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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O MUNDO "CÃO" ONDE VIVEMOS

Hoje sábado (16.08.08) ao dar uma vista de olhos pelos jornais de Portugal, fomos como sempre ler as opiniões, quotidianas, do meu amigo, jornalista do Diário de Notícias, de há 16 anos, Ferreira Fernandes. Conhecemos o Ferreira Fernandes durante a agitação política na Tailândia no princípio do ano de 1992 que resultou em dezenas de mortos e feridos. O Ferreira Fernandes, foi o enviado especial do Diário de Notícias para vir reportar o caso. Na altura estava activo no jornalismo como correspondente da "Tribuna de Macau" e o director, daquele semanário, Dr. José Rocha Dinis, telefonou-me de Macau, para que tomasse conta do Ferreira Fernandes, em Banguecoque durante a sua estadia. O jornalista chegou ao aeroporto de Banguecoque e telefonou-me para minha casa. Não o conhecia e respondi-lhe, jornalisticamente: "olhe está com azar a guerra terminou ontem!" E tinha de facto acontecido. Guerras, urbanas, não são nada fáceis para um jornalistas as reportar e sujeitar-se a levar um tiro disparado por atirador furtivo posicionado num telhado de uma casa. Em Banguecoque isso já tinha acontecido com a morte de um jornalista da Nova Zelândia. Ferreira Fernandes, já que estava em Banguecoque e depois da guerra chega a paz, levei-o a Ayuthaya (Aiutaá) e mostrei-lhe o "Ban Portuguete", o forte português "Pom Phet", preencheu duas páginas do DN sobre a sua visita aos locais por onde os portugueses passaram e viveram em Ayuthaya. E mimosou-me com um artigo a quatro colunas que me intitulou: "O Nosso Homem em Banguecoque", que era eu. Não sei se foi pelo facto de ter sido seu guia ou se para me agradecer a "ceia" que lhe ofereci em minha casa... Claro que não foi por isso. Encontrei no Ferreira Fernandes, um daqueles jornalistas, fino e sabedor. Durante a viagem de duas horas de Ayuthaya para Banguecoque, recebi a melhor lição de jornalismo que antes nunca tinha recebido de Ferreira Fernandes e ficou-me para sempre: "relatar-se com seriedade aquilo que os nossos olhos observaram". Tem sido, durante o meu amadorismo de "aspirante" a jornalista, que assim tenho procedido. Mas a razão porque estou aqui a relatar, coisas passadas, é pelo facto de peça que o jornalista escreveu e publicada no DN de 15 do corrente. É pequena concisa, mas transmite muito.
O genérico: "SALTANDO AO SABOR DAS GUERRAS"
" A foto dela, triste, chegando ao aeroporto de Barajas, Madrid: Salomé, georgiana, de 20 anos. Rerrefugiada - não corrijam, é a palavra certa. Fugia de uma guerra, porque a sua avó tinha fugido de uma guerra. Salomé vinha com ela, a avó: Primitiva Adelina Martinez, de 78 anos, espanhola. Faz-se contas contas. Ela foi uma das três três mil crianças espanholas que foram embarcadas pelos pais para a URSS (a Rússia comunista), quando a República espanhola começou a perder para as tropas de Franco. Esperava-se que fosse separação curta, mas a Espanha ficou mais franquista e a URSS era o lado de lá do outro mundo. Dois barcos soprados por ventos contrários da História - imagem talvez bonita não fosse a carga humana. Primitiva encalhou na Geórgia, então soviética, fez por lá família. Salomé já está avisada: pode ter perdido a pátria da sua infância. O mundo é feito assim, aos solavancos´".

Passado cinco anos Ferreira Fernandes voltou a Banguecoque, acompanhado da esposa, mas agora, não vinha em serviço. De férias por países da Ásia. Com ele não vinha o número do meu telefone. No hotel onde se hospedou consegui-o. Levei o casal, no meu carro, para uma volta à circunvalação de Banguecoque para que admirasse o desenvolvimento da capital tailandesa. Almoçamos juntos à margem do rio Chao Prya (Praiá). Precisava de telefonar para Portugal e saber do estado de saúde de seu Pai doente. Passei-lhe o meu móvel e de Portugal foi informado que o seu velho Pai estava a despedir-se do Mundo e dúvidas se ainda o encontraria vivo. Partiu essa noite de Banguecoque para Lisboa na esperança de ainda ver o "velho senhor" seu Pai, vivo que a estava a deixar: "O Mundo cão" onde fomos paridos.
José Martins

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