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terça-feira, 12 de agosto de 2008

EU E OS AZULEJOS PORTUGUESES

Desde a idade dos 10 anos habituei-me a gostar dos azulejos. Na minha aldeia não os havia, mas pedras brutas, graníticas, que depois de trabalhadas terminavam em obra fina de cantaria. Mas na vila de Gouveia (hoje cidade) de quando miúdo, caminhava por carreiros e atalhos, acompanhando o meu pai que à vila ia para pagar a "décima" na Câmara Municipal pelas leiras e cabeços, herdados e já vindos de várias gerações de família. O eu caminhar, desde o sopé da Serra da Estrela, até aos 10 quilómetros onde situava Gouveia era uma festa para um miúdo da minha idade. No regresso o meu pai comprava um "pão trigo" de quatro quartos, que não era mais nem menos que uma gulozeima, para quem estava acostumado a comer pão de centeio, cereal produzido nos cabeços de nossa casa. A igreja paroquial de Gouveia, a sua frontaria, estava revestida de azulejaria e capelas, com motivos religiosos e os fontanários públicos. A festa dos azulejos desenhados, com motivos da vida serrana. Aos 10 anos parti para a cidade do Porto e começar a profissão de "forcado", para mais tarde, tentar segurar o "mundo pelos cornos". Os dos homens não porque os "cornos" destes são invisíveis e não se lhe pode pegar, apesar dos "coices" que apanhei, deles, no correr da minha vida. Quando saí do comboio, fumarento, a esfregar os olhos, devido às faulhas que entravam nas carruagens e saídas da chaminé da máquina e de faces enfarruscado pelas mesmas, isto porque durante a viagem vim sempre à janela, daquele ronceiro "traste" a olhar as novas terras e sua gentes que trabalhavam nos campos. Logo na entrada da gare da estação de S.Bento deparo com as paredes azulejadas: D.Nuno Álvares Pereira a combater os castelhanos na Batalha de Aljubarrota e o Egas Moniz, com a sua família, a pedir desculpa ao rei de Castela pela falta de cumprimento da palavra que lhe tinha dado. No "Porto da Minha Infância" havia azulejos por toda a cidade, quer a decorar as fachadas de igrejas como nas dezenas de casas. Cedo comecei a entender que os azulejos são eternos. Não havia mal que lhes viesse e ninguém mesmo se fossem, vândalos de "baixo estofo" os selvajaria. Bem é que no meu tempo de jovem, já pouco restava da etnia Vândala que passou por Portugal e a história assim nos diz que por onde passava tudo destruia pelo gosto de fazer mal. Nem todos os vândalos se extinguiram em Portugal, só que eram, na altura, vândalos que bem sabiam que não poderiam vandalizar (mesmo que o instinto lhes pedisse) obras de arte, expostas por Portugal no seu todo. No meu tempo as cadeias comarcãs, a maior parte delas, as celas, eram ocupadas por meia dúzia de pilhas galinhas ou de algum, de maus figados, à cacetada, tinha mandado, acompanhado de padre e de caldeirinha água benta para o outro mundo um seu rival. Todas as tretas acima descritas é pelo gosto que tenho e relacionado com a azulejaria portuguesa e vem a propósito de um blogue http://lisboasos.blogspot.com que em boa altura veio a revelar o descalabro que existe na roubalheira e a selvajaria dos azulejos que decoram as paredes de edifícios, jardins e fontanários da cidade de Lisboa. Esta opulenta e vaidosa que foi de outras eras, das especiarias e da pedraria, está em completa ruína, desgraçada e degradada. Se eu fosse governante envergonhar-me-ia do estado em que Lisboa se encontra: lixeirenta, fedorenta e como uma "Pompeia" que não foi o vulcão Vesúvio que a destruiu com a lava, mas a miserável mão do Homem. O mais incrível que possa parecer é como os "pacotilhas" engravatados e vestidos de bom pano não olham para as misérias que seguem por Lisboa. Assim não vale meus senhores, usarem a gravata e os fatos de boa fazenda e não fazerem por preservar a história, a arte e a cultura de um país.
Olhai senhores para essa Lisboa, penicada e toda borrada.


Maquiavelices

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