel da Arriaga, são vítimas da situação política que grassava em Portugal.
Não é de colocar em dúvida as suas boas intenções de cumprir, com honra, os seus compromissos da venda de armas ao Reino do Sião.
Miguel da Arriaga escrevera para o Brasil para que lhe enviassem as armas e tal não viria acontecer, porque a nação portuguesa estava à deriva, a Corte Portuguesa tinha fugido de Lisboa e instalar-se no Rio de Janeiro e só regressou do Brasil em 1821.
É de imaginar as manobras que teriam de fazer os vice-reis da Índia e os Governadores de Macau para conseguir gerir as possessões, administradas por Portugal, na Índia, Macau e Timor.
Acredita-se, que por falta de comunicações, a nãos existente comunidade europeia, em Banguecoque, o Rei do Sião não deveria ter conhecimento que o Rei de Portugal, para fugir à invasão das tropas napoleónicas, tinha instalado a sua corte no Brasil.
José Martins
Fim da 2ª parte
CONTINUA

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